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Vedi Napoli, poi muori *

por jg, em 10.11.25

<Piazza Plebiscito.jpg

"Vedi Napoli, poi muori" *

Consultor em Marketing Turístico e Escritor

 

 

Um dia de sorte é sempre feito de vários componentes: a maior parte imprevistos, frequentemente inusitados.

O céu estava claro e o aparelho fazia umas curvas graciosas, quase coreografadas. Talvez para perder altitude. Com uma curva suave, vi a asa, do outro lado da coxia, elevar-se no fundo azul imaculado. Olhei então pela minha janela e reconheci, no meio de uma paisagem que parecia um painel de mosaicos irregulares e esbranquiçados, as casas e, de imediato, a mancha do Palácio Real de Caserta, os edifícios majestáticos e os jardins manicurados, cujos padrões caprichosos se deixam adivinhar mesmo do céu.

Fez nova curva e apareceu a baía em todo o seu esplendor, a cidade, derramando-se pelas colinas até ao mar, mais azul ainda do que o céu, e pontilhado de ilhas, maiores e menores, que fazem contrastar uma tela surpreendente, acrescentando pequenas coroas de espuma branca realçando o contraste dos verdes e dos azuis, que ali, se apresentam particularmente harmoniosos.

Outra curva no céu, ainda mais baixo, e apareceu o vulcão, um misto de terras agrícolas, pequenas e não tão pequenas povoações, com umas áreas pedregosas, talvez queimadas, um testemunho, uma recordação de um poder que está ali, naquele lugar a que chama casa onde continua a poder, tudo o que o homem não pode.

Alguém terá dito ao piloto que já bastava de movimentos coreográficos. O aparelho pareceu ganhar algum impulso. Alinhou-se e, em momentos pousava com uma serenidade surpreendente na pista do aeroporto de Nápoles.

Pouco depois, fiz sinal a um táxi. Aproximei-me com o meu pequeno trólei e o motorista fez-me sinal para que entrasse, com bagagem e tudo.

Mal eu fechei a porta, perguntou-me, atencioso, se queria que baixasse o volume do rádio. Não respondi. Enquanto abria um pouco a janela, arrancou rumo ao centro da cidade. Breve a serenidade daqueles últimos vinte minutos de voo seria escorraçada e uma confusão impressionante estava à espreita para me tomar os sentidos.

Era daqueles à antiga: Primeira vez? Donde vem? Contentou-se com as respostas. Que não, que era mais uma de várias vezes e que vinha de Portugal, muito embora aquele voo me tivesse trazido de Londres. Avançou para a conversa, o que lhe interessava, com mais ânimo do que o velho Mercedes rumo à confusão.

Portugal, ah sim, Portugal. Apontou para o rádio. Acabaram agora mesmo de anunciar... O Nobel da literatura. Ganhou um português, não retive o nome. Depois da aterragem cinéfila, perfeita, aquela viagem a Nápoles, decididamente, começava bem.

Poderíamos sentir-nos tentados a introduzir um anacronismo nesta crónica. Começar a exploração da cidade, onde muitos entendem que termina a Europa, para mencionar Rione Luzzatti e Elena Ferrante, hoje, a autora fetiche de Nápoles depois de Amiga Genial, dos seus Romances Napolitanos, também passada a série televisiva. Não o faremos.

Naquela manhã de Outubro de 1998, Ferrante ainda não era conhecida, mas Nápoles já tinha o seu cronista. Não, não vamos tão longe quanto Virgílio, cujo túmulo se crê estar numa gruta na zona ocidental da cidade, em Mergellina, no meio de um parque com vistas estonteantes da cidade e da sua baía (a ordem dos factores é arbitrária). Mas antes Erri de Luca, o napolitano que há décadas vem contando a história e as estórias da cidade e que, naquela altura, já tinha publicado o seu, Non ora, non qui, sobre a passagem veloz e irredimível, da infância, prenunciando Montedidio, já de 2001, passado no bairro popular homónimo. “Quem subirá ao Montedidio? Quem tiver as mãos inocentes e o coração puro.” De novo a infância, o princípio da adolescência, um rapazinho numa casa vazia que escreve numa bobina de papel que lhe deu o vizinho tipógrafo e atira ao ar o pedaço de madeira que lhe deu o mestre carpinteiro, tentando fazer um bumerangue.

Com traços finos, precisos, Erri de Luca esboça uma cidade popular cheia de beleza e miséria onde o sublime e o repugnante se encontram criando lugares fascinantes.

Tampouco havia ainda a estação de Metro de Siza Vieira e Souto Moura, a de Zaha Hadid ou a estação Toledo de Óscar Tusquets Blanca, que tem sido considerada a mais bela da Europa. E eu não deixaria de correr a ver a maravilhosa sala da meridiana, no Palácio dos Estudos Reais hoje Museu Arqueológico Nacional e a incontornável Piazza del Plebiscito, impactante na pegada que imprime no coração da cidade ou a subtileza do Cristo Velato. Sobre ele, nada como recorrer ao parágrafo contratual que cometeu a obra ao jovem escultor napolitano Giuseppe Sanmartino, realizar “uma estátua de mármore esculpida em tamanho natural, representando Cristo morto, coberto por um sudário transparente realizado no mesmo bloco da estátua”. É que ao contrário do sangue de San Gennaro, que pode ou não se liquefazer para a nossa visita – ainda assim em três datas do ano – nos aguarda sempre, com a mesma tranquilidade, os traços inefáveis e a beleza pungente.

Olhar de longe a beleza do Vesúvio sem partir de imediato para a sua visita ou a da celebrada Pompeia. A meu ver, a pequena Herculano, uma cidadezinha que sofreu o mesmo destino, acaba superando-a, não tanto pelo carácter excepcional dos achados, mas antes pela tranquilidade prazerosa da visita e a possibilidade de dar largas à imaginação e sentir-se ali no século l e cruzar-se com os transeuntes no seu quotidiano que não podem, felizmente para eles, imaginar o quão famosos ainda vão ser um dia.

