Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Escreve, escreve muito, pequenos artigos, grandes artigos, comentários, coisas pequenas, até um dia...

Regressei recentemente aos Açores. É, não consigo optar por uma construção gramatical mais clean tipo ‘fui’ ou ‘voltei’. É sempre assim que sinto: um regresso, a lugares aos quais lamentavelmente não tenho nenhuma ligação. Mas tenho: cá dentro.
Estive num evento literário em Praia de Vitória, na Ilha Terceira, uma coisa organizada com desvelo, juntando feira do livro, música e apresentações de livros. Ali levei o meu segundo romance, uma estória passada nas ilhas, pouco depois do final da segunda guerra mundial.
Praia da Vitória não é um lugar qualquer. Vitorino Nemésio, seguramente o mais notável romancista açoriano, nasceu aqui. A evocá-lo está a casa natal do autor, recuperada com esmero, e também, a ‘casa das tias’, hoje biblioteca pública, para onde Nemésio regressava quando, ao longo da vida, ‘voltava a casa’. Recordemos-lhe as palavras: “A casa das tias era comprida e profunda como um quartel ou um convento. Os meus passos picados acordavam as tábuas do corredor e dos quartos enfiados uns nos outros”.
Define, a casa das tias, imponente com as suas dez janelas ao longo de uma longa varanda, uma pequena praça, com o seu busto, face à igreja da Misericórdia. A das duas capelas-mor, atestando uma rara dupla invocação. Mais impactante, a Matriz, como tantos outros edifícios da ilha e todas as suas almas, marcada por sismos sucessivos e as reconstruções que a teimosia, o apego e o amor à terra destas gentes, sempre conseguem concertar.
Num final da tarde, na Matriz, imaginamos, vibrando no ar, as últimas notas de um concerto pelo belíssimo órgão de armário construído por António Xavier Machado e Cerveira em 1793. Desgraçadamente está, quase sempre, mudo. Descemos a rua e, com o mar da baía à vista, suspendemos a respiração para admirar o imenso dragoeiro que se ergue galhardo, testemunho permanente dos quotidianos praienses.
Garrett, o tripeiro com fortes ligações à Terceira, também é evocado em Praia da Vitória, foi ele aliás, enquanto deputado, quem cuidou de que o título de ‘muito notável’ fosse atribuído ao município.
Por aí, junto ao mar, encontramos a placa evocativa, com o texto escrito por Nemésio: "A Garrett, que em menino andou por esta praia e em 1829 a cantou no seu exílio de Londres: E a Praia é só/Apenas se ouve a bulha compassada/Da ressaca, gemendo e murmurando".
É uma escadaria imensa, em sucessivos e impertinentes novos lanços, a que permite ascender ao Monte do Facho, miradouro que domina o panorama da baía. É esta serra do Facho, que separa do mar o Ramo Grande, a longa planície que desemboca aqui na baía, onde foi instalada a enorme pista do aeroporto da Terceira.
Estamos numa região de grandes feitos: naturais e humanos. A actividade tectónica do Ramo Grande, em progressivo afundamento, gera sismos calamitosos. Historicamente, em 1614 e 1841provocaram destruição generalizada na cidade: as infames Caídas da Praia.
Foi também aqui que um batalhão de voluntários, obteve a “vitória da Praia”, em Agosto de 1829 impedindo o desembarque da poderosa frota Miguelista, no quadro das Guerras Liberais.
Desde o Miradouro, conseguimos imaginar, mais do que vislumbrar, os dois pequenos fortes logo abaixo de nós, junto ao mar. Sob um intenso fogo de artilharia, ali junto ao areal, onde estão as poucas pedras que restaram do Forte do Porto, além onde construíram o molhe para a descarga do combustível para as forças americanas, e uma escassa centena de metros mais à direita, o Forte do Espírito Santo. Viram-se invadidos por uma força desembarcada pelos assaltantes que se apressaram a escalar a escarpa abrupta até à zona do miradouro, fundamental para as comunicações, e donde foram repelidos pelos voluntários, que assim conquistaram a vitória: para si, para as forças Liberais e para a cidade de Praia da Vitória.
Ficou-lhes o nome engrandecido, mas do forte nada resta ou pouco mais do que a tradição local, a que afirma que o brasão na fachada do edifício da Câmara pertenceria à porta de Armas do Forte do Espírito Santo.
*“Desfaz-se junto à Praia a vaga rendilhada,
Pulveriza a Atmosfera uma névoa cor de oiro”
Vitorino Nemésio

" Não tenho a certeza de quando vi a cidade pela primeira vez "
Consultor em Marketing Turístico e Escritor
Não tenho a certeza de quando vi a cidade pela primeira vez. Pode ter sido na adolescência, numa viagem de carro, em família, mas não posso garantir. Recordo, isso sim, ter ficado impressionado com o que me pareceu uma ilha. Uma parte do coração da cidade seria uma ilha. Na verdade, não é. Trata-se de uma península, criada pela confluência do rio Saône com o Ródano, à época, ver o lugar da junção dos rios e caminhar até à exaustão por aqueles quarteirões entre rios, fez-me acreditar que aquele centro histórico da cidade, classificado pela UNESCO como Património da Humanidade, seria mesmo uma ilha.
A cidade que se chamou Lugdunum, sempre teve a sua sorte ligada à de Roma. Por altura do período turbulento que sucedeu ao assassinato de Júlio César, os romanos apropriaram-se de uma povoação Celta e aqui criaram uma capital para a Gália.
Ao espaço que eu pensava ser uma ilha chamavam a ilha (como vêem não era só eu…) de Canabae, uma palavra que também significava celeiro e se aplicava às zonas de expansão urbana, fora dos acampamentos, onde habitavam os comerciantes – melhor localização, entre os dois rios, e com um acesso simples e directo ao mediterrâneo, não poderiam encontrar nesta encruzilhada de rotas comerciais.
A adolescência chegou ao fim, e o Emilio Salgari, o veronês que sem nunca ter saído de Itália me levou ao Bornéu quase trinta anos antes da viagem real e me apresentou a Sandokan, cedeu o lugar a outras leituras. Maurice Druon deslumbrou-me com os seus Reis Malditos, uma saga em 7 volumes, construída sobre a lenda inventada por outro veronês, Paolo Emilio, no século xv, a de que Jacques de Molay, o último grão-mestre dos Templários. Mais de um século antes, do alto da pira onde seria queimado, teria chamado o rei de França, o papa e o ministro das Finanças, e cérebro atrás de Filipe IV, a encontrarem-se com ele, do lado de lá, antes do final do ano, como se veio a verificar, acrescentando uma maldição para os seus descendentes até à décima terceira geração. Daí, os Reis Malditos.
