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Escreve, escreve muito, pequenos artigos, grandes artigos, comentários, coisas pequenas, até um dia...
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"Vedi Napoli, poi muori" *
Consultor em Marketing Turístico e Escritor
Um dia de sorte é sempre feito de vários componentes: a maior parte imprevistos, frequentemente inusitados.
O céu estava claro e o aparelho fazia umas curvas graciosas, quase coreografadas. Talvez para perder altitude. Com uma curva suave, vi a asa, do outro lado da coxia, elevar-se no fundo azul imaculado. Olhei então pela minha janela e reconheci, no meio de uma paisagem que parecia um painel de mosaicos irregulares e esbranquiçados, as casas e, de imediato, a mancha do Palácio Real de Caserta, os edifícios majestáticos e os jardins manicurados, cujos padrões caprichosos se deixam adivinhar mesmo do céu.
Fez nova curva e apareceu a baía em todo o seu esplendor, a cidade, derramando-se pelas colinas até ao mar, mais azul ainda do que o céu, e pontilhado de ilhas, maiores e menores, que fazem contrastar uma tela surpreendente, acrescentando pequenas coroas de espuma branca realçando o contraste dos verdes e dos azuis, que ali, se apresentam particularmente harmoniosos.
Outra curva no céu, ainda mais baixo, e apareceu o vulcão, um misto de terras agrícolas, pequenas e não tão pequenas povoações, com umas áreas pedregosas, talvez queimadas, um testemunho, uma recordação de um poder que está ali, naquele lugar a que chama casa onde continua a poder, tudo o que o homem não pode.
Alguém terá dito ao piloto que já bastava de movimentos coreográficos. O aparelho pareceu ganhar algum impulso. Alinhou-se e, em momentos pousava com uma serenidade surpreendente na pista do aeroporto de Nápoles.
Pouco depois, fiz sinal a um táxi. Aproximei-me com o meu pequeno trólei e o motorista fez-me sinal para que entrasse, com bagagem e tudo.
Mal eu fechei a porta, perguntou-me, atencioso, se queria que baixasse o volume do rádio. Não respondi. Enquanto abria um pouco a janela, arrancou rumo ao centro da cidade. Breve a serenidade daqueles últimos vinte minutos de voo seria escorraçada e uma confusão impressionante estava à espreita para me tomar os sentidos.
Era daqueles à antiga: Primeira vez? Donde vem? Contentou-se com as respostas. Que não, que era mais uma de várias vezes e que vinha de Portugal, muito embora aquele voo me tivesse trazido de Londres. Avançou para a conversa, o que lhe interessava, com mais ânimo do que o velho Mercedes rumo à confusão.
Portugal, ah sim, Portugal. Apontou para o rádio. Acabaram agora mesmo de anunciar... O Nobel da literatura. Ganhou um português, não retive o nome. Depois da aterragem cinéfila, perfeita, aquela viagem a Nápoles, decididamente, começava bem.
Poderíamos sentir-nos tentados a introduzir um anacronismo nesta crónica. Começar a exploração da cidade, onde muitos entendem que termina a Europa, para mencionar Rione Luzzatti e Elena Ferrante, hoje, a autora fetiche de Nápoles depois de Amiga Genial, dos seus Romances Napolitanos, também passada a série televisiva. Não o faremos.
Naquela manhã de Outubro de 1998, Ferrante ainda não era conhecida, mas Nápoles já tinha o seu cronista. Não, não vamos tão longe quanto Virgílio, cujo túmulo se crê estar numa gruta na zona ocidental da cidade, em Mergellina, no meio de um parque com vistas estonteantes da cidade e da sua baía (a ordem dos factores é arbitrária). Mas antes Erri de Luca, o napolitano que há décadas vem contando a história e as estórias da cidade e que, naquela altura, já tinha publicado o seu, Non ora, non qui, sobre a passagem veloz e irredimível, da infância, prenunciando Montedidio, já de 2001, passado no bairro popular homónimo. “Quem subirá ao Montedidio? Quem tiver as mãos inocentes e o coração puro.” De novo a infância, o princípio da adolescência, um rapazinho numa casa vazia que escreve numa bobina de papel que lhe deu o vizinho tipógrafo e atira ao ar o pedaço de madeira que lhe deu o mestre carpinteiro, tentando fazer um bumerangue.
Com traços finos, precisos, Erri de Luca esboça uma cidade popular cheia de beleza e miséria onde o sublime e o repugnante se encontram criando lugares fascinantes.
Tampouco havia ainda a estação de Metro de Siza Vieira e Souto Moura, a de Zaha Hadid ou a estação Toledo de Óscar Tusquets Blanca, que tem sido considerada a mais bela da Europa. E eu não deixaria de correr a ver a maravilhosa sala da meridiana, no Palácio dos Estudos Reais hoje Museu Arqueológico Nacional e a incontornável Piazza del Plebiscito, impactante na pegada que imprime no coração da cidade ou a subtileza do Cristo Velato. Sobre ele, nada como recorrer ao parágrafo contratual que cometeu a obra ao jovem escultor napolitano Giuseppe Sanmartino, realizar “uma estátua de mármore esculpida em tamanho natural, representando Cristo morto, coberto por um sudário transparente realizado no mesmo bloco da estátua”. É que ao contrário do sangue de San Gennaro, que pode ou não se liquefazer para a nossa visita – ainda assim em três datas do ano – nos aguarda sempre, com a mesma tranquilidade, os traços inefáveis e a beleza pungente.
Olhar de longe a beleza do Vesúvio sem partir de imediato para a sua visita ou a da celebrada Pompeia. A meu ver, a pequena Herculano, uma cidadezinha que sofreu o mesmo destino, acaba superando-a, não tanto pelo carácter excepcional dos achados, mas antes pela tranquilidade prazerosa da visita e a possibilidade de dar largas à imaginação e sentir-se ali no século l e cruzar-se com os transeuntes no seu quotidiano que não podem, felizmente para eles, imaginar o quão famosos ainda vão ser um dia.
Ao fim da tarde, subindo a Via Toledo e entrando num daqueles pequenos bares que se derramam sobre a rua em recantos delimitados por vasos de terracota, tomando o aperitivo do momento e vendo a cidade acolher o tramonto, destacando com o garfo de lado, pequenos pedaços de uma fatia de Sartù di riso.
* “Ver Nápoles e depois morrer”. Expressão que provém de um comentário de Goethe, no diário de viagem após a sua visita no século XVIII.
https://postal.pt/edicaopapel/vedi-napoli-poi-muori-por-jose-garrido/