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Escreve, escreve muito, pequenos artigos, grandes artigos, comentários, coisas pequenas, até um dia...

Regressei recentemente aos Açores. É, não consigo optar por uma construção gramatical mais clean tipo ‘fui’ ou ‘voltei’. É sempre assim que sinto: um regresso, a lugares aos quais lamentavelmente não tenho nenhuma ligação. Mas tenho: cá dentro.
Estive num evento literário em Praia de Vitória, na Ilha Terceira, uma coisa organizada com desvelo, juntando feira do livro, música e apresentações de livros. Ali levei o meu segundo romance, uma estória passada nas ilhas, pouco depois do final da segunda guerra mundial.
Praia da Vitória não é um lugar qualquer. Vitorino Nemésio, seguramente o mais notável romancista açoriano, nasceu aqui. A evocá-lo está a casa natal do autor, recuperada com esmero, e também, a ‘casa das tias’, hoje biblioteca pública, para onde Nemésio regressava quando, ao longo da vida, ‘voltava a casa’. Recordemos-lhe as palavras: “A casa das tias era comprida e profunda como um quartel ou um convento. Os meus passos picados acordavam as tábuas do corredor e dos quartos enfiados uns nos outros”.
Define, a casa das tias, imponente com as suas dez janelas ao longo de uma longa varanda, uma pequena praça, com o seu busto, face à igreja da Misericórdia. A das duas capelas-mor, atestando uma rara dupla invocação. Mais impactante, a Matriz, como tantos outros edifícios da ilha e todas as suas almas, marcada por sismos sucessivos e as reconstruções que a teimosia, o apego e o amor à terra destas gentes, sempre conseguem concertar.
Num final da tarde, na Matriz, imaginamos, vibrando no ar, as últimas notas de um concerto pelo belíssimo órgão de armário construído por António Xavier Machado e Cerveira em 1793. Desgraçadamente está, quase sempre, mudo. Descemos a rua e, com o mar da baía à vista, suspendemos a respiração para admirar o imenso dragoeiro que se ergue galhardo, testemunho permanente dos quotidianos praienses.
Garrett, o tripeiro com fortes ligações à Terceira, também é evocado em Praia da Vitória, foi ele aliás, enquanto deputado, quem cuidou de que o título de ‘muito notável’ fosse atribuído ao município.
Por aí, junto ao mar, encontramos a placa evocativa, com o texto escrito por Nemésio: "A Garrett, que em menino andou por esta praia e em 1829 a cantou no seu exílio de Londres: E a Praia é só/Apenas se ouve a bulha compassada/Da ressaca, gemendo e murmurando".
É uma escadaria imensa, em sucessivos e impertinentes novos lanços, a que permite ascender ao Monte do Facho, miradouro que domina o panorama da baía. É esta serra do Facho, que separa do mar o Ramo Grande, a longa planície que desemboca aqui na baía, onde foi instalada a enorme pista do aeroporto da Terceira.
Estamos numa região de grandes feitos: naturais e humanos. A actividade tectónica do Ramo Grande, em progressivo afundamento, gera sismos calamitosos. Historicamente, em 1614 e 1841provocaram destruição generalizada na cidade: as infames Caídas da Praia.
Foi também aqui que um batalhão de voluntários, obteve a “vitória da Praia”, em Agosto de 1829 impedindo o desembarque da poderosa frota Miguelista, no quadro das Guerras Liberais.
Desde o Miradouro, conseguimos imaginar, mais do que vislumbrar, os dois pequenos fortes logo abaixo de nós, junto ao mar. Sob um intenso fogo de artilharia, ali junto ao areal, onde estão as poucas pedras que restaram do Forte do Porto, além onde construíram o molhe para a descarga do combustível para as forças americanas, e uma escassa centena de metros mais à direita, o Forte do Espírito Santo. Viram-se invadidos por uma força desembarcada pelos assaltantes que se apressaram a escalar a escarpa abrupta até à zona do miradouro, fundamental para as comunicações, e donde foram repelidos pelos voluntários, que assim conquistaram a vitória: para si, para as forças Liberais e para a cidade de Praia da Vitória.
Ficou-lhes o nome engrandecido, mas do forte nada resta ou pouco mais do que a tradição local, a que afirma que o brasão na fachada do edifício da Câmara pertenceria à porta de Armas do Forte do Espírito Santo.
*“Desfaz-se junto à Praia a vaga rendilhada,
Pulveriza a Atmosfera uma névoa cor de oiro”
Vitorino Nemésio