Tudo isto para contar como me impressionou o episódio contado no quarto volume da obra, A Lei dos Varões, de quando Filipe V faz encerrar os cardeais reunidos num dos mais longos conclaves da história da cristandade. O conclave reuniu, primeiro, em Carpentras, onde cedo se verificou um impasse com a divisão em três grupos incompatíveis. Um grupo importante de cardeais consegue fugir e retomam o conclave, em Lyon, no convento dos Jacobinos – só resta a placa evocativa na praça, durante séculos triangular e agora trapezoidal, que ainda porta o seu nome. Filipe, que ainda é apenas irmão do rei, encerra-os no convento, como soe dizer-se, a cal e canto, para que elejam rapidamente um novo papa. Jacques Duèze, cardeal, chega ao conclave com 72 anos e finge-se profundamente doente. O estratagema resulta e o conclave elege-o, João XXII, para conseguir apressar a sua libertação e na expectativa de um pontificado curto – já retomariam a discussão. João XXII, o segundo papa de Avignon, reinará 18 anos!
Um outro atractivo singular de Lyon são as “traboules”, as chamadas passagens secretas, por entre edifícios, por dentro deles e ligando diferentes ruas. São afinal atalhos glorificados, a maior parte belíssimos e de descoberta e acesso nem sempre evidentes. Traboules vem do latim, trans ambulare ou passar através. No total restam cerca de quinhentas ligando mais de duzentas ruas de Lyon. O número das que estão oficialmente abertas para visitação pelo público é, todavia, bastante reduzido. Mas vale a pena, mesmo, recorrendo à ‘lata’, à proverbial ousadia, para conseguir esgueirar-se nalgumas, como por exemplo na rua de Saint Jean, que invariavelmente se cruzará para visitar a catedral e logo a seguir a manécanterie, talvez o edifício mais antigo da cidade, que entre muitas coisas, nos seus mil anos de história, foi a escola dos jovens do coro da catedral.
Perguntar-se-á, leitor, se ouso seguir para o final desta crónica sem mencionar aquele que é porventura o autor mais famoso natural da cidade. Infelizmente, para além da placa oficial na fachada da casa que o viu nascer, no dia de São Pedro de 1900, pouco mais resta do poeta, escritor, jornalista e aviador francês, desaparecido em pleno vôo, no Verão de 44, ao largo da costa de Marselha. Fica também na nossa ‘ilha’, a casa natal de Antoine de Saint-Exupéry.
Traga consigo o Principezinho, que em bom rigor foi escrito em Nova Iorque e aí publicado, ainda durante a guerra, ilustrado com as aguarelas do autor.
Mas se preferir uma obra menos ‘fofinha’, muna-se para esta viagem de Vol de Nuit, as aventuras dos pilotos da aeroespacial na argentina ou Piloto de Guerra, sobre a invasão alemã da Holanda, da Bélgica e da França no início da guerra. Também publicado em Nova Iorque, e que conseguiu a proeza de ser limitado na edição, pelo governo de Vichy, censurado e proibido pelos nazis em Fevereiro de 43 e, meses mais tarde, por de Gaulle, na Argélia: é obra.
<
"Vedi Napoli, poi muori" *
Consultor em Marketing Turístico e Escritor
Um dia de sorte é sempre feito de vários componentes: a maior parte imprevistos, frequentemente inusitados.
O céu estava claro e o aparelho fazia umas curvas graciosas, quase coreografadas. Talvez para perder altitude. Com uma curva suave, vi a asa, do outro lado da coxia, elevar-se no fundo azul imaculado. Olhei então pela minha janela e reconheci, no meio de uma paisagem que parecia um painel de mosaicos irregulares e esbranquiçados, as casas e, de imediato, a mancha do Palácio Real de Caserta, os edifícios majestáticos e os jardins manicurados, cujos padrões caprichosos se deixam adivinhar mesmo do céu.
Fez nova curva e apareceu a baía em todo o seu esplendor, a cidade, derramando-se pelas colinas até ao mar, mais azul ainda do que o céu, e pontilhado de ilhas, maiores e menores, que fazem contrastar uma tela surpreendente, acrescentando pequenas coroas de espuma branca realçando o contraste dos verdes e dos azuis, que ali, se apresentam particularmente harmoniosos.
Outra curva no céu, ainda mais baixo, e apareceu o vulcão, um misto de terras agrícolas, pequenas e não tão pequenas povoações, com umas áreas pedregosas, talvez queimadas, um testemunho, uma recordação de um poder que está ali, naquele lugar a que chama casa onde continua a poder, tudo o que o homem não pode.
Alguém terá dito ao piloto que já bastava de movimentos coreográficos. O aparelho pareceu ganhar algum impulso. Alinhou-se e, em momentos pousava com uma serenidade surpreendente na pista do aeroporto de Nápoles.
Pouco depois, fiz sinal a um táxi. Aproximei-me com o meu pequeno trólei e o motorista fez-me sinal para que entrasse, com bagagem e tudo.
Mal eu fechei a porta, perguntou-me, atencioso, se queria que baixasse o volume do rádio. Não respondi. Enquanto abria um pouco a janela, arrancou rumo ao centro da cidade. Breve a serenidade daqueles últimos vinte minutos de voo seria escorraçada e uma confusão impressionante estava à espreita para me tomar os sentidos.
Era daqueles à antiga: Primeira vez? Donde vem? Contentou-se com as respostas. Que não, que era mais uma de várias vezes e que vinha de Portugal, muito embora aquele voo me tivesse trazido de Londres. Avançou para a conversa, o que lhe interessava, com mais ânimo do que o velho Mercedes rumo à confusão.
Portugal, ah sim, Portugal. Apontou para o rádio. Acabaram agora mesmo de anunciar... O Nobel da literatura. Ganhou um português, não retive o nome. Depois da aterragem cinéfila, perfeita, aquela viagem a Nápoles, decididamente, começava bem.
Poderíamos sentir-nos tentados a introduzir um anacronismo nesta crónica. Começar a exploração da cidade, onde muitos entendem que termina a Europa, para mencionar Rione Luzzatti e Elena Ferrante, hoje, a autora fetiche de Nápoles depois de Amiga Genial, dos seus Romances Napolitanos, também passada a série televisiva. Não o faremos.