Ao fim da tarde, subindo a Via Toledo e entrando num daqueles pequenos bares que se derramam sobre a rua em recantos delimitados por vasos de terracota, tomando o aperitivo do momento e vendo a cidade acolher o tramonto, destacando com o garfo de lado, pequenos pedaços de uma fatia de Sartù di riso.

 

* “Ver Nápoles e depois morrer”. Expressão que provém de um comentário de Goethe, no diário de viagem após a sua visita no século XVIII.

https://postal.pt/edicaopapel/vedi-napoli-poi-muori-por-jose-garrido/

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Porvenir - Tierra del Fuego.jpg

 

 

Outubro de 2019. Um jipe em contramão embate num carro, Afonso Cruz é um dos passageiros. Numa passagem do seu livro mais recente, escreve sobre a iminência do fim. Estamos em Punta Arenas. Meio ano antes o meu avião fez-se, vagarosamente, à pista – depois de 12 horas desde Rapanui, na minha cabeça tudo parecia vagaroso. Situada na embocadura oeste, do Estreito de Magalhães é a porta de entrada para a Patagónia. Antes da abertura do canal do Panamá, era ponto de passagem obrigatório para os navios que desde o atlântico, da Europa, rumavam ao pacífico. Coincidentemente teve a sua corrida ao ouro, e depois, a passagem dos que buscavam a da Califórnia, primeiro, e a do Klondike, mais tarde. Não foi o que me trouxe, mas antes o fascínio pela Patagónia. Um ferry, pintado de cores pardas, com pinceladas de ferrugem, liga as duas margens do Estreito, cheguei com conforto, mais ou menos, a Porvenir com menos de 7000 habitantes a cidade mais populosa da Tierra del Fuego chilena. O navio reduziu a marcha, com suavidade, e entrou numa pequena baía bem protegida do mar e dos ventos. Atracou em silêncio, sem necessitar recorrer à inversão dos motores para acostar à margem, e o carro deu uns solavancos quase graciosos nas placas de metal canelado que fazem as vezes da passadeira vermelha, estendida para os meus primeiros passos na Tierra del Fuego. Um sonho de infância, que não infantil. A costa noroeste da ilha é exposta aos caprichos de ventos possantes que sopram sobre as ondas do Pacífico. A vegetação apresenta-se um pouco ressequida e a estepe prolonga-se até ao horizonte pontuada por árvores teimosas cuja inclinação face à vertical é a sua única concessão ao tratamento agreste do clima. As estradas não são asfaltadas e trazem uma gama de tonalidades de cinza a uma paleta modesta, dir-se-ia envergonhada. Traçam uma faixa contrastante que parece inutilmente querer separar a estepe, terra de siena queimada, do mar muito escuro, muito prata, muito metido consigo. Calhaus polidos, rolando desde sempre nos bicos de pés das ondas incansáveis, estremecem oferecendo mais profundidade à paisagem. As nuvens espraiam-se à vontade – aqui tudo parece espaçoso, reforçando a sensação de longínquo e em contradição, aproximando o horizonte. É uma ilha enorme onde vêm terminar os últimos contrafortes dos Andes e a Placa Sul-Americana e a Placa de Scotia se entretêm, como Maria, de Ricardo Reis, ao longo das tardes da eternidade, não a fazer meia, mas a um espectáculo ininterrupto, digno de um Agosto em vilória de província, a gerar instabilidade tectónica e actividade sísmica impressionantes. É uma beleza de uma modéstia pungente a que nos acolhe na Tierra del Fuego. De quando em quando, parecendo emergir da estepe, uns quantos guanacos, cabriolam numa das suaves colinas junto ao caminho. Um barco pintado de amarelo-açafrão, preguiçando de borco sobre os calhaus, deixa-se afagar com suavidade, já quase só pela espuma das ondas. Pontuando os limites do estradão, curtos postes de madeira, listados de branco e vermelho cádmio, foram aqui colocados, para facilitar a detecção durante as tempestades e os nevões – ou só para realçar, introduzindo uns apontamentos de cor. Ao longo da costa, observamos algumas colónias de pinguins-rei, facilmente reconhecíveis pelo tamanho e exuberância do seu babete dourado. Os cormorões passeiam-se despreocupadamente à beira-mar ou fazem curtos vôos de reconhecimento. Argentinos e Chilenos, puseram-se de acordo sobre a intensificação da exploração da ilha. Em pouco tempo estâncias descomunais tomaram conta da maior parte do território – onde as características selvagens do território o permitiram, e deram mão-livre à selvajaria humana – a que tudo permite. As vítimas deste processo de ocupação do território foram os Selknam perseguidos pelos fazendeiros, pelos homens do garimpo e mesmo por assassinos profissionais, em caçadas organizadas, pagando-se-lhes pelo número de orelhas cortadas. Atravessamos a Ilha Grande. Aparecem mais guanacos e algumas manchas arbóreas, os bosques de lenga. É por aqui que vive a raposa colorada fueguina, esquiva e naturalmente camuflada. Francisco Coloane, talentoso autor chileno, passou uma parte importante da sua vida nestas terras austrais, e deixou-nos uma brilhante colecção de contos, Tierra del Fuego, onde nos relata a beleza quase inescrutável do território e a crueldade que acompanhou a expansão de diferentes aventureiros que desbravaram a riqueza impressionante da ilha e a sua exploração intensiva. Serão Sepúlveda, sempre destro e ágil com a palavra, no seu belíssimo Patagónia Express, e Chatwin, em Na Patagónia, recheados ambos de episódios fantásticos, que acompanharão a viagem, como um marcador florescente traçando rotas sobre o mapa. Rumando até ao extremo sul, a Ushuaia, encontramos Tolhuín, pequena cidade nas margens do Lago Fagnano… a cidade é bem pitoresca – uma colorida mancha de barracões de madeira à beira-mar, contra um fundo montanhoso que evoca paisagens que associamos à Noruega. Aqui encontramos a Confitería La Unión a coisa mais deliciosa e gulosa, a esta distância, mínima, do pólo. Se Amundsen tivesse passado por aqui não teria sido o primeiro a chegar ao Polo Sul…

