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Casa natal de Vitorino Nemésio.jpg

 

Regressei recentemente aos Açores. É, não consigo optar por uma construção gramatical mais clean tipo ‘fui’ ou ‘voltei’. É sempre assim que sinto: um regresso, a lugares aos quais lamentavelmente não tenho nenhuma ligação. Mas tenho: cá dentro.

Estive num evento literário em Praia de Vitória, na Ilha Terceira, uma coisa organizada com desvelo, juntando feira do livro, música e apresentações de livros. Ali levei o meu segundo romance, uma estória passada nas ilhas, pouco depois do final da segunda guerra mundial.

Praia da Vitória não é um lugar qualquer. Vitorino Nemésio, seguramente o mais notável romancista açoriano, nasceu aqui. A evocá-lo está a casa natal do autor, recuperada com esmero, e também, a ‘casa das tias’, hoje biblioteca pública, para onde Nemésio regressava quando, ao longo da vida, ‘voltava a casa’. Recordemos-lhe as palavras: “A casa das tias era comprida e profunda como um quartel ou um convento. Os meus passos picados acordavam as tábuas do corredor e dos quartos enfiados uns nos outros”.

Define, a casa das tias, imponente com as suas dez janelas ao longo de uma longa varanda, uma pequena praça, com o seu busto, face à igreja da Misericórdia. A das duas capelas-mor, atestando uma rara dupla invocação. Mais impactante, a Matriz, como tantos outros edifícios da ilha e todas as suas almas, marcada por sismos sucessivos e as reconstruções que a teimosia, o apego e o amor à terra destas gentes, sempre conseguem concertar.

Num final da tarde, na Matriz, imaginamos, vibrando no ar, as últimas notas de um concerto pelo belíssimo órgão de armário construído por António Xavier Machado e Cerveira em 1793. Desgraçadamente está, quase sempre, mudo. Descemos a rua e, com o mar da baía à vista, suspendemos a respiração para admirar o imenso dragoeiro que se ergue galhardo, testemunho permanente dos quotidianos praienses.

Garrett, o tripeiro com fortes ligações à Terceira, também é evocado em Praia da Vitória, foi ele aliás, enquanto deputado, quem cuidou de que o título de ‘muito notável’ fosse atribuído ao município.

Por aí, junto ao mar, encontramos a placa evocativa, com o texto escrito por Nemésio: "A Garrett, que em menino andou por esta praia e em 1829 a cantou no seu exílio de Londres: E a Praia é só/Apenas se ouve a bulha compassada/Da ressaca, gemendo e murmurando".

É uma escadaria imensa, em sucessivos e impertinentes novos lanços, a que permite ascender ao Monte do Facho, miradouro que domina o panorama da baía. É esta serra do Facho, que separa do mar o Ramo Grande, a longa planície que desemboca aqui na baía, onde foi instalada a enorme pista do aeroporto da Terceira.

Estamos numa região de grandes feitos: naturais e humanos. A actividade tectónica do Ramo Grande, em progressivo afundamento, gera sismos calamitosos. Historicamente, em 1614 e 1841provocaram destruição generalizada na cidade: as infames Caídas da Praia.

Foi também aqui que um batalhão de voluntários, obteve a “vitória da Praia”, em Agosto de 1829 impedindo o desembarque da poderosa frota Miguelista, no quadro das Guerras Liberais.

Desde o Miradouro, conseguimos imaginar, mais do que vislumbrar, os dois pequenos fortes logo abaixo de nós, junto ao mar. Sob um intenso fogo de artilharia, ali junto ao areal, onde estão as poucas pedras que restaram do Forte do Porto, além onde construíram o molhe para a descarga do combustível para as forças americanas, e uma escassa centena de metros mais à direita, o Forte do Espírito Santo. Viram-se invadidos por uma força desembarcada pelos assaltantes que se apressaram a escalar a escarpa abrupta até à zona do miradouro, fundamental para as comunicações, e donde foram repelidos pelos voluntários, que assim conquistaram a vitória: para si, para as forças Liberais e para a cidade de Praia da Vitória.

Ficou-lhes o nome engrandecido, mas do forte nada resta ou pouco mais do que a tradição local, a que afirma que o brasão na fachada do edifício da Câmara pertenceria à porta de Armas do Forte do Espírito Santo.