Naquela manhã de Outubro de 1998, Ferrante ainda não era conhecida, mas Nápoles já tinha o seu cronista. Não, não vamos tão longe quanto Virgílio, cujo túmulo se crê estar numa gruta na zona ocidental da cidade, em Mergellina, no meio de um parque com vistas estonteantes da cidade e da sua baía (a ordem dos factores é arbitrária). Mas antes Erri de Luca, o napolitano que há décadas vem contando a história e as estórias da cidade e que, naquela altura, já tinha publicado o seu, Non ora, non qui, sobre a passagem veloz e irredimível, da infância, prenunciando Montedidio, já de 2001, passado no bairro popular homónimo. “Quem subirá ao Montedidio? Quem tiver as mãos inocentes e o coração puro.” De novo a infância, o princípio da adolescência, um rapazinho numa casa vazia que escreve numa bobina de papel que lhe deu o vizinho tipógrafo e atira ao ar o pedaço de madeira que lhe deu o mestre carpinteiro, tentando fazer um bumerangue.
Com traços finos, precisos, Erri de Luca esboça uma cidade popular cheia de beleza e miséria onde o sublime e o repugnante se encontram criando lugares fascinantes.
Tampouco havia ainda a estação de Metro de Siza Vieira e Souto Moura, a de Zaha Hadid ou a estação Toledo de Óscar Tusquets Blanca, que tem sido considerada a mais bela da Europa. E eu não deixaria de correr a ver a maravilhosa sala da meridiana, no Palácio dos Estudos Reais hoje Museu Arqueológico Nacional e a incontornável Piazza del Plebiscito, impactante na pegada que imprime no coração da cidade ou a subtileza do Cristo Velato. Sobre ele, nada como recorrer ao parágrafo contratual que cometeu a obra ao jovem escultor napolitano Giuseppe Sanmartino, realizar “uma estátua de mármore esculpida em tamanho natural, representando Cristo morto, coberto por um sudário transparente realizado no mesmo bloco da estátua”. É que ao contrário do sangue de San Gennaro, que pode ou não se liquefazer para a nossa visita – ainda assim em três datas do ano – nos aguarda sempre, com a mesma tranquilidade, os traços inefáveis e a beleza pungente.
Olhar de longe a beleza do Vesúvio sem partir de imediato para a sua visita ou a da celebrada Pompeia. A meu ver, a pequena Herculano, uma cidadezinha que sofreu o mesmo destino, acaba superando-a, não tanto pelo carácter excepcional dos achados, mas antes pela tranquilidade prazerosa da visita e a possibilidade de dar largas à imaginação e sentir-se ali no século l e cruzar-se com os transeuntes no seu quotidiano que não podem, felizmente para eles, imaginar o quão famosos ainda vão ser um dia.
Ao fim da tarde, subindo a Via Toledo e entrando num daqueles pequenos bares que se derramam sobre a rua em recantos delimitados por vasos de terracota, tomando o aperitivo do momento e vendo a cidade acolher o tramonto, destacando com o garfo de lado, pequenos pedaços de uma fatia de Sartù di riso.
* “Ver Nápoles e depois morrer”. Expressão que provém de um comentário de Goethe, no diário de viagem após a sua visita no século XVIII.
https://postal.pt/edicaopapel/vedi-napoli-poi-muori-por-jose-garrido/

Outubro de 2019. Um jipe em contramão embate num carro, Afonso Cruz é um dos passageiros. Numa passagem do seu livro mais recente, escreve sobre a iminência do fim. Estamos em Punta Arenas. Meio ano antes o meu avião fez-se, vagarosamente, à pista – depois de 12 horas desde Rapanui, na minha cabeça tudo parecia vagaroso. Situada na embocadura oeste, do Estreito de Magalhães é a porta de entrada para a Patagónia. Antes da abertura do canal do Panamá, era ponto de passagem obrigatório para os navios que desde o atlântico, da Europa, rumavam ao pacífico. Coincidentemente teve a sua corrida ao ouro, e depois, a passagem dos que buscavam a da Califórnia, primeiro, e a do Klondike, mais tarde. Não foi o que me trouxe, mas antes o fascínio pela Patagónia. Um ferry, pintado de cores pardas, com pinceladas de ferrugem, liga as duas margens do Estreito, cheguei com conforto, mais ou menos, a Porvenir com menos de 7000 habitantes a cidade mais populosa da Tierra del Fuego chilena. O navio reduziu a marcha, com suavidade, e entrou numa pequena baía bem protegida do mar e dos ventos. Atracou em silêncio, sem necessitar recorrer à inversão dos motores para acostar à margem, e o carro deu uns solavancos quase graciosos nas placas de metal canelado que fazem as vezes da passadeira vermelha, estendida para os meus primeiros passos na Tierra del Fuego. Um sonho de infância, que não infantil. A costa noroeste da ilha é exposta aos caprichos de ventos possantes que sopram sobre as ondas do Pacífico. A vegetação apresenta-se um pouco ressequida e a estepe prolonga-se até ao horizonte pontuada por árvores teimosas cuja inclinação face à vertical é a sua única concessão ao tratamento agreste do clima. As estradas não são asfaltadas e trazem uma gama de tonalidades de cinza a uma paleta modesta, dir-se-ia envergonhada. Traçam uma faixa contrastante que parece inutilmente querer separar a estepe, terra de siena queimada, do mar muito escuro, muito prata, muito metido consigo. Calhaus polidos, rolando desde sempre nos bicos de pés das ondas incansáveis, estremecem oferecendo mais profundidade à paisagem. As nuvens espraiam-se à vontade – aqui tudo parece espaçoso, reforçando a sensação de longínquo e em contradição, aproximando o horizonte. É uma ilha enorme onde vêm terminar os últimos contrafortes dos Andes e a Placa Sul-Americana e a Placa de Scotia se entretêm, como Maria, de Ricardo Reis, ao longo das tardes da eternidade, não a fazer meia, mas a um espectáculo ininterrupto, digno de um Agosto em vilória de província, a gerar instabilidade tectónica e actividade sísmica impressionantes. É uma beleza de uma modéstia pungente a que nos acolhe na Tierra del Fuego. De quando em quando, parecendo emergir da estepe, uns quantos guanacos, cabriolam numa das suaves colinas junto ao caminho. Um barco pintado de amarelo-açafrão, preguiçando de borco sobre os calhaus, deixa-se afagar com suavidade, já quase só pela espuma das ondas. Pontuando os limites do estradão, curtos postes de madeira, listados de branco e vermelho cádmio, foram aqui colocados, para facilitar a detecção durante as tempestades e os nevões – ou só para realçar, introduzindo uns apontamentos de cor. Ao longo da costa, observamos algumas colónias de pinguins-rei, facilmente reconhecíveis pelo tamanho e exuberância do seu babete dourado. Os cormorões passeiam-se despreocupadamente à beira-mar ou fazem curtos