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Escreve, escreve muito, pequenos artigos, grandes artigos, comentários, coisas pequenas, até um dia...

Foi a minha primeira leitura da autora. Quero dizer, da autora, ela mesma, pois já a tinha lido em várias (boas) traduções de outros autores.
Devo ter escrito por aqui alguma vez, como me urticam os romances escritos sobre as grandes ‘causas’ do momento… neste caso: violência(s) domésticas. Só que, Tânia Ganho é completamente credível na forma como nos comunica o seu posicionamento e genuína na mensagem de denúncia que transmite.
Apetece voltar a citar o incipit de Anna Karenina, a famosa frase de Tolstói, sobre as famílias felizes: que todas se parecem; ao contrário das famílias infelizes. Cada vez me parece mais que, os nossos tempos, invalidaram a frase, o que não é, necessariamente, demérito de Tolstói. Mas são as famílias infelizes, mais resultado de uma gestão descabelada e extravagante das expectativas, alicerçada em likes de redes sociais que se acumulam em pirâmides por onde trepa com facilidade uma violência, talvez inata, muito mais do que em escolhas inteligentes e common sense, que em tudo se assemelham.
De regresso ao livro. Apneia, excelentemente bem escrito, é um périplo por um universo de sordidez e violência, principalmente psicológica, desvelado com mestria.
A autora leva-nos pela mão ao longo de um percurso que, a ter algum defeito, e será o único, é ser longo, muito longo. A partir de determinado momento da narrativa, que não vimos chegar, a progressão torna-se nauseante, os pés arrastam-se num chão lamacento e a dificuldade em continuar torna-se aflitiva. É prova do talento da autora e do conseguimento do objectivo dos arcos narrativos, levar o leitor a comprazer-se com 700 páginas progressivamente incómodas, e raiando o insuportável.
Salva-nos um fim redentor, oportunidade para subir à tona e respirar ar fresco, com sofreguidão.
Um livro excelente.

Na primeira vez que li um livro do Fábio, Corações De Papel, escrevi aqui: “Fábio Ventura tem uma capacidade imaginativa e uma competência para a transformar na ficção que escreve que são notáveis.” Essa frase da minha recensão viria a constar da badana do Gatos Na Noite, que o FV publicou no ano passado.
Com O Sono Dos Culpados, completei a minha terceira leitura do FV. Primeira conclusão: não me enganei!
O talento para surpreender – às vezes arrepiar – o leitor, aquela escuridão que jorra de algum lugar que ele tem lá escondido, mas que de todo não se vislumbra quando o conhecemos, não desaponta o amante de thrillers sofisticados.
Logo na primeira página, lemos: “A minha mente era como uma sala trancada, e eu estava do lado de fora” e a verdade é que ao longo das mais de 300 páginas do livro, nunca deixamos de sentir que estamos ‘do lado de fora’ e nunca nos abandona a curiosidade, sempre espicaçada, de descobrir o que se passa lá dentro.
Está confirmado. Há uma consistência (também pelos spin-off que o FV faz com uma perícia que impressiona), mas fundamentalmente pela qualidade da escrita e pela criatividade que ele esbanja, com elegância, até à última página, que é merecedora de aplauso.
Já percebi que vou sempre ler um thriller psicológico por ano. Força aí, Fábio, fico à espera.

Bonsai é uma curtíssima novela de um autor chileno – Alejandro Zambra – que se tornou objecto de culto – o autor.
O texto é tão enxuto que arrepia. Como é possível ser tão sintético e ainda assim parecer cobrir convincentemente todas as necessidades da narrativa?
Segue o percurso de dois jovens universitários, adensado pelas frequentes citações e referências literárias, que passam elas mesmas a dar a tal profundidade que parece inicialmente em falta.
Na verdade, é um livro sobre viver, tomando a vida em profundidades diferentes e driblando tanto quanto possível os desencontros em que as vidas, as normais, são férteis.
O incipit diz imenso sobre a espessura da tal linguagem enxuta que referi. Vejamos:
Al final ella muere y él se queda solo, aunque en realidad se había quedado solo varios años antes de la muerte de ella, de Emilia. Pongamos que ella se llama o se llamaba Emilia y que él se llama, se llamaba y se sigue llamando Julio. Julio y Emilia. Al final Emilia muere y Julio no muere. El resto es literatura:
Não, não será um livro de cabeceira, mas vale muito como exemplo de como menos é mais, muito muito mais.