 

(*) Hay paisajes, como instantes de la vida, que no se borran jamás de la mente. Francisco Coloane

 

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Convalescendo de Sarampo.jpg

LETRAS & LEITURAS: Entrevista de Paulo Serra a José Garrido publicada no Caderno de Artes Cultura.Sul de setembro

 

Em 1947, o primeiro avião da SATA a arrancar com a operação interilhas, o Açor deixa de comunicar com a torre de controlo de Santa Maria e desapareceu, com seis pessoas a bordo.

Este facto histórico inspirou o segundo romance de José Garrido. O Último Vôo do Açor partiu de uma investigação do autor e ficcionou a história de Vítor, a personagem central, a partir desse malogrado desaparecimento.

A obra, lançada recentemente, recupera este episódio trágico da aviação açoriana e cruza-o com memórias familiares, criando um romance entre a realidade e a ficção.

A intriga tem como ponto de partida uma tragédia verídica: o desaparecimento, a 5 de agosto de 1947,
do primeiro avião a operar as carreiras inter-ilhas da SATA.

A aeronave, Beechcraft UC-45B Expeditor, baptizada de “Açor”, representava o início da aviação civil regular nos Açores, marcando o começo das ligações aéreas entre as ilhas. No dia do acidente, o “Açor” descolou de São Miguel com destino a Santa Maria, transportando quatro passageiros e dois tripulantes a bordo, entre eles, o tio de José Garrido.

A escrita exigiu uma profunda investigação, nos meandros dos arquivos históricos. Garrido passou horas na Biblioteca e Arquivo Regional dos Açores e consultou documentos posteriormente divulgados pela própria SATA.

José Garrido, natural de Sintra, tem uma ligação afetiva antiga aos Açores. A sua trajetória pessoal e profissional levou-o por caminhos diversos, da ciência ao marketing, com passagem pelo sector do turismo. Estudou no Instituto Superior Técnico e, mais tarde, em Edimburgo, na Escócia, onde aprofundou os seus conhecimentos em marketing e gestão.

«Víctor regressou a São Miguel depois de várias vidas na pesca, na Terra Nova, e já não é o aventureiro que cresceu livre com o gado. Vem aprimorado, senhor de ciência e truques mais elaborados. É vigia das baleias e vê negócios, principalmente retorcidos, mais rápido que o ar quente condensado dos sopros no horizonte, e antes de qualquer outro. Um caixote com lingotes, fugindo da guerra rumo à segurança nos EUA, cai-lhe no bote. Mas não vai ser fácil desfrutar daquele presente inesperado. Com a subida da parada a vida complica-se tragicamente. Mal-entendidos com a PIDE empurram-no para um trabalho mais prosaico, no aeroporto. E poucas semanas após o início das carreiras, o Açor, o primeiro avião do serviço interilhas, deixa de responder à torre do aeroporto de Santa Maria. Na verdade, nunca chegará a responder.»

P – “O Último Vôo do Açor”, o seu segundo romance, era para ter sido o seu primeiro livro. A que se deve este compasso de espera?
R – Sim, a primeira vez que me ocorreu abraçar uma obra de fôlego – por comparação aos artigos, crónicas e pequenos contos – a história do Açor, seria, muito naturalmente, a primeira escolha. E foi. Mas bloqueei. Talvez pelo muito que tinha pensado sobre o tema, pela relação íntima, familiar, com a história, bloqueei. Tive pudor de entrar pela vida daquelas pessoas, dos malogrados ocupantes do Açor. Foi então que avançou As Estranhas Sombras da Argânia, igualmente com muito de pessoal, mas que me oferecia mais graus de liberdade, do ponto de vista criativo e afetivo.

P – O livro inspira-se, livremente, numa tragédia verídica, que foi o desaparecimento, a 5 de agosto de 1947, do primeiro avião a operar as carreiras interilhas da SATA. Existe ainda uma ligação familiar do autor a um dos tripulantes a bordo. No entanto, podemos afirmar que é sobretudo a ficção a comandar livremente o leme?
R – Correto. A solução que encontrei para ultrapassar o bloqueio foi a introdução de um personagem totalmente meu. Víctor representa uma espécie de entrada ex machina que resolve o meu drama interior. Completamente ficcional é ele quem conduz a narrativa. Às vítimas foram dedicados os poucos capítulos que antecedem o Livro Primeiro e só regressam no final para o desenlace-titanic que é, em princípio, do conhecimento dos leitores. facto histórico inspirou o segundo romance de José Garrido. O Último Vôo do Açor partiu de uma investigação do autor e ficcionou a história de Vítor, a personagem central, a partir desse malogrado desaparecimento.

A obra, lançada recentemente, recupera este episódio trágico da aviação açoriana e cruza-o com memórias familiares, criando um romance entre a realidade e a ficção.

P – “O Último Vôo do Açor”, o seu segundo romance, era para ter sido o seu primeiro livro. 
A que se deve este compasso de espera?


R –
 Sim, a primeira vez que me ocorreu abraçar uma obra de fôlego – por comparação aos artigos,
crónicas e pequenos contos – a história do Açor, seria, muito naturalmente, a primeira escolha.
E foi. Mas bloqueei. Talvez pelo muito que tinha pensado sobre o tema, pela relação íntima,
familiar, com a história, bloqueei. Tive pudor de entrar pela vida daquelas pessoas, dos
malogrados ocupantes do Açor. Foi então que avançou As Estranhas Sombras da Argânia,
igualmente com muito de pessoal, mas que me oferecia mais graus de liberdade, do ponto de vista
criativo e afetivo.