vôos de reconhecimento. Argentinos e Chilenos, puseram-se de acordo sobre a intensificação da exploração da ilha. Em pouco tempo estâncias descomunais tomaram conta da maior parte do território – onde as características selvagens do território o permitiram, e deram mão-livre à selvajaria humana – a que tudo permite. As vítimas deste processo de ocupação do território foram os Selknam perseguidos pelos fazendeiros, pelos homens do garimpo e mesmo por assassinos profissionais, em caçadas organizadas, pagando-se-lhes pelo número de orelhas cortadas. Atravessamos a Ilha Grande. Aparecem mais guanacos e algumas manchas arbóreas, os bosques de lenga. É por aqui que vive a raposa colorada fueguina, esquiva e naturalmente camuflada. Francisco Coloane, talentoso autor chileno, passou uma parte importante da sua vida nestas terras austrais, e deixou-nos uma brilhante colecção de contos, Tierra del Fuego, onde nos relata a beleza quase inescrutável do território e a crueldade que acompanhou a expansão de diferentes aventureiros que desbravaram a riqueza impressionante da ilha e a sua exploração intensiva. Serão Sepúlveda, sempre destro e ágil com a palavra, no seu belíssimo Patagónia Express, e Chatwin, em Na Patagónia, recheados ambos de episódios fantásticos, que acompanharão a viagem, como um marcador florescente traçando rotas sobre o mapa. Rumando até ao extremo sul, a Ushuaia, encontramos Tolhuín, pequena cidade nas margens do Lago Fagnano… a cidade é bem pitoresca – uma colorida mancha de barracões de madeira à beira-mar, contra um fundo montanhoso que evoca paisagens que associamos à Noruega. Aqui encontramos a Confitería La Unión a coisa mais deliciosa e gulosa, a esta distância, mínima, do pólo. Se Amundsen tivesse passado por aqui não teria sido o primeiro a chegar ao Polo Sul…
(*) Hay paisajes, como instantes de la vida, que no se borran jamás de la mente. Francisco Coloane

Não é com certeza fácil para um português médio recordar os nomes dos presidentes da república. Tudo o que fica para além dos inquilinos de Belém que precederam a sua experiência de vida adulta é uma coisa longínqua que aparece num cocktail de memória com Sebastião e Afonso Henriques – o que é natural porque, então, não eram figuras que se vissem todos os dias…
Amante de livros e algarvio, grande viajante, esteta e homem de cultura, a figura do portimonense Manuel Teixeira Gomes é, porém, incontornável, e para além disso fascinante.
No seu tempo a cidade chamava-se Vila Nova de Portimão. Nascido numa família abastada, MTG interessou-se cedo pela cultura e pelas artes. Aborreceu os estudos em Coimbra, como aliás a Camilo os estudos no Porto, e cedo se apostou como um flâneur profissional.
Viajava pelo sul da Europa, principalmente, procurando mercadorias e colocação para os frutos secos que faziam a riqueza da sua família, como a das outras famílias abastadas do Algarve, e deliciando os sentidos nas paisagens, nas artes, na gastronomia nos vinhos e nas gentes.
Interessa-se pela política e logo em 1911 é nomeado embaixador em Londres: o primeiro da nova República. Não é um momento fácil das relações na putativa mais velha aliança do mundo: a instauração da república e a consequente substituição na embaixada do marquês de Soveral, com excelentes relações na corte, fazem com que apenas alguém com uma cultura e um carisma superlativo conseguisse entrosar-se no establishment britânico e ganhar mesmo a simpatia e afecto do rei Jorge V.
MTG tem uma missão. Acredita que o conflito que vai começar, modificará a política no continente, e o continente ele mesmo, e entende que Portugal não pode ficar à margem. Não é o que hoje chamaríamos um falcão, um belicista, mas para ele, a nova república tem necessariamente de tomar partido e entrar sem reticências do lado dos Aliados.
Em Portugal o regime não prima pela estabilidade. Enganam-se todos aqueles que acreditam que no dia da revolução, as coisas mudam. Que na manhã seguinte as forças em presença são outras e as condições sociopolíticas radicalmente diferentes. Não foi assim em 1910 e não foi assim nunca.
Em 1918, com a chegada de Sidónio Pais, dão-se mudanças significativas no regime e nas políticas da República. MTG é retirado de Londres e aprisionado no Hotel Avenida Palace – eu disse-vos que era um homem de bom gosto…
A débacle das forças expedicionárias portuguesas e da administração, incapaz, primeiro de as abastecer e depois do armistício de as repatriar, gera um mal-estar significativo que culmina com o assassinato de Sidónio.
MTG volta ao activo, é embaixador em Madrid, participa na Conferência de Paz em Madrid e reassume a representação portuguesa em Londres. É aí que está quando o parlamento o elege presidente da república – a eleição directa é coisa da terceira república e nesta estória ainda vamos na primeira.
O telegrama a informar da eleição segue para Londres e MTG faz as malas. Jorge V faz questão de pôr à sua disposição um cruzador da marinha real para o transportar – uma coisa impressionante para alguém que não é oriundo da nobreza nacional – e é assim, com pompa e circunstância, que desembarca em Lisboa.
Em Belém as coisas não se apresentam fáceis. MTG será presidente durante dois anos durante os quais empossou seis governos. A agitação, também nos sectores militares, é crescente, tal como a simpatia por soluções de cariz autoritário. Sentindo-se impotente, porventura nauseado e saudoso, talvez, das suas viagens, MTG renuncia uma primeira vez e, definitivamente, em Dezembro de 1925, alegando razões de saúde e vontade de voltar a dedicar-se à actividade literária. Menos de uma semana mais tarde embarca num cargueiro holandês, dir-se-á que o primeiro a sair de Lisboa, que nem de propósito, segue para a Argélia francesa. Aí começa o seu auto-exílio e nunca mais regressará a Portugal.
Nos primeiros seis anos investe-se em viagens pela bacia do mediterrâneo – talvez aí as saudades da terra (perdoe-me Gaspar Frutuoso a apropriação), fossem menos dolorosas… São anos dedicados à bacia do mediterrâneo cuja luz e as paisagens persegue incessantemente. Escreve, escreve muito, a maior parte das suas obras, e algumas memórias saudosas e pungentes, como Regressos. Escreveu um dia: Viajar, sozinho e sem plano, sem guia.
Percorre a costa mediterrânica da Argélia, Orão e Argel que torna a visitar amiúde e escolhe Bougie, na costa da Cabília, onde se instala num quarto singelo do modesto Hotel l’Étoile, na pequena praça Gueydon.