Pois é.
Recordam aqueles professores de antigamente – porventura, ainda andam por aí mais frescos do que o lince da Malcata – que nunca davam a nota máxima, porque podia seguir-se alguma coisa "mais boa" e ficavam sem classificação? Tive bastantes. Quantos somíticos 'bom+' me pareceram merecer um 20? 😉
Porquê esta divagação? Classifiquei Apneia com 5* e agora faltam-me tentos...
TG é um conhecimento recente, mas creio que já saberia identificar 2 páginas dela no meio de um canhamaço de 1000 – Apneia tem, apenas, 700 😊. Há o estilo, há a elegância na escrita, há a escolha filigrânica do encadeamento dos vocábulos e, claro, as palavras fetiche.
Eu que detesto as obras 'modernas' construídas sobre 'causas' do momento, porque acho sempre que o timing é marqueteiro, e a coisa em si me soa a construto panfletário e oportunista, fico ali, conquistado.
TG postula, no sentido matemático do termo. Apresenta-nos emoções, sentimentos, que não sendo evidentes, acabamos aceitando sem discussão. A escrever bem, a escrever muito bem – há, felizmente, um bom número de autores – mas aqui, encontramos uma elegância, na escrita, na argumentação, que são notáveis.
Lobos é um patchwork inteligente de vidas assombradas por experiências de violência, com acompanhamento de uma linguagem singular, em que cada palavra – acredito mesmo nisto – é seleccionada com uma meticulosidade que um sommelier não coloca na harmonização mais importante. Mesmo quando a linguagem é crua, há sempre uma imensa delicadeza no tratamento das situações.
De cada capítulo saímos – porque a imersão é real – mais ricos de conhecimento, de valores, de vocabulário – o que não é fácil... 😉
Estarei atento às próximas criações.

Morro da Pena Ventosa, é um romance extremamente bem escrito, mas sobre esse quesito, não tinha eu qualquer dúvida, mesmo antes de o abordar.
É longo de mais – já tivera essa impressão no anterior que é superior – pese embora, reparo agora, as mesmas quatro estrelas.
É importante reconhecer, aqui, que Baioa é melhor – culpe-se esta escala neo-piagetiana com apenas 5 termos.
Morro da Pena Ventosa é uma declaração de amor a um Porto rousseauiano que se existiu, não existe mais e também, um extraordinário guia do centro histórico do Porto: só por isso já merece toda a minha atenção. E é muito bom.
Não sou apreciador destes finais que, de súbito, saltam para um outro plano, fantasioso, distópico, whatever (Cf. Pés de Barro). Tivesse havido um editor que convencesse o RC a encurtá-lo um pouco e mereceria mesmo mais de 5 estrelas!
Gostei, e regressarei às suas páginas, que anotei sem contenção, se não antes, em próxima viagem ao Porto.

‘O Último Avô’, é o terceiro romance de Afonso Reis Cabral, mas o primeiro que leio.
Curiosamente, tenho na estante os outros dois. O primeiro, onde encontrei com emoção a dedicatória de um grande amigo que já não está, redescobri-o este Verão, numa reorganização geral de prateleiras 😉
Este ‘O último avô’, ouvi o ARC mencioná-lo numa sessão, há alguns meses, em Faro, e soube que teria de o ler muito em breve…
Em hora boa, outra amiga, resolveu atirar-mo aos pés (é uma imagem, cá em casa não se maltratam livros!) e dar-me um prazo para lidar com ele.
O romance é uma obra de relojoaria, arquitectada entre três gerações, construída com um detalhe e uma perfeição incomuns. Escutei recentemente alguém dizer que o ARC ‘demora dez anos a aperfeiçoar um livro, não é dos anuais’ e recordo que então me desagradou o comentário. Hoje, depois da leitura, discordando, compreendo-o perfeitamente. É um retrato de família, seccionado, fragmentado e muitas vezes colado de novo.
Os personagens são densos, há uma tensão psicológica constante que se exerce, de forma ondulatória, diferentemente do comum, da tensão que progride de forma unidireccional e nos empurra para o desfecho…
O protagonista, um escritor, o avô Campelo, é um homem difícil, complexo, intratável, talvez, que se enovelou num conjunto de histórias que vai revelando sem muito revelar, sobre a guerra colonial – o mistério da sua vida e do livro.
Não vai, decerto, suscitar muita criatividade ao nível de memes, reels e tiktoks: é muito bom.