P – Pode falar-nos um pouco do processo de pesquisa para este livro?
R – A história, com todas as omissões inerentes a um episódio trágico remoto e apesar de tudo algo paroquial, sempre fora do meu conhecimento. Quando da primeira abordagem passei algum tempo na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada. Depois, ao regressar ao tema, investiguei nos arquivos, civis e militares, nacionais em Lisboa, documentação referente a vários episódios pertinentes, da Segunda Guerra Mundial, nos arquivos da CIA e junto de investigadores internacionais. Coincidentemente, a SATA entregou, por essa altura, o seu acervo histórico à BPARPD e regressei então a Ponta Delgada para mergulhar na história dos primórdios da aviação comercial nos Açores. O relatório do acidente, da Direcção-Geral da Aeronáutica Civil, cuja obtenção, na primeira abordagem, a de há quase quinze anos, me tinha custado quase um rim e, para além dos históricos ‘o’ que algumas máquinas de escrever faziam como pequenos furos circulares, vinha redigida para privacidade, com muitas passagens cobertas a negro, passou, entretanto, a estar, na íntegra, disponível na internet…

P – Há distância de três quartos de séculos, quais são os dados que conseguiu confirmar? E aqueles que poderia desmentir?
R – O avião foi devidamente revisto em Lisboa e fez voos de teste, entre Lisboa e Porto, antes de ser desmontado e enviado para Ponta Delgada.

Os dois pilotos envolvidos na operação, pese embora a sua juventude, eram (militares) experientes, com formação em Portugal e Inglaterra. O voo sinistrado era um voo regular, devidamente calendarizado e a tripulação estava descansada. As condições meteorológicas eram ‘normais’. O relatório da DGAC refere um valor excessivo para a carga, mas parece ser um erro, o que é plausível face ao aspeto e estilo gerais do relatório. Especialistas descartaram a possibilidade de explosão.

Os escassos destroços recolhidos no mar: um coxim de pergamoide; a mala (saco) do correio de PDL para Lisboa com o selo do dia e; um chinelo de quarto feminino azul; não permitem mais ilações.

P – Há uma personagem, criada pelo autor, que serve de fio condutor à intriga. Víctor afigura-se um anti-herói peculiar, solitário, embora querido por todos, com uma vida quase monástica, e a sua vida cheia de reviravoltas parece digna de uma narrativa picaresca. Concorda?
R – Sim. Eu queria que o Víctor fosse assim mesmo. Com práticas muitas vezes condenáveis e opções morais duvidosas, mas que pudesse despertar simpatias. Eu acredito que a partir de um determinado momento, pelo menos é essa a minha experiência, os personagens de algum modo libertam-se e começam a ganhar uma voz própria. Há aquela metáfora, atribuída ao Miguel Ângelo, que o autor se limita a desbastar o excesso na pedra para expor as formas da figura emergente, não recorreria a ela, mas é uma coisa tipo mediúnica… o que eu posso dizer é que ele apareceu assim, um lazarillo das ilhas…

P – Ainda sobre o fio da narrativa e as reviravoltas, há vários momentos do livro, que lhe dão mais sal, em que o leitor avança ou recua ao longo da história, entre os anos de 1908 e 1947, sensivelmente. Como se dessa forma se tentasse estender o quadro da narrativa e ter uma noção mais abrangente da própria história que envolve a posição de Portugal e dos Açores em particular entre as guerras.
R – Sim, entendi que era importante, para dar maior densidade às personagens fornecer esse contexto. A informação sobre diferentes momentos históricos, como por exemplo o Regicídio, quando o jovem Víctor vai embarcar para a Terra Nova, ou sobre a história daquela então colónia britânica e da influência dos seus colonos, bascos e galegos, cria, acredito eu, um cenário mais espesso para a ação, para além de, e esse é um aspeto característico do meu trabalho abordar a questão da comunicação entre as pessoas. No fundo foi necessária para construir o Víctor, essa componente do tipo bildungsroman que é o Livro Primeiro. Para além disso há dois traços marcantes: a viagem lato sensu, que desloca tanto como transforma o personagem e, de igual modo, a comunicação, que se processa muito para além dos idiomas aprendidos.

P – Aspeto curioso, e talvez irónico, do livro, é como através de algumas personagens vai pontuando aspetos não só próprios dos Açores mas inclusive da Ria Formosa, como “o Tiago, um homem da Fuzeta”…
R – São a minha marca de pedreiro. Nas minhas histórias existe sempre um personagem que sai do quase anonimato por essa menção da origem. É a DOC… No primeiro romance era a Fá, uma rapariga da Culatra. Posso mesmo adiantar que no trabalho que se seguiu, ao personagem ‘algarvio’, nesse caso de Santo António de Arenilha, juntaram-se-lhe duas freiras micaelenses, de Vila Franca do Campo.

Imagino que será sempre assim.

P – Dir-se-ia que a narrativa tenta, geralmente, ser isenta. No entanto há passagens em que o autor pontualmente se denuncia com comentários e observações mais acutilantes ou pessoais…
R – Mas não é sempre assim? Até que ponto é que é possível ao autor promover essa clivagem radical e separar-se por completo da estória? Apesar dos tradicionais disclaimers o autor está sempre lá, como o Víctor que a sinopse descreve. É tudo ficção, qualquer semelhança… mas não. Eu sei que já assumi esse ‘distanciamento’, que já referi o artista que empunha o escopro e que ajuda a figura a emergir do mármore, mas também posso reconstruir a metáfora e dizer que o autor não está no escopro, mas no bloco, no mármore…

P – Por fim, não obstante o desfecho trágico do último voo do Açor, há um capítulo, temporalmente deslocado que nos remete para um final mais auspicioso relativamente às desventuras de Víctor, esse “senhor de ciência e truques mais elaborados”…
R – Sim, esse Víctor, onde já projetámos lazarillo acaba por ser a arraia-miúda de Fernão Lopes, curiosamente uma expressão que o cronista vai buscar à nossa herança árabe. Um anti-herói que é todos nós e mais prosaicamente um mau-carácter de que possamos gostar.