É no quarto 13 – ainda hoje visitável – mantendo correspondência com alguns amigos e recebendo escassas visitas, que passa os derradeiros dez anos de vida. Ali, de frente para o mediterrâneo, o homem que um dia, quase 40 anos antes, no Porto, escreveu Agosto Azul.
O céu, de um azul intensíssimo, está como que esponjado de pequenas nuvens; a Ponta do Altar perfila-se com o seu recorte siracusano, e pouco a pouco, ao declinar do Sol, acende-se em oiro.
A Ponta do Altar perfila-se […] e pouco a pouco, ao declinar do Sol, acende-se em oiro

Agosto é o mês das férias. E dos excessos: uns amam e outros odeiam. É também quando encontramos as atracções mais congestionadas e as tarifas mais elevadas. Há anos, em resposta a um comentário surpreso face ao preço do um alojamento, ouvi um proprietário retorquir, “Agosto só há um!”
Com o advento do transporte aéreo low-cost e a insistência das administrações em subsidiá-lo, os preços são mantidos artificialmente baratos prejudicando opções por viagens mais sustentáveis e expondo a hipocrisia de muitas medidas ditas, pelo planeta.
Florença é, há muitas décadas e justificadamente, um grande pólo de atracção turística.
Uma época curta de grande disponibilidade económica e, raríssimo na história da humanidade, a generalização do bom gosto, conduziu a um período irrepetido de criação artística que justifica hoje a grande atractividade da cidade, mesmo no contexto, muito competitivo, da Península Itálica.
Florença pode com facilidade ser um lugar detestável, mas acredite, leitor, se ainda não conhece, arranje rapidamente maneira de a visitar. Primeiro porque é fascinante belíssima e imperdível, e segundo, porque a situação a partir daqui só poderá piorar…
Porque é Agosto, ofereça-se o prazer de uma leitura leve, mas desafiante, já virão outros meses em que lhe traremos propostas mais sisudas...
Que tal um Dan Brown? O “Inferno”: o título remete para Dante, mas nem de propósito, excelente para explorar a cidade e; ou dependendo da sofreguidão com que lê em férias, uma biografia ficcionada, a de Michelangelo Buonarroti, sim, esse mesmo, no excelente “The Agony and the Ecstasy” de Irving Stone.
Florença não é fácil e não se revela com facilidade. A última década trouxe-lhe hordas de turistas que já não vêm apenas na Primavera e no Verão.
O visitante tem de se vestir de argúcia e escolher datas inócuas no calendário. Eu sei, eu sei, mas tem de ser assim e acredite-me que vale o sacrifício.
Portanto nada de festas especiais nem de pontes nos principais mercados emissores. Um bom truque, também aplicável em Silves, mas por outras razões, é estabelecer uma relação de cumplicidade com o mau tempo. Sim, leu bem. Já definimos que não visitaremos no Verão. Então, após uma bela chuvada, é o momento ideal para a visita. Em Silves para se beneficiar do ocre sanguíneo que o arenito das muralhas ganha então, em Florença, para evitar as sete pragas do Egipto num dia só.
Se leva consigo o Dan Brown então não vai querer perder o corredor Vasari. Verifique com antecedência as condições da visita e reserve. A passagem foi criada no século xvi para uso dos Medici, a família cujo nome é sinónimo de Florença e ambas de Renascimento. Residiam no Palácio Pitti, na margem sul do Arno e exerciam o seu poder no Palácio Vecchio, aquele mesmo que tem na frente a cópia do famoso David. Por segurança, conveniência e comodidade, mandaram construir a passagem sobreelevada, que liga os dois centros da sua influência e ambas as margens da cidade. Durante longas décadas caiu em desuso e quase esquecimento sendo que a sua extremidade norte desemboca nas fabulosas Galerias Uffizi e chegou a ser utilizado como armazém: dos “trastes” do Museu.
O mundo pareceu acordar para o corredor Vasari em 2013 com a publicação de “Inferno”, o livro de suspense histórico a que se seguiu três anos mais tarde o filme homónimo. Mas na verdade, já no incontornável filme, Paisà (Libertação, 1946), de Roberto Rossellini, a enfermeira americana e o guerrilheiro italiano, recorrem à passagem para entrar na cidade que suspeitam ter sido abandonada na véspera pelas tropas nazis após a destruição das pontes.
A realidade mostrar-lhe-á, leitor, que hoje só é possível fazer o percurso contra a corrente, da cidade para oltrarno, a outra-banda florentina.
Tenha a precaução de admirar antecipadamente as fabulosas portas do Baptistério, brutal trabalho de Ghiberti, das quais terá dito Michelangelo que eram dignas de ser as verdadeiras portas do Paraíso. Atenção que, na verdade, são cópias, as originais estão ali perto no museu da Comissão Fabriqueira da Catedral (Museo dell'Opera del Duomo), vizinhas da Pietà Bandini, de Michelangelo, como os Escravos Cativos, incompleta e igualmente sublime. É que em Florença “tudo são trocos”, o que por isso mesmo justifica (quase) todo o desconforto e sofrimento da visita…
Sensivelmente por aqui, estaria o depósito de materiais de construção da catedral, onde esteve bastante tempo o gigantesco bloco de mármore de Carrara que vários escultores famosos hesitaram em trabalhar. Um bloco com mais de 5 metros que o inventário referia como ‘toscamente extraído e deitado’. Mas em Agosto de 1501, há precisamente 524 anos o contracto era outorgado: a comissão “escolheu como escultor o insigne mestre, Michelangelo, filho de Lodovico Buonarrotti, cidadão de Florença, com o propósito de que produza, complete e aperfeiçoe a figura masculina conhecida como o Gigante […] armazenado nas oficinas desta Catedral.” Assim nasceu o David.
*Provérbio toscano: Idiota é aquele que se ocupa com a vida alheia.
https://postal.pt/edicaopapel/pazzo-e-colui-che-bada-ai-fatti-altrui-por-jose-garrido/

Foi talvez a primeira vez…
Seria ao lusco-fusco, já. Um casal que regressava, de um daqueles lugares na Nova Inglaterra que, aqui, crismados com engenho e ternura, ganham novos nomes, um Batefete ou Plimente, ofereceram-me com uma generosidade que muitas viagens depois, sei que não era fruto do momento, mas antes uma característica solidamente ancorada no ser destas gentes, boleia com o familiar que os aguardava para levar a casa.