Nunca lera esta novela de Henry James.
Não sei, não encontro explicação válida outra que não seja uma azia forte, insuportável, que me costumam causar os grandes textos, as leituras incontornáveis e, frequentemente também, incontestáveis. Os textos canónicos.
A Fera na Selva é-o. É tudo isso, e o contrário também. Nesse sentido, cento e vinte anos depois, é profundamente moderna e profundamente política – na acepção da palavra neste século xxi – pode ser tudo, e o seu contrário também, um conjunto elegante de asserções desafiantes, caracterizadas por uma fascinante disjuntiva polissémica.
Quando comecei a ler, uma edição clássica no original inglês, de imediato tive a sensação de que estava a ler um texto que não tinha sido pensado naquele idioma. Uma versão de altíssima qualidade, mas traduzida. Habituei-me a reconhecer no inglês uma clareza, uma objectividade, que não estava presente no texto.
Divergindo:
Há muitos anos costumava visitar parceiros no norte de áfrica junto dos quais discutia o progresso de projectos comuns – quase sempre, a ausência de progresso. As conversas decorriam em francês, raramente em espanhol, escutava-os e faziam sentido, havia uma lógica na qual os argumentos se estruturavam e eu regressava ao escritório, se não satisfeito, pelo menos esclarecido. No momento seguinte preparava o relatório em inglês. Os dedos, que antes se moviam sobre o teclado com uma fluidez de coreografia de riverdance, emperravam, tropeçavam torpemente uns nos outros, até que se imobilizavam sob o ecrã vazio. Nada daquilo fazia sentido dependurado sem jeito nem equilíbrio na nova estrutura lógica.
Regressando:
Recuperei o primeiro parágrafo da novela.
"What determined the speech that startled him in the course of their encounter scarcely matters, being probably but some words spoken by himself without intention - spoken as they lingered and slowly moved together after their renewal of acquaintance."
Três linhas apenas que me obrigaram a esforços inauditos. Parecia que cada vez que voltava a ler a frase original ela já se tinha transmutado sobre os meus olhos. Não, não estou a exagerar. Não era de chumbo em ouro, infelizmente. Mas havia sempre uma nuance que realçava a cada nova leitura e que tornava insatisfatória a tradução recém-realizada. E a estória repetiu-se a cada poucos parágrafos ao longo de toda a curta novela.
Henry James, aborda aqui o sentido da vida e a importância de cada detalhe – sim, esses que costumamos desprezar sistematicamente – para a sua completa compreensão. Ocorreu-me até frase de Gabo “La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla" Mas curiosamente a versão do homem do realismo mágico, parecia-me demasiado clara e objectiva, James estava mais além.
Se amei A Fera na Selva? Não. Mas é fascinante. Uma espécie de cubo de Rubik insolúvel para amantes, ociosos, da literatura. Voltarei a ler. Um dia…
By the way:
"O que determinou o discurso que o sobressaltou durante o encontro, importa pouco, sendo provavelmente apenas uma ou outra palavra, dita por ele mesmo sem intenção — porventura enquanto se deixavam demorar e juntos prosseguiam lentamente após retomarem a convivência."
[Foi assim, há 20’]