Como já referi esta é uma história tipo titanic. Por conseguinte o elemento surpresa está naturalmente limitado, ou na tal perspetiva da viagem que mencionei anteriormente, o caminho percorrido é mais importante do que a estação de chegada, então, entendi que fazia sentido que houvesse uma voz-off que procedesse ao encerramento. É ela que tem a última palavra…

P – Já é altura de desvelar um pouco sobre novos projetos de escrita?
R – Por que não? É sempre tempo de falar de coisas boas…

Depois de O Último Vôo do Açor eu já escrevi outro romance. No primeiro, As Estranhas Sombras da Argânia, trabalhei um período de tempo limitado, o de uma viagem pelo Sul da Argélia em 1984. Para o Açor, como já disse, optei por trabalhar com o percurso de vida do Víctor culminando com a tragédia histórica do avião da SATA. Para o próximo resolvi ir mais fundo, ao século dezassete e trabalhar o percurso de vida do personagem principal. É uma história passada na raia transmontana, que me foi inspirada pela vida de um barbeiro-cirurgião, tal e como no-la conta o respetivo processo do tribunal da Inquisição de Coimbra que pude consultar na Torre do Tombo. Estará presente a viagem, uma longa viagem que fará realçar as questões associadas à comunicação entre os homens, à respetiva matriz cultural e comunitária. Estão presentes o algarvio e as freiras micaelenses que já mencionei. Está escrito, lido e revisto. Lido em voz alta e a marinar, a ganhar espessura, a convencer-me de que supera o teste do tempo… talvez no próximo ano.

Entretanto, por causa deste desfasamento entre o tempo da escrita e o tempo da publicação, voltei a escrever. Pela primeira vez, optei por escrever sem me refugiar numa bolha da qual estão ausentes as leituras que não sejam investigação para a própria obra. Isso e questões pessoais, levaram ao prolongamento inusitado da escrita. Tenho bem mais de metade do romance escrito, mas não consigo, de momento, antecipar o momento da conclusão. Pela primeira vez penso trazer a história até (quase) à atualidade. A narrativa começa em Moçambique e passa pela Etiópia culminando em Lisboa – e posso revelar que o protagonista já desembarcou em Lisboa…

https://postal.pt/edicaopapel/entrevista-a-jose-garrido-o-ultimo-voo-do-acor-por-paulo-serra/

 

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Interior da casa onde nasceu MTG em Portimão.jpg

Não é com certeza fácil para um português médio recordar os nomes dos presidentes da república. Tudo o que fica para além dos inquilinos de Belém que precederam a sua experiência de vida adulta é uma coisa longínqua que aparece num cocktail de memória com Sebastião e Afonso Henriques – o que é natural porque, então, não eram figuras que se vissem todos os dias…

Amante de livros e algarvio, grande viajante, esteta e homem de cultura, a figura do portimonense Manuel Teixeira Gomes é, porém, incontornável, e para além disso fascinante.

No seu tempo a cidade chamava-se Vila Nova de Portimão. Nascido numa família abastada, MTG interessou-se cedo pela cultura e pelas artes. Aborreceu os estudos em Coimbra, como aliás a Camilo os estudos no Porto, e cedo se apostou como um flâneur profissional.

Viajava pelo sul da Europa, principalmente, procurando mercadorias e colocação para os frutos secos que faziam a riqueza da sua família, como a das outras famílias abastadas do Algarve, e deliciando os sentidos nas paisagens, nas artes, na gastronomia nos vinhos e nas gentes.

Interessa-se pela política e logo em 1911 é nomeado embaixador em Londres: o primeiro da nova República. Não é um momento fácil das relações na putativa mais velha aliança do mundo: a instauração da república e a consequente substituição na embaixada do marquês de Soveral, com excelentes relações na corte, fazem com que apenas alguém com uma cultura e um carisma superlativo conseguisse entrosar-se no establishment britânico e ganhar mesmo a simpatia e afecto do rei Jorge V. 

MTG tem uma missão. Acredita que o conflito que vai começar, modificará a política no continente, e o continente ele mesmo, e entende que Portugal não pode ficar à margem. Não é o que hoje chamaríamos um falcão, um belicista, mas para ele, a nova república tem necessariamente de tomar partido e entrar sem reticências do lado dos Aliados.

Em Portugal o regime não prima pela estabilidade. Enganam-se todos aqueles que acreditam que no dia da revolução, as coisas mudam. Que na manhã seguinte as forças em presença são outras e as condições sociopolíticas radicalmente diferentes. Não foi assim em 1910 e não foi assim nunca.

Em 1918, com a chegada de Sidónio Pais, dão-se mudanças significativas no regime e nas políticas da República. MTG é retirado de Londres e aprisionado no Hotel Avenida Palace – eu disse-vos que era um homem de bom gosto…

A débacle das forças expedicionárias portuguesas e da administração, incapaz, primeiro de as abastecer e depois do armistício de as repatriar, gera um mal-estar significativo que culmina com o assassinato de Sidónio.

MTG volta ao activo, é embaixador em Madrid, participa na Conferência de Paz em Madrid e reassume a representação portuguesa em Londres. É aí que está quando o parlamento o elege presidente da república – a eleição directa é coisa da terceira república e nesta estória ainda vamos na primeira.

O telegrama a informar da eleição segue para Londres e MTG faz as malas. Jorge V faz questão de pôr à sua disposição um cruzador da marinha real para o transportar – uma coisa impressionante para alguém que não é oriundo da nobreza nacional – e é assim, com pompa e circunstância, que desembarca em Lisboa.