Por estranho que pareça, houve um tempo em que viajávamos sem reservas, sem comunicações móveis, com informação local saborosamente antiquada, em papel bíblia, e avara de gravuras. ‘Online’ soava a uma interpelação paterna, para andar na linha, e não se usava. Creio até que, com ou sem, andávamos mais na linha, nesses tempos menos piagetianos, mas não é esse o tema de hoje.
Explicaram-me que o destino deles ficava para lá da cidade, na Praia do Almoxarife, cuja marginal precisariam atravessar de lés a lés, convidando-me por isso, a dizer onde queria sair.
O carro seguia próximo do mar, de costas para um sol, que começava já a mergulhar no atlântico, nalgum lugar remoto lá para as bandas das Flores. As primeiras casas vieram, acolhedoras, ao nosso encontro, e com elas uma pequena baía de formato caprichoso e um monte península, digamos quase-ilha, à francesa, que fica mais ajustado ao significado que se apresentava agora, além do pára-brisas, irrazoavelmente sujo, atravessado mesmo ao meio por um sino, saltitante, felizmente sem badalo.
Agora à distância, julgo que o braço se ergueu por vontade própria, dedo em riste, enquanto procurava as palavras, suaves apenas o necessário para cortar a excitação que se apoderara de mim: “É ali que eu vou ficar, naquele monte.” Omiti que aos meus olhos tanto poderia ser um cone vulcânico aposentado como um suflê desajeitadamente retirado do forno antes do tempo: “Ali!”
Desviaram-se da sua rota, insistindo em aproximar o carro do objecto do meu súbito fascínio, e deixaram-me na ponta do istmo, junto a uns edifícios em mau estado. Desculparam-se muito, mas a noite caía e ainda tinham alguns quilómetros para fazer. “Fica aqui ao pé da fábrica da baleia. Por aí acima” – e apontaram o estradão em macadame – “só o forte em ruínas e a capela de Nossa Senhora da Guia.”
Eu já tinha desistido de disfarçar o sorriso apatetado que se me tinha apossado da cara. Que lugar espectacular.
Mochila às costas segui pelo caminho que contornava o vulcão – seria uma indignidade continuar a chamar-lhe suflê mal-enjorcado – continuava a ver graças a uma esteira de luz, projectada pela lua que atravessava a baía maior, onde se anichava a cidade a norte de onde me encontrava. Breve, encontrei uma zona plana, coberta de uma relva farfalhuda que preenchia os espaços entre os restos das muralhas arruinadas.
Foi num santiamém que montei a tenda, de frente para o mar – fascinado pelo tamanho irreal de uma lua que parecia querer partilhar a própria tenda – e adormeci.
Se esperavam a introdução, aqui, de uma diatribe mais ou menos filosófica, literária talvez, exculpo-me já, sempre fui assim, adormecer é um acto de magia – instantâneo.
Sonhei, muito, como não? Com o Canal, aos meus pés. O do Mau Tempo. A Margarida Dulmo, o tio Roberto, o João Garcia, e até o avô, que eu adivinhava a espreitar, frente às vidraças do quarto, no Pasteleiro – algures atrás de mim – enfocando os olhos pequeninos, sempre um pouco raiados e meio baços, cismando que conseguiria ver dali, como eu, as vinhas, no Pico, entre Candelária e São Mateus, as que conservara com uma teimosia notável.
Despertei, sobressaltado, graças à inusitada sonoridade de uma fanfarra que executava uma alegre marcha militar. Dei graças por ter sobre a cabeça um tecto de pano e não de alvenaria. O espanto foi total. O sol, estava ainda a coberto da massa enorme do Pico, mesmo à minha frente, recortado com um traço perfeito, suavemente esfumado, como os olhos de alguma beldade das mil e uma noites – e isto que ainda era a primeira!
Em baixo a cidade apresentava-se, belíssima, refulgindo graças a meia dúzia de raios de sol que, do lado do Canal de São Jorge, já conseguiam acariciar, com suavidade, o casario, e no primeiro plano, pronta para atracar na Horta, a Sagres, sempre elegante, velas enfunadas nos seus três mastros, galhardamente embandeirada em arco, que chegava para o início da Semana do Mar.
Os sinos das igrejas da cidade, começaram a bater as sete. Teimosamente desacertados, como se cada um quisesse exibir a sua sonoridade própria sem necessidade de ensaios, sem a orientação de um maestro. De novo recordei o livro. A aflição de Margarida, nas vinhas, as chamas no Granel – debrucei-me um pouco, estaria logo aqui abaixo – tentando contá-las: Angústias, 4; Matriz, 6; Conceição, 8.
Ali em baixo, as águas do Canal empenhavam-se contra a costa, com um ruído de vassoura percutindo a bateria “a maré vazia cardava o calhau suavemente”.
Hoje, não se viaja sem smartphone, sem garrafinha de água, sem factor de protecção 30. A este lugar não venhais sem um exemplar de Mau Tempo no Canal, nem partais sem ler o conto: Mulher de Porto Pim
Julgo que foi nesse dia que me apaixonei pela Horta – coisas de adolescente…

O aparelho começou a desenhar uma curva larga, dengosa, antes mesmo de a paleta dos verdes e azuis, turquesas e ametistas, que ali competem pelo espaço do céu, do mar e das águas da Baía de Todos os Santos, ficar para trás. Depois, acometido por uma súbita decisão, aproou a terra, cruzou a linha de praias e restingas e pousou com preguiça no asfalto da pista.
Ainda a tripulação manipulava o mecanismo das portas e os carrinhos rebocando as escadas deslizavam já, céleres, por entre aquela quase neblina rente ao chão. Reacção sudorífica, prazerosa, também, do asfalto húmido de alguma chuva breve e intensa pouco antes, aquecido pelos escapes do avião. O odor invadiu a cabina: afoito, curioso, primeiro carregado de querosene e outros cheiros mecânicos indefinidos, depois, doce, perfumado de especiarias várias, de alma e de terra.
Foi assim a minha chegada à Bahia. Não a primeira. Conto rapidamente pelos dedos. A primeira foi antes, muito antes, no final da adolescência, num voo oriundo de Lima, do outro lado do continente. Mas que importa? Toda a chegada à Bahia é uma primeira e desta vez eu viera acompanhado: sobre o banco, ao meu lado, vazio, (deus é pai!), estavam dois títulos de Jorge Amado. Bahia de todos os Santos, aquele guia, que traz logo na introdução uma espécie de advertência para o que se segue: Esse é bem um estranho guia, moça. Com ele não verás apenas a casca amarela e linda da laranja. Verás igualmente os gomos podres que repugnam ao paladar. Porque assim é a Bahia, mistura de beleza e sofrimento, de fartura e fome, de risos álacres e de lágrimas doloridas.