 

*“Desfaz-se junto à Praia a vaga rendilhada,

Pulveriza a Atmosfera uma névoa cor de oiro”

Vitorino Nemésio

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A manécanterie.jpg

" Não tenho a certeza de quando vi a cidade pela primeira vez "

Consultor em Marketing Turístico e Escritor

 

Não tenho a certeza de quando vi a cidade pela primeira vez. Pode ter sido na adolescência, numa viagem de carro, em família, mas não posso garantir. Recordo, isso sim, ter ficado impressionado com o que me pareceu uma ilha. Uma parte do coração da cidade seria uma ilha. Na verdade, não é. Trata-se de uma península, criada pela confluência do rio Saône com o Ródano, à época, ver o lugar da junção dos rios e caminhar até à exaustão por aqueles quarteirões entre rios, fez-me acreditar que aquele centro histórico da cidade, classificado pela UNESCO como Património da Humanidade, seria mesmo uma ilha.

A cidade que se chamou Lugdunum, sempre teve a sua sorte ligada à de Roma. Por altura do período turbulento que sucedeu ao assassinato de Júlio César, os romanos apropriaram-se de uma povoação Celta e aqui criaram uma capital para a Gália.

Ao espaço que eu pensava ser uma ilha chamavam a ilha (como vêem não era só eu…) de Canabae, uma palavra que também significava celeiro e se aplicava às zonas de expansão urbana, fora dos acampamentos, onde habitavam os comerciantes – melhor localização, entre os dois rios, e com um acesso simples e directo ao mediterrâneo, não poderiam encontrar nesta encruzilhada de rotas comerciais.

A adolescência chegou ao fim, e o Emilio Salgari, o veronês que sem nunca ter saído de Itália me levou ao Bornéu quase trinta anos antes da viagem real e me apresentou a Sandokan, cedeu o lugar a outras leituras. Maurice Druon deslumbrou-me com os seus Reis Malditos, uma saga em 7 volumes, construída sobre a lenda inventada por outro veronês, Paolo Emilio, no século xv, a de que Jacques de Molay, o último grão-mestre dos Templários. Mais de um século antes, do alto da pira onde seria queimado, teria chamado o rei de França, o papa e o ministro das Finanças, e cérebro atrás de Filipe IV, a encontrarem-se com ele, do lado de lá, antes do final do ano, como se veio a verificar, acrescentando uma maldição para os seus descendentes até à décima terceira geração. Daí, os Reis Malditos.

Tudo isto para contar como me impressionou o episódio contado no quarto volume da obra, A Lei dos Varões, de quando Filipe V faz encerrar os cardeais reunidos num dos mais longos conclaves da história da cristandade. O conclave reuniu, primeiro, em Carpentras, onde cedo se verificou um impasse com a divisão em três grupos incompatíveis. Um grupo importante de cardeais consegue fugir e retomam o conclave, em Lyon, no convento dos Jacobinos – só resta a placa evocativa na praça, durante séculos triangular e agora trapezoidal, que ainda porta o seu nome. Filipe, que ainda é apenas irmão do rei, encerra-os no convento, como soe dizer-se, a cal e canto, para que elejam rapidamente um novo papa. Jacques Duèze, cardeal, chega ao conclave com 72 anos e finge-se profundamente doente. O estratagema resulta e o conclave elege-o, João XXII, para conseguir apressar a sua libertação e na expectativa de um pontificado curto – já retomariam a discussão. João XXII, o segundo papa de Avignon, reinará 18 anos!

Um outro atractivo singular de Lyon são as “traboules”, as chamadas passagens secretas, por entre edifícios, por dentro deles e ligando diferentes ruas. São afinal atalhos glorificados, a maior parte belíssimos e de descoberta e acesso nem sempre evidentes. Traboules vem do latim, trans ambulare ou passar através.  No total restam cerca de quinhentas ligando mais de duzentas ruas de Lyon. O número das que estão oficialmente abertas para visitação pelo público é, todavia, bastante reduzido. Mas vale a pena, mesmo, recorrendo à ‘lata’, à proverbial ousadia, para conseguir esgueirar-se nalgumas, como por exemplo na rua de Saint Jean, que invariavelmente se cruzará para visitar a catedral e logo a seguir a manécanterie, talvez o edifício mais antigo da cidade, que entre muitas coisas, nos seus mil anos de história, foi a escola dos jovens do coro da catedral.

Perguntar-se-á, leitor, se ouso seguir para o final desta crónica sem mencionar aquele que é porventura o autor mais famoso natural da cidade. Infelizmente, para além da placa oficial na fachada da casa que o viu nascer, no dia de São Pedro de 1900, pouco mais resta do poeta, escritor, jornalista e aviador francês, desaparecido em pleno vôo, no Verão de 44, ao largo da costa de Marselha. Fica também na nossa ‘ilha’, a casa natal de Antoine de Saint-Exupéry.

Traga consigo o Principezinho, que em bom rigor foi escrito em Nova Iorque e aí publicado, ainda durante a guerra, ilustrado com as aguarelas do autor.

