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As janelas do Corredor Vasari sobre a Ponte Vecchi

 

Agosto é o mês das férias. E dos excessos: uns amam e outros odeiam. É também quando encontramos as atracções mais congestionadas e as tarifas mais elevadas. Há anos, em resposta a um comentário surpreso face ao preço do um alojamento, ouvi um proprietário retorquir, “Agosto só há um!”

Com o advento do transporte aéreo low-cost e a insistência das administrações em subsidiá-lo, os preços são mantidos artificialmente baratos prejudicando opções por viagens mais sustentáveis e expondo a hipocrisia de muitas medidas ditas, pelo planeta.

Florença é, há muitas décadas e justificadamente, um grande pólo de atracção turística.

Uma época curta de grande disponibilidade económica e, raríssimo na história da humanidade, a generalização do bom gosto, conduziu a um período irrepetido de criação artística que justifica hoje a grande atractividade da cidade, mesmo no contexto, muito competitivo, da Península Itálica.

Florença pode com facilidade ser um lugar detestável, mas acredite, leitor, se ainda não conhece, arranje rapidamente maneira de a visitar. Primeiro porque é fascinante belíssima e imperdível, e segundo, porque a situação a partir daqui só poderá piorar…

Porque é Agosto, ofereça-se o prazer de uma leitura leve, mas desafiante, já virão outros meses em que lhe traremos propostas mais sisudas...

Que tal um Dan Brown? O “Inferno”: o título remete para Dante, mas nem de propósito, excelente para explorar a cidade e; ou dependendo da sofreguidão com que lê em férias, uma biografia ficcionada, a de Michelangelo Buonarroti, sim, esse mesmo, no excelente “The Agony and the Ecstasy” de Irving Stone.

Florença não é fácil e não se revela com facilidade. A última década trouxe-lhe hordas de turistas que já não vêm apenas na Primavera e no Verão.

O visitante tem de se vestir de argúcia e escolher datas inócuas no calendário. Eu sei, eu sei, mas tem de ser assim e acredite-me que vale o sacrifício.

Portanto nada de festas especiais nem de pontes nos principais mercados emissores. Um bom truque, também aplicável em Silves, mas por outras razões, é estabelecer uma relação de cumplicidade com o mau tempo. Sim, leu bem. Já definimos que não visitaremos no Verão. Então, após uma bela chuvada, é o momento ideal para a visita. Em Silves para se beneficiar do ocre sanguíneo que o arenito das muralhas ganha então, em Florença, para evitar as sete pragas do Egipto num dia só.

Se leva consigo o Dan Brown então não vai querer perder o corredor Vasari. Verifique com antecedência as condições da visita e reserve. A passagem foi criada no século xvi para uso dos Medici, a família cujo nome é sinónimo de Florença e ambas de Renascimento. Residiam no Palácio Pitti, na margem sul do Arno e exerciam o seu poder no Palácio Vecchio, aquele mesmo que tem na frente a cópia do famoso David. Por segurança, conveniência e comodidade, mandaram construir a passagem sobreelevada, que liga os dois centros da sua influência e ambas as margens da cidade. Durante longas décadas caiu em desuso e quase esquecimento sendo que a sua extremidade norte desemboca nas fabulosas Galerias Uffizi e chegou a ser utilizado como armazém: dos “trastes” do Museu.

O mundo pareceu acordar para o corredor Vasari em 2013 com a publicação de “Inferno”, o livro de suspense histórico a que se seguiu três anos mais tarde o filme homónimo. Mas na verdade, já no incontornável filme, Paisà (Libertação, 1946), de Roberto Rossellini, a enfermeira americana e o guerrilheiro italiano, recorrem à passagem para entrar na cidade que suspeitam ter sido abandonada na véspera pelas tropas nazis após a destruição das pontes.

A realidade mostrar-lhe-á, leitor, que hoje só é possível fazer o percurso contra a corrente, da cidade para oltrarno, a outra-banda florentina.

Tenha a precaução de admirar antecipadamente as fabulosas portas do Baptistério, brutal trabalho de Ghiberti, das quais terá dito Michelangelo que eram dignas de ser as verdadeiras portas do Paraíso. Atenção que, na verdade, são cópias, as originais estão ali perto no museu da Comissão Fabriqueira da Catedral (Museo dell'Opera del Duomo), vizinhas da Pietà Bandini, de Michelangelo, como os Escravos Cativos, incompleta e igualmente sublime. É que em Florença “tudo são trocos”, o que por isso mesmo justifica (quase) todo o desconforto e sofrimento da visita…

Sensivelmente por aqui, estaria o depósito de materiais de construção da catedral, onde esteve bastante tempo o gigantesco bloco de mármore de Carrara que vários escultores famosos hesitaram em trabalhar. Um bloco com mais de 5 metros que o inventário referia como ‘toscamente extraído e deitado’. Mas em Agosto de 1501, há precisamente 524 anos o contracto era outorgado: a comissão “escolheu como escultor o insigne mestre, Michelangelo, filho de Lodovico Buonarrotti, cidadão de Florença, com o propósito de que produza, complete e aperfeiçoe a figura masculina conhecida como o Gigante […] armazenado nas oficinas desta Catedral.” Assim nasceu o David.

 

 

*Provérbio toscano: Idiota é aquele que se ocupa com a vida alheia.

https://postal.pt/edicaopapel/pazzo-e-colui-che-bada-ai-fatti-altrui-por-jose-garrido/

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