Em Belém as coisas não se apresentam fáceis. MTG será presidente durante dois anos durante os quais empossou seis governos. A agitação, também nos sectores militares, é crescente, tal como a simpatia por soluções de cariz autoritário. Sentindo-se impotente, porventura nauseado e saudoso, talvez, das suas viagens, MTG renuncia uma primeira vez e, definitivamente, em Dezembro de 1925, alegando razões de saúde e vontade de voltar a dedicar-se à actividade literária. Menos de uma semana mais tarde embarca num cargueiro holandês, dir-se-á que o primeiro a sair de Lisboa, que nem de propósito, segue para a Argélia francesa. Aí começa o seu auto-exílio e nunca mais regressará a Portugal.

Nos primeiros seis anos investe-se em viagens pela bacia do mediterrâneo – talvez aí as saudades da terra (perdoe-me Gaspar Frutuoso a apropriação), fossem menos dolorosas… São anos dedicados à bacia do mediterrâneo cuja luz e as paisagens persegue incessantemente. Escreve, escreve muito, a maior parte das suas obras, e algumas memórias saudosas e pungentes, como Regressos. Escreveu um dia: Viajar, sozinho e sem plano, sem guia.

Percorre a costa mediterrânica da Argélia, Orão e Argel que torna a visitar amiúde e escolhe Bougie, na costa da Cabília, onde se instala num quarto singelo do modesto Hotel l’Étoile, na pequena praça Gueydon.

É no quarto 13 – ainda hoje visitável – mantendo correspondência com alguns amigos e recebendo escassas visitas, que passa os derradeiros dez anos de vida. Ali, de frente para o mediterrâneo, o homem que um dia, quase 40 anos antes, no Porto, escreveu Agosto Azul.

O céu, de um azul intensíssimo, está como que esponjado de peque­nas nuvens; a Ponta do Altar perfila-se com o seu recorte siracusano, e pouco a pouco, ao declinar do Sol, acende-se em oiro.

 

A Ponta do Altar perfila-se […] e pouco a pouco, ao declinar do Sol, acende-se em oiro

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As janelas do Corredor Vasari sobre a Ponte Vecchi

 

Agosto é o mês das férias. E dos excessos: uns amam e outros odeiam. É também quando encontramos as atracções mais congestionadas e as tarifas mais elevadas. Há anos, em resposta a um comentário surpreso face ao preço do um alojamento, ouvi um proprietário retorquir, “Agosto só há um!”

Com o advento do transporte aéreo low-cost e a insistência das administrações em subsidiá-lo, os preços são mantidos artificialmente baratos prejudicando opções por viagens mais sustentáveis e expondo a hipocrisia de muitas medidas ditas, pelo planeta.

Florença é, há muitas décadas e justificadamente, um grande pólo de atracção turística.

Uma época curta de grande disponibilidade económica e, raríssimo na história da humanidade, a generalização do bom gosto, conduziu a um período irrepetido de criação artística que justifica hoje a grande atractividade da cidade, mesmo no contexto, muito competitivo, da Península Itálica.

Florença pode com facilidade ser um lugar detestável, mas acredite, leitor, se ainda não conhece, arranje rapidamente maneira de a visitar. Primeiro porque é fascinante belíssima e imperdível, e segundo, porque a situação a partir daqui só poderá piorar…

Porque é Agosto, ofereça-se o prazer de uma leitura leve, mas desafiante, já virão outros meses em que lhe traremos propostas mais sisudas...

Que tal um Dan Brown? O “Inferno”: o título remete para Dante, mas nem de propósito, excelente para explorar a cidade e; ou dependendo da sofreguidão com que lê em férias, uma biografia ficcionada, a de Michelangelo Buonarroti, sim, esse mesmo, no excelente “The Agony and the Ecstasy” de Irving Stone.

Florença não é fácil e não se revela com facilidade. A última década trouxe-lhe hordas de turistas que já não vêm apenas na Primavera e no Verão.

O visitante tem de se vestir de argúcia e escolher datas inócuas no calendário. Eu sei, eu sei, mas tem de ser assim e acredite-me que vale o sacrifício.

Portanto nada de festas especiais nem de pontes nos principais mercados emissores. Um bom truque, também aplicável em Silves, mas por outras razões, é estabelecer uma relação de cumplicidade com o mau tempo. Sim, leu bem. Já definimos que não visitaremos no Verão. Então, após uma bela chuvada, é o momento ideal para a visita. Em Silves para se beneficiar do ocre sanguíneo que o arenito das muralhas ganha então, em Florença, para evitar as sete pragas do Egipto num dia só.

Se leva consigo o Dan Brown então não vai querer perder o corredor Vasari. Verifique com antecedência as condições da visita e reserve. A passagem foi criada no século xvi para uso dos Medici, a família cujo nome é sinónimo de Florença e ambas de Renascimento. Residiam no Palácio Pitti, na margem sul do Arno e exerciam o seu poder no Palácio Vecchio, aquele mesmo que tem na frente a cópia do famoso David. Por segurança, conveniência e comodidade, mandaram construir a passagem sobreelevada, que liga os dois centros da sua influência e ambas as margens da cidade. Durante longas décadas caiu em desuso e quase esquecimento sendo que a sua extremidade norte desemboca nas fabulosas Galerias Uffizi e chegou a ser utilizado como armazém: dos “trastes” do Museu.

O mundo pareceu acordar para o corredor Vasari em 2013 com a publicação de “Inferno”, o livro de suspense histórico a que se seguiu três anos mais tarde o filme homónimo. Mas na verdade, já no incontornável filme, Paisà (Libertação, 1946), de Roberto Rossellini, a enfermeira americana e o guerrilheiro italiano, recorrem à passagem para entrar na cidade que suspeitam ter sido abandonada na véspera pelas tropas nazis após a destruição das pontes.

A realidade mostrar-lhe-á, leitor, que hoje só é possível fazer o percurso contra a corrente, da cidade para oltrarno, a outra-banda florentina.