Mas se preferir uma obra menos ‘fofinha’, muna-se para esta viagem de Vol de Nuit, as aventuras dos pilotos da aeroespacial na argentina ou Piloto de Guerra, sobre a invasão alemã da Holanda, da Bélgica e da França no início da guerra. Também publicado em Nova Iorque, e que conseguiu a proeza de ser limitado na edição, pelo governo de Vichy, censurado e proibido pelos nazis em Fevereiro de 43 e, meses mais tarde, por de Gaulle, na Argélia: é obra.

 

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Impressões de leitura | Bonsái

por jg, em 26.11.25

Bonsai.jpg

Bonsai é uma curtíssima novela de um autor chileno – Alejandro Zambra – que se tornou objecto de culto – o autor.
O texto é tão enxuto que arrepia. Como é possível ser tão sintético e ainda assim parecer cobrir convincentemente todas as necessidades da narrativa?
Segue o percurso de dois jovens universitários, adensado pelas frequentes citações e referências literárias, que passam elas mesmas a dar a tal profundidade que parece inicialmente em falta.
Na verdade, é um livro sobre viver, tomando a vida em profundidades diferentes e driblando tanto quanto possível os desencontros em que as vidas, as normais, são férteis.
O incipit diz imenso sobre a espessura da tal linguagem enxuta que referi. Vejamos:
Al final ella muere y él se queda solo, aunque en realidad se había quedado solo varios años antes de la muerte de ella, de Emilia. Pongamos que ella se llama o se llamaba Emilia y que él se llama, se llamaba y se sigue llamando Julio. Julio y Emilia. Al final Emilia muere y Julio no muere. El resto es literatura:
Não, não será um livro de cabeceira, mas vale muito como exemplo de como menos é mais, muito muito mais.

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Porvenir - Tierra del Fuego.jpg

 

 

Outubro de 2019. Um jipe em contramão embate num carro, Afonso Cruz é um dos passageiros. Numa passagem do seu livro mais recente, escreve sobre a iminência do fim. Estamos em Punta Arenas. Meio ano antes o meu avião fez-se, vagarosamente, à pista – depois de 12 horas desde Rapanui, na minha cabeça tudo parecia vagaroso. Situada na embocadura oeste, do Estreito de Magalhães é a porta de entrada para a Patagónia. Antes da abertura do canal do Panamá, era ponto de passagem obrigatório para os navios que desde o atlântico, da Europa, rumavam ao pacífico. Coincidentemente teve a sua corrida ao ouro, e depois, a passagem dos que buscavam a da Califórnia, primeiro, e a do Klondike, mais tarde. Não foi o que me trouxe, mas antes o fascínio pela Patagónia. Um ferry, pintado de cores pardas, com pinceladas de ferrugem, liga as duas margens do Estreito, cheguei com conforto, mais ou menos, a Porvenir com menos de 7000 habitantes a cidade mais populosa da Tierra del Fuego chilena. O navio reduziu a marcha, com suavidade, e entrou numa pequena baía bem protegida do mar e dos ventos. Atracou em silêncio, sem necessitar recorrer à inversão dos motores para acostar à margem, e o carro deu uns solavancos quase graciosos nas placas de metal canelado que fazem as vezes da passadeira vermelha, estendida para os meus primeiros passos na Tierra del Fuego. Um sonho de infância, que não infantil. A costa noroeste da ilha é exposta aos caprichos de ventos possantes que sopram sobre as ondas do Pacífico. A vegetação apresenta-se um pouco ressequida e a estepe prolonga-se até ao horizonte pontuada por árvores teimosas cuja inclinação face à vertical é a sua única concessão ao tratamento agreste do clima. As estradas não são asfaltadas e trazem uma gama de tonalidades de cinza a uma paleta modesta, dir-se-ia envergonhada. Traçam uma faixa contrastante que parece inutilmente querer separar a estepe, terra de siena queimada, do mar muito escuro, muito prata, muito metido consigo. Calhaus polidos, rolando desde sempre nos bicos de pés das ondas incansáveis, estremecem oferecendo mais profundidade à paisagem. As nuvens espraiam-se à vontade – aqui tudo parece espaçoso, reforçando a sensação de longínquo e em contradição, aproximando o horizonte. É uma ilha enorme onde vêm terminar os últimos contrafortes dos Andes e a Placa Sul-Americana e a Placa de Scotia se entretêm, como Maria, de Ricardo Reis, ao longo das tardes da eternidade, não a fazer meia, mas a um espectáculo ininterrupto, digno de um Agosto em vilória de província, a gerar instabilidade tectónica e actividade sísmica impressionantes. É uma beleza de uma modéstia pungente a que nos acolhe na Tierra del Fuego. De quando em quando, parecendo emergir da estepe, uns quantos guanacos, cabriolam numa das suaves colinas junto ao caminho. Um barco pintado de amarelo-açafrão, preguiçando de borco sobre os calhaus, deixa-se afagar com suavidade, já quase só pela espuma das ondas. Pontuando os limites do estradão, curtos postes de madeira, listados de branco e vermelho cádmio, foram aqui colocados, para facilitar a detecção durante as tempestades e os nevões – ou só para realçar, introduzindo uns apontamentos de cor. Ao longo da costa, observamos algumas colónias de pinguins-rei, facilmente reconhecíveis pelo tamanho e exuberância do seu babete dourado. Os cormorões passeiam-se despreocupadamente à beira-mar ou fazem curtos vôos de reconhecimento. Argentinos e Chilenos, puseram-se de acordo sobre a intensificação da exploração da ilha. Em pouco tempo estâncias descomunais tomaram conta da maior parte do território – onde as características selvagens do território o permitiram, e deram mão-livre à selvajaria humana – a que tudo permite. As vítimas deste processo de ocupação do território foram os Selknam perseguidos pelos fazendeiros, pelos homens do garimpo e mesmo por assassinos profissionais, em caçadas organizadas, pagando-se-lhes pelo número de orelhas cortadas. Atravessamos a Ilha Grande. Aparecem mais guanacos e algumas manchas arbóreas, os bosques de lenga. É por aqui que vive a raposa colorada fueguina, esquiva e naturalmente camuflada. Francisco Coloane, talentoso autor chileno, passou uma parte importante da sua vida nestas terras austrais, e deixou-nos uma brilhante colecção de contos, Tierra del Fuego, onde nos relata a beleza quase inescrutável do território e a crueldade que acompanhou a expansão de diferentes aventureiros que desbravaram a riqueza impressionante da ilha e a sua exploração intensiva. Serão Sepúlveda, sempre destro e ágil com a palavra, no seu belíssimo Patagónia Express, e Chatwin, em Na Patagónia, recheados ambos de episódios fantásticos, que acompanharão a viagem, como um marcador florescente traçando rotas sobre o mapa. Rumando até ao extremo sul, a Ushuaia, encontramos Tolhuín, pequena cidade nas margens do Lago Fagnano… a cidade é bem pitoresca – uma colorida mancha de barracões de madeira à beira-mar, contra um fundo montanhoso que evoca paisagens que associamos à Noruega. Aqui encontramos a Confitería La Unión a coisa mais deliciosa e gulosa, a esta distância, mínima, do pólo. Se Amundsen tivesse passado por aqui não teria sido o primeiro a chegar ao Polo Sul…