Desde então, em viagem, prefiro o e-reader que tomou o lugar da câmara fotográfica, enxotada pelo telemóvel, e me acompanha hoje, com centenas de títulos, dicionários e monografias, cobrindo qualquer detalhe que a imaginação, curiosa, me demande durante uma viagem.
Já o outro tomo… eu contei que eram dois, certo? Era mais light, não vale a pena ficar a pensar que era um adolescente de espírito já embotado, crítica acutilante, meio cínico, completamente velho-de-monchique. Ainda não, ainda não era. Esse segundo, era O sumiço da Santa. A estória de uma imagem lá de Santo Amaro da Purificação, do outro lado das águas da baía, que completada a navegação, quando chega à rampa de desembarque no cais, Santa Bárbara, ela mesma, a do Trovão, desaparece misteriosamente faltando à chamada para a exposição que a aguardava no Museu de Arte Sacra.
Aproveito para fazer uma nota mental para revisitar a igreja da Conceição da Praia. Barroco, toda feita de pedras de lioz, talvez de Pero Pinheiro, como outras, famosas, do Convento de Mafra, trazida de Portugal, pronta já para ser armada aqui.
No ónibus, público, para a cidade – sempre tive essa tendência proleta na práxis que não me abençoou na ideologia –, colei os olhos à paisagem, a que desfilava lá fora, e os ouvidos às conversas dos outros passageiros, quase todos locais.
Viajar individualmente – como a palavra só é desadequada–, tem também essa vantagem, a da imersão total.
O pessoal parecia todo ele formado em retórica velha-escola. Toda a gente discursava com uma eloquência de tribuno, sobre os temas mais frugais do quotidiano, da política, do custo de vida (não recordo bem, mas seguramente aumentava), das obras as intermináveis e as que se faziam tardar. A Bahia é isso, também, esse constante repassar da palavra com um cuidado de devota, empurrando as contas do terço ao debitar uma novena sem fim.
Salvador tem personalidade múltipla, uma espécie de heteronímia urbana. Mesmo os menos sensíveis para as almas mais discretas, encontrarão a Cidade Baixa e a Cidade Alta, unidas desde (quase) sempre por meios mecânicos, para vencer aquelas ladeiras íngremes, pontuadas por casarões e sobradões empertigados, sempre atentos aos estremecimentos das águas na baía.
O mais famoso, é o elevador Lacerda, mas igualmente icónicos e centenários existem os planos-inclinados, do Taboão e de Gonçalves, conhecido pelo "guindaste dos padres", por galgar uma rampa íngreme, aberta na encosta pelos Jesuítas.
Para o forasteiro, mesmo que constantemente consumida pela voragem do turismo, a área do Pelourinho, é a que congrega os principais pontos de interesse e que justificou a declaração, pela Unesco, de Património da Humanidade. Ali está a catedral, que até já foi longe do centro. Conta-se que o governador Tomé de Sousa terá objectado à localização ao que lhe responderam que em breve a cidade se lhe juntaria – umas palavras proféticas, aliás. E a igreja de São Francisco, prenhe de ouro, com os painéis de azulejos que são dos únicos retratos, verdadeiras polaróides, da Lisboa de antes do terramoto.
Nalgumas esquinas concentram-se baianas carregadas de colares. Nos tabuleiros trazem delícias várias. Uns acarajés reluzentes, servidos com vatapá, fritos em azeite de dendê. Mas para bem aproveitar esta cidade maravilhosa, faça-se a vénia à outra, a que o é mais reconhecidamente, convirá ao flâneur usar de prudência q.b., que estes manjares foram concebidos, com amor e muito humor, como tudo o mais na Bahia, para estômagos robustos.
Crendo escutar Dorival Caymmi, lá longe na memória, enquanto parece vibrar o ruído de um baticum longínquo: Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia / Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia.

Para além de uma escrita de riqueza e profundidade imbatíveis, Camilo, tem uma outra característica fascinante: tudo está firmemente ancorado em experiências, relacionamentos e lugares. Não só podemos procurar os locais, como também participar das polémicas, vivas, que se levantam entre freguesias, sobre o verdadeiro cenário de uma cena ou a naturalidade de um personagem. É por isso que, como poucos, se adequa à nossa filosofia de viagem e (re)descobrir as suas referências é um prazer imenso.
Munidos de um exemplar de A Brasileira de Prazins, o último grande romance do autor, fomos recentemente a Seide. São Miguel de Seide, foi a pequena freguesia a uma escassa légua de Famalicão, onde viveu as últimas quase três décadas da vida.
É um casarão rural, discreto até, comparado com muitas destas casas senhoriais que pontuam a paisagem rural do Minho. Depois de várias vicissitudes, e um incêndio, foi reconstruída com cuidado e rigor.
É, como hoje soe dizer-se, uma visita para experienciar. O piso térreo, que foi adega, apresenta uma interessante exposição-memória sobre o autor, com comentários de figuras de topo da literatura Peninsular. Mas é subindo aos andares que conseguimos a verdadeira imersão na intimidade de Camilo e já agora, de Ana Plácido, mulher memorável e também ela escritora.
Esta não foi a primeira casa de Camilo. Na infância, órfão, viveu com familiares em Vila Real e também em Vilarinho de Samardã – freguesia duriense tão especial que atraiu também a pena de Torga. Com o primeiro casamento, aos 16 anos, Camilo, estabelece-se em Friúme na margem esquerda do Tâmega, em Ribeira de Pena. Fica aí uma pequena casa museu, com loja de dois cómodos e um piso superior com a cozinha, o quarto do casal e uma daquelas varandas de madeira que apinocam as fachadas das casas tradicionais da região.
Foi aqui que colocou Maria Moisés, criança que sobrevive às águas do rio após a queda fatal da mãe que escorregou ao atravessar umas poldras limosas. Salva milagrosamente e recolhida a uma casa abastada, ergue-se a partir daqui como personagem central.
O casamento dura pouco tempo e o autor – deverei dizer o nosso herói? – segue um périplo de paixões, Viseu, Caminha, Fafe, Porto, solteiras, casadas e freiras, até que conhece Ana Plácido que pouco depois casaria com um homem que fizera fortuna no Brasil e o feliz proprietário desta casa de campo.
Se o parágrafo anterior nos remete para A Brasileira de Prazins, a continuação da estória, o processo por adultério que levará ambos à Cadeia da Relação, no Porto, é o Amor de Perdição, porventura sua obra mais famosa, escrita em apenas 15 dias. Absolvidos, passam a viver juntos e, quando, pouco depois, Ana Plácido enviúva, o filho herda esta casa de Seide.