Tenha a precaução de admirar antecipadamente as fabulosas portas do Baptistério, brutal trabalho de Ghiberti, das quais terá dito Michelangelo que eram dignas de ser as verdadeiras portas do Paraíso. Atenção que, na verdade, são cópias, as originais estão ali perto no museu da Comissão Fabriqueira da Catedral (Museo dell'Opera del Duomo), vizinhas da Pietà Bandini, de Michelangelo, como os Escravos Cativos, incompleta e igualmente sublime. É que em Florença “tudo são trocos”, o que por isso mesmo justifica (quase) todo o desconforto e sofrimento da visita…

Sensivelmente por aqui, estaria o depósito de materiais de construção da catedral, onde esteve bastante tempo o gigantesco bloco de mármore de Carrara que vários escultores famosos hesitaram em trabalhar. Um bloco com mais de 5 metros que o inventário referia como ‘toscamente extraído e deitado’. Mas em Agosto de 1501, há precisamente 524 anos o contracto era outorgado: a comissão “escolheu como escultor o insigne mestre, Michelangelo, filho de Lodovico Buonarrotti, cidadão de Florença, com o propósito de que produza, complete e aperfeiçoe a figura masculina conhecida como o Gigante […] armazenado nas oficinas desta Catedral.” Assim nasceu o David.

 

 

*Provérbio toscano: Idiota é aquele que se ocupa com a vida alheia.

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Foi talvez a primeira vez…

Seria ao lusco-fusco, já. Um casal que regressava, de um daqueles lugares na Nova Inglaterra que, aqui, crismados com engenho e ternura, ganham novos nomes, um Batefete ou Plimente, ofereceram-me com uma generosidade que muitas viagens depois, sei que não era fruto do momento, mas antes uma característica solidamente ancorada no ser destas gentes, boleia com o familiar que os aguardava para levar a casa.

Por estranho que pareça, houve um tempo em que viajávamos sem reservas, sem comunicações móveis, com informação local saborosamente antiquada, em papel bíblia, e avara de gravuras. ‘Online’ soava a uma interpelação paterna, para andar na linha, e não se usava. Creio até que, com ou sem, andávamos mais na linha, nesses tempos menos piagetianos, mas não é esse o tema de hoje.

Explicaram-me que o destino deles ficava para lá da cidade, na Praia do Almoxarife, cuja marginal precisariam atravessar de lés a lés, convidando-me por isso, a dizer onde queria sair.

O carro seguia próximo do mar, de costas para um sol, que começava já a mergulhar no atlântico, nalgum lugar remoto lá para as bandas das Flores. As primeiras casas vieram, acolhedoras, ao nosso encontro, e com elas uma pequena baía de formato caprichoso e um monte península, digamos quase-ilha, à francesa, que fica mais ajustado ao significado que se apresentava agora, além do pára-brisas, irrazoavelmente sujo, atravessado mesmo ao meio por um sino, saltitante, felizmente sem badalo.

Agora à distância, julgo que o braço se ergueu por vontade própria, dedo em riste, enquanto procurava as palavras, suaves apenas o necessário para cortar a excitação que se apoderara de mim: “É ali que eu vou ficar, naquele monte.” Omiti que aos meus olhos tanto poderia ser um cone vulcânico aposentado como um suflê desajeitadamente retirado do forno antes do tempo: “Ali!”

Desviaram-se da sua rota, insistindo em aproximar o carro do objecto do meu súbito fascínio, e deixaram-me na ponta do istmo, junto a uns edifícios em mau estado. Desculparam-se muito, mas a noite caía e ainda tinham alguns quilómetros para fazer. “Fica aqui ao pé da fábrica da baleia. Por aí acima” – e apontaram o estradão em macadame – “só o forte em ruínas e a capela de Nossa Senhora da Guia.”

Eu já tinha desistido de disfarçar o sorriso apatetado que se me tinha apossado da cara. Que lugar espectacular.

Mochila às costas segui pelo caminho que contornava o vulcão – seria uma indignidade continuar a chamar-lhe suflê mal-enjorcado – continuava a ver graças a uma esteira de luz, projectada pela lua que atravessava a baía maior, onde se anichava a cidade a norte de onde me encontrava. Breve, encontrei uma zona plana, coberta de uma relva farfalhuda que preenchia os espaços entre os restos das muralhas arruinadas.

Foi num santiamém que montei a tenda, de frente para o mar – fascinado pelo tamanho irreal de uma lua que parecia querer partilhar a própria tenda – e adormeci.

Se esperavam a introdução, aqui, de uma diatribe mais ou menos filosófica, literária talvez, exculpo-me já, sempre fui assim, adormecer é um acto de magia – instantâneo.

Sonhei, muito, como não? Com o Canal, aos meus pés. O do Mau Tempo. A Margarida Dulmo, o tio Roberto, o João Garcia, e até o avô, que eu adivinhava a espreitar, frente às vidraças do quarto, no Pasteleiro – algures atrás de mim – enfocando os olhos pequeninos, sempre um pouco raiados e meio baços, cismando que conseguiria ver dali, como eu, as vinhas, no Pico, entre Candelária e São Mateus, as que conservara com uma teimosia notável.

Despertei, sobressaltado, graças à inusitada sonoridade de uma fanfarra que executava uma alegre marcha militar. Dei graças por ter sobre a cabeça um tecto de pano e não de alvenaria. O espanto foi total. O sol, estava ainda a coberto da massa enorme do Pico, mesmo à minha frente, recortado com um traço perfeito, suavemente esfumado, como os olhos de alguma beldade das mil e uma noites – e isto que ainda era a primeira!

Em baixo a cidade apresentava-se, belíssima, refulgindo graças a meia dúzia de raios de sol que, do lado do Canal de São Jorge, já conseguiam acariciar, com suavidade, o casario, e no primeiro plano, pronta para atracar na Horta, a Sagres, sempre elegante, velas enfunadas nos seus três mastros, galhardamente embandeirada em arco, que chegava para o início da Semana do Mar.