 

(*) Hay paisajes, como instantes de la vida, que no se borran jamás de la mente. Francisco Coloane

 

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Interior da casa onde nasceu MTG em Portimão.jpg

Não é com certeza fácil para um português médio recordar os nomes dos presidentes da república. Tudo o que fica para além dos inquilinos de Belém que precederam a sua experiência de vida adulta é uma coisa longínqua que aparece num cocktail de memória com Sebastião e Afonso Henriques – o que é natural porque, então, não eram figuras que se vissem todos os dias…

Amante de livros e algarvio, grande viajante, esteta e homem de cultura, a figura do portimonense Manuel Teixeira Gomes é, porém, incontornável, e para além disso fascinante.

No seu tempo a cidade chamava-se Vila Nova de Portimão. Nascido numa família abastada, MTG interessou-se cedo pela cultura e pelas artes. Aborreceu os estudos em Coimbra, como aliás a Camilo os estudos no Porto, e cedo se apostou como um flâneur profissional.

Viajava pelo sul da Europa, principalmente, procurando mercadorias e colocação para os frutos secos que faziam a riqueza da sua família, como a das outras famílias abastadas do Algarve, e deliciando os sentidos nas paisagens, nas artes, na gastronomia nos vinhos e nas gentes.

Interessa-se pela política e logo em 1911 é nomeado embaixador em Londres: o primeiro da nova República. Não é um momento fácil das relações na putativa mais velha aliança do mundo: a instauração da república e a consequente substituição na embaixada do marquês de Soveral, com excelentes relações na corte, fazem com que apenas alguém com uma cultura e um carisma superlativo conseguisse entrosar-se no establishment britânico e ganhar mesmo a simpatia e afecto do rei Jorge V. 

MTG tem uma missão. Acredita que o conflito que vai começar, modificará a política no continente, e o continente ele mesmo, e entende que Portugal não pode ficar à margem. Não é o que hoje chamaríamos um falcão, um belicista, mas para ele, a nova república tem necessariamente de tomar partido e entrar sem reticências do lado dos Aliados.

Em Portugal o regime não prima pela estabilidade. Enganam-se todos aqueles que acreditam que no dia da revolução, as coisas mudam. Que na manhã seguinte as forças em presença são outras e as condições sociopolíticas radicalmente diferentes. Não foi assim em 1910 e não foi assim nunca.