Estamos agora, depois do indispensável enquadramento, municiados para subir a escada e visitar os espaços do piso superior. A pequena sala, com o harmónio que Ana tocava, a cozinha, com a descomunal chaminé e fumeiro, os quartos, a sala de jantar e a grande sala de visitas com janelas para dois lados.
De uma delas, ao lado do relógio de parede, o da botica, descrito de forma primorosa logo na abertura de Eusébio Macário, podemos ver por onde se inicia o trilho da Cangosta do Estêvão e adivinhar, ao passar a Ponte Pedrinha, na margem direita do rio Pele, a Casa de Passelada. Tem interesse limitado quando nos acercamos, mas fascinante deste ponto de vista, quando a reconhecemos como a casa do José Dias, o infeliz amado de A Brasileira de Prazins. Continuando para Landim, quando o trilho deixa a vizinhança do rio, aparece a Quinta do Pregal, onde terá vivido e falecido a mulher que foi a inspiração para Marta, a filha de lavrador, que o pai força a casar com o tio rico, regressado de Pernambuco, carregado com cabedais suficientes para arrematar mais de uma dúzia de boas quintas.
Dando costas à janela, próxima já da outra parede, está a cadeira de baloiço. Camilo via cada vez pior – já não via. O médico, um amigo, acabara de lhe recomendar, para a visão perdida, água do Gerês. Camilo, que nas várias vidas que viveu ao longos dos seus 65 anos, também andou pela medicina, não precisou de mais explicações. Mal teria Ana Plácido acabado de se despedir do facultativo (era esta a palavra da sua preferência), não empunhou a caneta, inútil, mas o revólver… se não se distraíram com os últimos parágrafos, estamos ainda na sala de visitas, e foi aqui mesmo que se realizou o seu velório.
Escreveu “O homem que ama é um tolo sublime”. Apetece perguntar: e o que não?

Que ficou de Tânger, que ficou de Bowles?
Durante pouco mais de três décadas o território de Marrocos esteve dividido em vários sectores apropriadamente designados de protectorados: havia o espanhol e também o francês. Coexistiam com uma outra excentricidade, que é o que nos interessa para o artigo de hoje: a cidade internacional de Tânger. Vibrante, livre (mais ou menos) frenética, era regida por um conselho que envolvia os cônsules de diferentes países mais alguns notáveis locais.
Descobri até, não sem surpresa, durante a investigação para o meu segundo romance, que pouco depois do final da guerra, a governação da cidade internacional coube ao representante de Portugal, um ex-ministro português. Hoje, cruzando a porta na muralha que abre a sul, para o cemitério judaico, que acarinha o horizonte abaixo da fita azul cerúleo da baía, encontramos escondida nas ruelas da medina, impressionante e imponente, a Legação Americana. A sua vista ajudará a compreender muito desta estória. Atrás dela (mas a referência é irrelevante porque só os locais conservam aqui um módico de capacidade orientativa), na direcção da Grande Mesquita, ficava a Legação de Portugal.
A Cidade Internacional, foi instituída logo no início da década de 20 e duraria, de facto, até 60. Após a guerra, curiosamente durante o mandato do administrador português, Paul Bowles desembarca em Tânger onde se prepara para viver, os restantes cinquenta anos da sua vida.
Bowles é um jovem americano de classe-média, com uma educação esmerada, que faz estudos universitários na Virginia e estuda música com Aaron Copland. Mas é um quadro médio de um banco nova-iorquino e aborrece-se brutalmente com a sua vidinha confortável e banal.
Tânger, à saída da segunda guerra mundial, é uma placa giratória vibrante para contactos públicos e principalmente privados, muitos indizíveis, entre variadíssimos players mundiais de primeira linha. E como é natural atrai também uma comunidade artística e intelectual dinâmica e pujante que se instala na cidade fruindo o clima ameno, a beleza indiscutível da localização e o perfume inebriante do exotismo. Os intelectuais ocidentais, principalmente americanos, saturados por algum déjà-vu de Paris são atraídos para Tânger como borboletas para a luz.
Nenhum foi tão notório quanto Paul Bowles, que dá largas à sua criatividade, imensa, escrevendo, viajando, fazendo recolhas das tradições orais e musicais da região e atraindo outros nomes que com o decorrer dos anos se iam também tornando mais e mais notáveis.
É na cidade que publica o seu primeiro romance The Sheltering Sky estória que antecipa um conjunto de temas recorrentes na sua obra. Um casal americano no meio de uma relação em crise, parte para o norte-de-áfrica, à procura de qualquer coisa – nunca, Je ne sais quoi, pareceu uma expressão tão apropriada – mas levam consigo um amigo que, evidentemente, não vai ajudar à reconstrução da relação nem muito menos à superação da crise existencial.
Pouco depois volta a publicar. Desta vez Let It Come Down, título emprestado de uma cena de Macbeth, quando um dos assassinos está a ponto de matar Banquo.
Aqui, et pour cause, Bowles conta-nos a estória de um jovem nova-iorquino de classe média, que trabalha num banco e decide partir precisamente para Tânger, onde explora para além do seu enfado com a vida, os ambientes ameaçadores da cidade, os bordeis, as drogas e os inúmeros personagens sinistros que são tanto filhos da cidade quanto da náusea existencial em que deixou que a sua vida se tornasse.
Em Tânger, os círculos em que Bowles se move são um corrupio de nomes incontornáveis das letras do século XX. Tenessee Williams, Patricia Highsmith, Jack Kerouac, Truman Capote, Gore Vidal e William Burroughs. São cinquenta anos durante os quais a cidade se transforma sob os seus olhos a compor e a escrever linhas vívidas, fascinantes, com uma prolificidade notável, definindo uma ligação única entre o artista e a (sua) cidade.
Quando conheci Tânger pela primeira vez seria mais novo que Bowles ou o seu personagem Dyar e encontrei Tânger como ela ficou depois da independência de Marrocos, remetida ao papel melancólico de uma cidade de província, pese embora à beira-mar, o que ajuda sempre, olhando mais com uma expressão triste de inveja que propriamente nostalgia, os portos vizinhos de Ceuta e de Gibraltar.
O mundo não parou de mudar. A cidade, entretanto, refundiu-se, refez-se, várias vezes, e está aqui/ali tão acessível.
Deixo-vos numa tradução (muito) livre um parágrafo de The Sheltering Sky – quinta-essência da cidade de Bowles:
A morte está sempre a aproximar-se. Não sabermos quando ela chegará parece aligeirar a finitude da vida. É essa terrível certeza que tanto odiamos. Na ignorância, chegamos a pensar na vida como um poço inesgotável.