De vez em quando, todos merecemos, encontrar um livro assim. Porque não mais vezes, mais frequentemente? Por que lhe daríamos menos valor e pelo desgaste emocional 😉
Le Barman du Ritz de Philippe Collin, é um desses livros. Grande.
A história conta-se em duas penadas. Passa-se no bar do Ritz de Paris, um lugar superlativo, e tem como peça-chave Frank Meier, aventureiro, de origem polaca, depois austríaco, que combate na Grande Guerra pela França e torna-se um expert mundial em cocktails – o maior barman do mundo – servindo clientes como Hemingway (já repararam que ele está sempre lá? Seja onde for?), Fitzgerald, Chanel, Guitry, you name it. O romance decorre fundamentalmente entre dois eventos: a queda de Paris (invadida pelos alemães) e a libertação de Paris (pelos Aliados), quatro anos mais tarde.
É desta perspectiva, folheada a luxo, que se assiste à descida aos abismos da sociedade francesa. Enquanto uma certa elite faz os possíveis e os impossíveis para continuar a flutuar, num contexto naturalmente colaboracionista, que o autor utiliza como cenário, mas também contexto e caldo de cultura para os heroísmos do possível.
Frank, é indubitável, colabora, mas também se empenha e arrisca profundamente para salvar pessoas perseguidas pelo ocupante.
Com uma fleuma, indissociável do perfil psicológico de alguém que esconde a sua origem, polaca, atrás da infância austríaca e combate na Grande Guerra do lado oposto às suas origens, Frank é sempre de uma contenção que chega a ser perturbadora. É que ele é portador de um segredo que quase não o é – uma paixão por uma mulher casada – e de outro que o é, apesar de algumas suspeitas aqui e além, quase até ao final, – é judeu.
Duvido que me apareça até ao final do ano meia mão-cheia de coisas tão boas como esta – mas cá estamos.

Terá sido há uns três anos, por esta altura, a da Feira do Livro.
O Abel Mota enviou-me uma meia dúzia de folhas ‘um esboço do meu próximo texto’, o título já lá estava… Na altura, recordo, achei um tema interessante, ambicioso qb, prenhe de possibilidades: os últimos meses da vida de Mário de Sá-Carneiro. Mas tive dúvidas…
Acabei de o ler, ontem. Caramba!
Traz na capa o selo do prémio que venceu há alguns meses, mas isso, aprendi há muito, não me impressionou. Já a leitura é outra coisa…
Comecemos, para deixar já de lado, pelo que não apreciei: o delírio descritivo e o vocabulário rebuscado. Ambos nos empurram sem cerimónias para o que, é fácil de imaginar, seria o ambiente, em particular dessa plêiade de intelectuais, escritores, poetas e não só, estrangeirados, peraltas, altivos, modernistas, muito razoavelmente clivados da realidade do país e igualmente de uma e do outro. O leitor tem frequentemente necessidade de vir à tona e inspirar uma lufada de ar fresco. Ao nível da revisão detectei um par de ‘estranhezas’, mas admito que, como muitas vezes em peças literárias premiadas, tenha havido pudor em corrigir, já após a premiação.
Com o caminho desimpedido, passemos então ao que interessa.
O AM fez aqui um trabalho de investigação de um detalhe, uma minúcia e um bom gosto, absolutamente notáveis – bem alinhados com o dandismo dos ambientes e dos personagens. É impressionante. Um diário, minucioso, do próprio, não conseguiria recolher tanta minudência, tantos detalhes e observação tão escrupulosa e destacada. Um pouco mais de sol, é um quadro que foi pintado com pinceladas precisas, mas delicadas, muito cuidadas e sempre compassivas.
Foi muito inteligente a adopção de um formato, número de páginas, e construções curtas, bem à la mode (já fiquei apanhado!). Surpreende, talvez, num romance desta estatura, mas fez desabrochar uma obra literária absolutamente impactante.
Um excelente trabalho que há que parabenizar!

Blurb do meu segundo romance, O Último Vôo do Açor:
Víctor regressou a São Miguel depois de várias vidas na pesca, na Terra Nova, e já não é o aventureiro que cresceu livre com o gado.
Vem aprimorado, senhor de ciência e truques mais elaborados. É vigia das baleias e vê negócios, principalmente retorcidos, mais rápido que o ar quente condensado dos sopros no horizonte, e antes de qualquer outro.
Um caixote com lingotes, fugindo da guerra rumo à segurança nos EUA, cai-lhe no bote. Mas não vai ser fácil desfrutar daquele presente inesperado. Com a subida da parada a vida complica-se tragicamente.
Mal-entendidos com a PIDE empurram-no para um trabalho mais prosaico, no aeroporto. E poucas semanas após o início das carreiras, o Açor, o primeiro avião do serviço interilhas, deixa de responder à torre do aeroporto de Santa Maria.
Na verdade, nunca chegará a responder.