Em 1918, com a chegada de Sidónio Pais, dão-se mudanças significativas no regime e nas políticas da República. MTG é retirado de Londres e aprisionado no Hotel Avenida Palace – eu disse-vos que era um homem de bom gosto…

A débacle das forças expedicionárias portuguesas e da administração, incapaz, primeiro de as abastecer e depois do armistício de as repatriar, gera um mal-estar significativo que culmina com o assassinato de Sidónio.

MTG volta ao activo, é embaixador em Madrid, participa na Conferência de Paz em Madrid e reassume a representação portuguesa em Londres. É aí que está quando o parlamento o elege presidente da república – a eleição directa é coisa da terceira república e nesta estória ainda vamos na primeira.

O telegrama a informar da eleição segue para Londres e MTG faz as malas. Jorge V faz questão de pôr à sua disposição um cruzador da marinha real para o transportar – uma coisa impressionante para alguém que não é oriundo da nobreza nacional – e é assim, com pompa e circunstância, que desembarca em Lisboa.

Em Belém as coisas não se apresentam fáceis. MTG será presidente durante dois anos durante os quais empossou seis governos. A agitação, também nos sectores militares, é crescente, tal como a simpatia por soluções de cariz autoritário. Sentindo-se impotente, porventura nauseado e saudoso, talvez, das suas viagens, MTG renuncia uma primeira vez e, definitivamente, em Dezembro de 1925, alegando razões de saúde e vontade de voltar a dedicar-se à actividade literária. Menos de uma semana mais tarde embarca num cargueiro holandês, dir-se-á que o primeiro a sair de Lisboa, que nem de propósito, segue para a Argélia francesa. Aí começa o seu auto-exílio e nunca mais regressará a Portugal.

Nos primeiros seis anos investe-se em viagens pela bacia do mediterrâneo – talvez aí as saudades da terra (perdoe-me Gaspar Frutuoso a apropriação), fossem menos dolorosas… São anos dedicados à bacia do mediterrâneo cuja luz e as paisagens persegue incessantemente. Escreve, escreve muito, a maior parte das suas obras, e algumas memórias saudosas e pungentes, como Regressos. Escreveu um dia: Viajar, sozinho e sem plano, sem guia.

Percorre a costa mediterrânica da Argélia, Orão e Argel que torna a visitar amiúde e escolhe Bougie, na costa da Cabília, onde se instala num quarto singelo do modesto Hotel l’Étoile, na pequena praça Gueydon.

É no quarto 13 – ainda hoje visitável – mantendo correspondência com alguns amigos e recebendo escassas visitas, que passa os derradeiros dez anos de vida. Ali, de frente para o mediterrâneo, o homem que um dia, quase 40 anos antes, no Porto, escreveu Agosto Azul.

O céu, de um azul intensíssimo, está como que esponjado de peque­nas nuvens; a Ponta do Altar perfila-se com o seu recorte siracusano, e pouco a pouco, ao declinar do Sol, acende-se em oiro.

 

A Ponta do Altar perfila-se […] e pouco a pouco, ao declinar do Sol, acende-se em oiro

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As janelas do Corredor Vasari sobre a Ponte Vecchi

 

Agosto é o mês das férias. E dos excessos: uns amam e outros odeiam. É também quando encontramos as atracções mais congestionadas e as tarifas mais elevadas. Há anos, em resposta a um comentário surpreso face ao preço do um alojamento, ouvi um proprietário retorquir, “Agosto só há um!”

Com o advento do transporte aéreo low-cost e a insistência das administrações em subsidiá-lo, os preços são mantidos artificialmente baratos prejudicando opções por viagens mais sustentáveis e expondo a hipocrisia de muitas medidas ditas, pelo planeta.

Florença é, há muitas décadas e justificadamente, um grande pólo de atracção turística.

Uma época curta de grande disponibilidade económica e, raríssimo na história da humanidade, a generalização do bom gosto, conduziu a um período irrepetido de criação artística que justifica hoje a grande atractividade da cidade, mesmo no contexto, muito competitivo, da Península Itálica.

Florença pode com facilidade ser um lugar detestável, mas acredite, leitor, se ainda não conhece, arranje rapidamente maneira de a visitar. Primeiro porque é fascinante belíssima e imperdível, e segundo, porque a situação a partir daqui só poderá piorar…

Porque é Agosto, ofereça-se o prazer de uma leitura leve, mas desafiante, já virão outros meses em que lhe traremos propostas mais sisudas...

Que tal um Dan Brown? O “Inferno”: o título remete para Dante, mas nem de propósito, excelente para explorar a cidade e; ou dependendo da sofreguidão com que lê em férias, uma biografia ficcionada, a de Michelangelo Buonarroti, sim, esse mesmo, no excelente “The Agony and the Ecstasy” de Irving Stone.