Os sinos das igrejas da cidade, começaram a bater as sete. Teimosamente desacertados, como se cada um quisesse exibir a sua sonoridade própria sem necessidade de ensaios, sem a orientação de um maestro. De novo recordei o livro. A aflição de Margarida, nas vinhas, as chamas no Granel – debrucei-me um pouco, estaria logo aqui abaixo – tentando contá-las: Angústias, 4; Matriz, 6; Conceição, 8.

Ali em baixo, as águas do Canal empenhavam-se contra a costa, com um ruído de vassoura percutindo a bateria “a maré vazia cardava o calhau suavemente”.

Hoje, não se viaja sem smartphone, sem garrafinha de água, sem factor de protecção 30. A este lugar não venhais sem um exemplar de Mau Tempo no Canal, nem partais sem ler o conto: Mulher de Porto Pim

Julgo que foi nesse dia que me apaixonei pela Horta – coisas de adolescente…

 

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Que ficou de Tânger, que ficou de Bowles?

Durante pouco mais de três décadas o território de Marrocos esteve dividido em vários sectores apropriadamente designados de protectorados: havia o espanhol e também o francês. Coexistiam com uma outra excentricidade, que é o que nos interessa para o artigo de hoje: a cidade internacional de Tânger. Vibrante, livre (mais ou menos) frenética, era regida por um conselho que envolvia os cônsules de diferentes países mais alguns notáveis locais.

Descobri até, não sem surpresa, durante a investigação para o meu segundo romance, que pouco depois do final da guerra, a governação da cidade internacional coube ao representante de Portugal, um ex-ministro português. Hoje, cruzando a porta na muralha que abre a sul, para o cemitério judaico, que acarinha o horizonte abaixo da fita azul cerúleo da baía, encontramos escondida nas ruelas da medina, impressionante e imponente, a Legação Americana. A sua vista ajudará a compreender muito desta estória. Atrás dela (mas a referência é irrelevante porque só os locais conservam aqui um módico de capacidade orientativa), na direcção da Grande Mesquita, ficava a Legação de Portugal.

A Cidade Internacional, foi instituída logo no início da década de 20 e duraria, de facto, até 60. Após a guerra, curiosamente durante o mandato do administrador português, Paul Bowles desembarca em Tânger onde se prepara para viver, os restantes cinquenta anos da sua vida.

Bowles é um jovem americano de classe-média, com uma educação esmerada, que faz estudos universitários na Virginia e estuda música com Aaron Copland. Mas é um quadro médio de um banco nova-iorquino e aborrece-se brutalmente com a sua vidinha confortável e banal.

Tânger, à saída da segunda guerra mundial, é uma placa giratória vibrante para contactos públicos e principalmente privados, muitos indizíveis, entre variadíssimos players mundiais de primeira linha. E como é natural atrai também uma comunidade artística e intelectual dinâmica e pujante que se instala na cidade fruindo o clima ameno, a beleza indiscutível da localização e o perfume inebriante do exotismo. Os intelectuais ocidentais, principalmente americanos, saturados por algum déjà-vu de Paris são atraídos para Tânger como borboletas para a luz.

Nenhum foi tão notório quanto Paul Bowles, que dá largas à sua criatividade, imensa, escrevendo, viajando, fazendo recolhas das tradições orais e musicais da região e atraindo outros nomes que com o decorrer dos anos se iam também tornando mais e mais notáveis.

É na cidade que publica o seu primeiro romance The Sheltering Sky estória que antecipa um conjunto de temas recorrentes na sua obra. Um casal americano no meio de uma relação em crise, parte para o norte-de-áfrica, à procura de qualquer coisa – nunca, Je ne sais quoi, pareceu uma expressão tão apropriada – mas levam consigo um amigo que, evidentemente, não vai ajudar à reconstrução da relação nem muito menos à superação da crise existencial.

Pouco depois volta a publicar. Desta vez Let It Come Down, título emprestado de uma cena de Macbeth, quando um dos assassinos está a ponto de matar Banquo.

Aqui, et pour cause, Bowles conta-nos a estória de um jovem nova-iorquino de classe média, que trabalha num banco e decide partir precisamente para Tânger, onde explora para além do seu enfado com a vida, os ambientes ameaçadores da cidade, os bordeis, as drogas e os inúmeros personagens sinistros que são tanto filhos da cidade quanto da náusea existencial em que deixou que a sua vida se tornasse.

Em Tânger, os círculos em que Bowles se move são um corrupio de nomes incontornáveis das letras do século XX. Tenessee Williams, Patricia Highsmith, Jack Kerouac, Truman Capote, Gore Vidal e William Burroughs. São cinquenta anos durante os quais a cidade se transforma sob os seus olhos a compor e a escrever linhas vívidas, fascinantes, com uma prolificidade notável, definindo uma ligação única entre o artista e a (sua) cidade.

Quando conheci Tânger pela primeira vez seria mais novo que Bowles ou o seu personagem Dyar e encontrei Tânger como ela ficou depois da independência de Marrocos, remetida ao papel melancólico de uma cidade de província, pese embora à beira-mar, o que ajuda sempre, olhando mais com uma expressão triste de inveja que propriamente nostalgia, os portos vizinhos de Ceuta e de Gibraltar.

O mundo não parou de mudar. A cidade, entretanto, refundiu-se, refez-se, várias vezes, e está aqui/ali tão acessível.

Deixo-vos numa tradução (muito) livre um parágrafo de The Sheltering Sky – quinta-essência da cidade de Bowles: 

A morte está sempre a aproximar-se. Não sabermos quando ela chegará parece aligeirar a finitude da vida. É essa terrível certeza que tanto odiamos. Na ignorância, chegamos a pensar na vida como um poço inesgotável.

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