Florença não é fácil e não se revela com facilidade. A última década trouxe-lhe hordas de turistas que já não vêm apenas na Primavera e no Verão.

O visitante tem de se vestir de argúcia e escolher datas inócuas no calendário. Eu sei, eu sei, mas tem de ser assim e acredite-me que vale o sacrifício.

Portanto nada de festas especiais nem de pontes nos principais mercados emissores. Um bom truque, também aplicável em Silves, mas por outras razões, é estabelecer uma relação de cumplicidade com o mau tempo. Sim, leu bem. Já definimos que não visitaremos no Verão. Então, após uma bela chuvada, é o momento ideal para a visita. Em Silves para se beneficiar do ocre sanguíneo que o arenito das muralhas ganha então, em Florença, para evitar as sete pragas do Egipto num dia só.

Se leva consigo o Dan Brown então não vai querer perder o corredor Vasari. Verifique com antecedência as condições da visita e reserve. A passagem foi criada no século xvi para uso dos Medici, a família cujo nome é sinónimo de Florença e ambas de Renascimento. Residiam no Palácio Pitti, na margem sul do Arno e exerciam o seu poder no Palácio Vecchio, aquele mesmo que tem na frente a cópia do famoso David. Por segurança, conveniência e comodidade, mandaram construir a passagem sobreelevada, que liga os dois centros da sua influência e ambas as margens da cidade. Durante longas décadas caiu em desuso e quase esquecimento sendo que a sua extremidade norte desemboca nas fabulosas Galerias Uffizi e chegou a ser utilizado como armazém: dos “trastes” do Museu.

O mundo pareceu acordar para o corredor Vasari em 2013 com a publicação de “Inferno”, o livro de suspense histórico a que se seguiu três anos mais tarde o filme homónimo. Mas na verdade, já no incontornável filme, Paisà (Libertação, 1946), de Roberto Rossellini, a enfermeira americana e o guerrilheiro italiano, recorrem à passagem para entrar na cidade que suspeitam ter sido abandonada na véspera pelas tropas nazis após a destruição das pontes.

A realidade mostrar-lhe-á, leitor, que hoje só é possível fazer o percurso contra a corrente, da cidade para oltrarno, a outra-banda florentina.

Tenha a precaução de admirar antecipadamente as fabulosas portas do Baptistério, brutal trabalho de Ghiberti, das quais terá dito Michelangelo que eram dignas de ser as verdadeiras portas do Paraíso. Atenção que, na verdade, são cópias, as originais estão ali perto no museu da Comissão Fabriqueira da Catedral (Museo dell'Opera del Duomo), vizinhas da Pietà Bandini, de Michelangelo, como os Escravos Cativos, incompleta e igualmente sublime. É que em Florença “tudo são trocos”, o que por isso mesmo justifica (quase) todo o desconforto e sofrimento da visita…

Sensivelmente por aqui, estaria o depósito de materiais de construção da catedral, onde esteve bastante tempo o gigantesco bloco de mármore de Carrara que vários escultores famosos hesitaram em trabalhar. Um bloco com mais de 5 metros que o inventário referia como ‘toscamente extraído e deitado’. Mas em Agosto de 1501, há precisamente 524 anos o contracto era outorgado: a comissão “escolheu como escultor o insigne mestre, Michelangelo, filho de Lodovico Buonarrotti, cidadão de Florença, com o propósito de que produza, complete e aperfeiçoe a figura masculina conhecida como o Gigante […] armazenado nas oficinas desta Catedral.” Assim nasceu o David.

 

 

*Provérbio toscano: Idiota é aquele que se ocupa com a vida alheia.

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Pico Madalena.JPG

Foi talvez a primeira vez…

Seria ao lusco-fusco, já. Um casal que regressava, de um daqueles lugares na Nova Inglaterra que, aqui, crismados com engenho e ternura, ganham novos nomes, um Batefete ou Plimente, ofereceram-me com uma generosidade que muitas viagens depois, sei que não era fruto do momento, mas antes uma característica solidamente ancorada no ser destas gentes, boleia com o familiar que os aguardava para levar a casa.

Por estranho que pareça, houve um tempo em que viajávamos sem reservas, sem comunicações móveis, com informação local saborosamente antiquada, em papel bíblia, e avara de gravuras. ‘Online’ soava a uma interpelação paterna, para andar na linha, e não se usava. Creio até que, com ou sem, andávamos mais na linha, nesses tempos menos piagetianos, mas não é esse o tema de hoje.

Explicaram-me que o destino deles ficava para lá da cidade, na Praia do Almoxarife, cuja marginal precisariam atravessar de lés a lés, convidando-me por isso, a dizer onde queria sair.

O carro seguia próximo do mar, de costas para um sol, que começava já a mergulhar no atlântico, nalgum lugar remoto lá para as bandas das Flores. As primeiras casas vieram, acolhedoras, ao nosso encontro, e com elas uma pequena baía de formato caprichoso e um monte península, digamos quase-ilha, à francesa, que fica mais ajustado ao significado que se apresentava agora, além do pára-brisas, irrazoavelmente sujo, atravessado mesmo ao meio por um sino, saltitante, felizmente sem badalo.

Agora à distância, julgo que o braço se ergueu por vontade própria, dedo em riste, enquanto procurava as palavras, suaves apenas o necessário para cortar a excitação que se apoderara de mim: “É ali que eu vou ficar, naquele monte.” Omiti que aos meus olhos tanto poderia ser um cone vulcânico aposentado como um suflê desajeitadamente retirado do forno antes do tempo: “Ali!”

Desviaram-se da sua rota, insistindo em aproximar o carro do objecto do meu súbito fascínio, e deixaram-me na ponta do istmo, junto a uns edifícios em mau estado. Desculparam-se muito, mas a noite caía e ainda tinham alguns quilómetros para fazer. “Fica aqui ao pé da fábrica da baleia. Por aí acima” – e apontaram o estradão em macadame – “só o forte em ruínas e a capela de Nossa Senhora da Guia.”

Eu já tinha desistido de disfarçar o sorriso apatetado que se me tinha apossado da cara. Que lugar espectacular.

Mochila às costas segui pelo caminho que contornava o vulcão – seria uma indignidade continuar a chamar-lhe suflê mal-enjorcado – continuava a ver graças a uma esteira de luz, projectada pela lua que atravessava a baía maior, onde se anichava a cidade a norte de onde me encontrava. Breve, encontrei uma zona plana, coberta de uma relva farfalhuda que preenchia os espaços entre os restos das muralhas arruinadas.

Foi num santiamém que montei a tenda, de frente para o mar – fascinado pelo tamanho irreal de uma lua que parecia querer partilhar a própria tenda – e adormeci.

Se esperavam a introdução, aqui, de uma diatribe mais ou menos filosófica, literária talvez, exculpo-me já, sempre fui assim, adormecer é um acto de magia – instantâneo.

Sonhei, muito, como não? Com o Canal, aos meus pés. O do Mau Tempo. A Margarida Dulmo, o tio Roberto, o João Garcia, e até o avô, que eu adivinhava a espreitar, frente às vidraças do quarto, no Pasteleiro – algures atrás de mim – enfocando os olhos pequeninos, sempre um pouco raiados e meio baços, cismando que conseguiria ver dali, como eu, as vinhas, no Pico, entre Candelária e São Mateus, as que conservara com uma teimosia notável.

Despertei, sobressaltado, graças à inusitada sonoridade de uma fanfarra que executava uma alegre marcha militar. Dei graças por ter sobre a cabeça um tecto de pano e não de alvenaria. O espanto foi total. O sol, estava ainda a coberto da massa enorme do Pico, mesmo à minha frente, recortado com um traço perfeito, suavemente esfumado, como os olhos de alguma beldade das mil e uma noites – e isto que ainda era a primeira!

Em baixo a cidade apresentava-se, belíssima, refulgindo graças a meia dúzia de raios de sol que, do lado do Canal de São Jorge, já conseguiam acariciar, com suavidade, o casario, e no primeiro plano, pronta para atracar na Horta, a Sagres, sempre elegante, velas enfunadas nos seus três mastros, galhardamente embandeirada em arco, que chegava para o início da Semana do Mar.

Os sinos das igrejas da cidade, começaram a bater as sete. Teimosamente desacertados, como se cada um quisesse exibir a sua sonoridade própria sem necessidade de ensaios, sem a orientação de um maestro. De novo recordei o livro. A aflição de Margarida, nas vinhas, as chamas no Granel – debrucei-me um pouco, estaria logo aqui abaixo – tentando contá-las: Angústias, 4; Matriz, 6; Conceição, 8.

Ali em baixo, as águas do Canal empenhavam-se contra a costa, com um ruído de vassoura percutindo a bateria “a maré vazia cardava o calhau suavemente”.

Hoje, não se viaja sem smartphone, sem garrafinha de água, sem factor de protecção 30. A este lugar não venhais sem um exemplar de Mau Tempo no Canal, nem partais sem ler o conto: Mulher de Porto Pim

Julgo que foi nesse dia que me apaixonei pela Horta – coisas de adolescente…

 

https://postal.pt/edicaopapel/aquele-eterno-capote-e-capelo-de-nuvens-que-o-pico-franzia-na-garganta/

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A cadeira de baloiço.jpg

Para além de uma escrita de riqueza e profundidade imbatíveis, Camilo, tem uma outra característica fascinante: tudo está firmemente ancorado em experiências, relacionamentos e lugares. Não só podemos procurar os locais, como também participar das polémicas, vivas, que se levantam entre freguesias, sobre o verdadeiro cenário de uma cena ou a naturalidade de um personagem. É por isso que, como poucos, se adequa à nossa filosofia de viagem e (re)descobrir as suas referências é um prazer imenso.

Munidos de um exemplar de A Brasileira de Prazins, o último grande romance do autor, fomos recentemente a Seide. São Miguel de Seide, foi a pequena freguesia a uma escassa légua de Famalicão, onde viveu as últimas quase três décadas da vida.

É um casarão rural, discreto até, comparado com muitas destas casas senhoriais que pontuam a paisagem rural do Minho. Depois de várias vicissitudes, e um incêndio, foi reconstruída com cuidado e rigor.

É, como hoje soe dizer-se, uma visita para experienciar. O piso térreo, que foi adega, apresenta uma interessante exposição-memória sobre o autor, com comentários de figuras de topo da literatura Peninsular. Mas é subindo aos andares que conseguimos a verdadeira imersão na intimidade de Camilo e já agora, de Ana Plácido, mulher memorável e também ela escritora.

Esta não foi a primeira casa de Camilo. Na infância, órfão, viveu com familiares em Vila Real e também em Vilarinho de Samardã – freguesia duriense tão especial que atraiu também a pena de Torga. Com o primeiro casamento, aos 16 anos, Camilo, estabelece-se em Friúme na margem esquerda do Tâmega, em Ribeira de Pena. Fica aí uma pequena casa museu, com loja de dois cómodos e um piso superior com a cozinha, o quarto do casal e uma daquelas varandas de madeira que apinocam as fachadas das casas tradicionais da região.

Foi aqui que colocou Maria Moisés, criança que sobrevive às águas do rio após a queda fatal da mãe que escorregou ao atravessar umas poldras limosas. Salva milagrosamente e recolhida a uma casa abastada, ergue-se a partir daqui como personagem central.

O casamento dura pouco tempo e o autor – deverei dizer o nosso herói? – segue um périplo de paixões, Viseu, Caminha, Fafe, Porto, solteiras, casadas e freiras, até que conhece Ana Plácido que pouco depois casaria com um homem que fizera fortuna no Brasil e o feliz proprietário desta casa de campo.

Se o parágrafo anterior nos remete para A Brasileira de Prazins, a continuação da estória, o processo por adultério que levará ambos à Cadeia da Relação, no Porto, é o Amor de Perdição, porventura sua obra mais famosa, escrita em apenas 15 dias. Absolvidos, passam a viver juntos e, quando, pouco depois, Ana Plácido enviúva, o filho herda esta casa de Seide.

Estamos agora, depois do indispensável enquadramento, municiados para subir a escada e visitar os espaços do piso superior. A pequena sala, com o harmónio que Ana tocava, a cozinha, com a descomunal chaminé e fumeiro, os quartos, a sala de jantar e a grande sala de visitas com janelas para dois lados.

De uma delas, ao lado do relógio de parede, o da botica, descrito de forma primorosa logo na abertura de Eusébio Macário, podemos ver por onde se inicia o trilho da Cangosta do Estêvão e adivinhar, ao passar a Ponte Pedrinha, na margem direita do rio Pele, a Casa de Passelada. Tem interesse limitado quando nos acercamos, mas fascinante deste ponto de vista, quando a reconhecemos como a casa do José Dias, o infeliz amado de A Brasileira de Prazins. Continuando para Landim, quando o trilho deixa a vizinhança do rio, aparece a Quinta do Pregal, onde terá vivido e falecido a mulher que foi a inspiração para Marta, a filha de lavrador, que o pai força a casar com o tio rico, regressado de Pernambuco, carregado com cabedais suficientes para arrematar mais de uma dúzia de boas quintas.

Dando costas à janela, próxima já da outra parede, está a cadeira de baloiço. Camilo via cada vez pior – já não via. O médico, um amigo, acabara de lhe recomendar, para a visão perdida, água do Gerês. Camilo, que nas várias vidas que viveu ao longos dos seus 65 anos, também andou pela medicina, não precisou de mais explicações. Mal teria Ana Plácido acabado de se despedir do facultativo (era esta a palavra da sua preferência), não empunhou a caneta, inútil, mas o revólver… se não se distraíram com os últimos parágrafos, estamos ainda na sala de visitas, e foi aqui mesmo que se realizou o seu velório.

Escreveu “O homem que ama é um tolo sublime”. Apetece perguntar: e o que não?

CULTURA.SUL 16.05.2025

 

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