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Escreve, escreve muito, pequenos artigos, grandes artigos, comentários, coisas pequenas, até um dia...

Morro da Pena Ventosa, é um romance extremamente bem escrito, mas sobre esse quesito, não tinha eu qualquer dúvida, mesmo antes de o abordar.
É longo de mais – já tivera essa impressão no anterior que é superior – pese embora, reparo agora, as mesmas quatro estrelas.
É importante reconhecer, aqui, que Baioa é melhor – culpe-se esta escala neo-piagetiana com apenas 5 termos.
Morro da Pena Ventosa é uma declaração de amor a um Porto rousseauiano que se existiu, não existe mais e também, um extraordinário guia do centro histórico do Porto: só por isso já merece toda a minha atenção. E é muito bom.
Não sou apreciador destes finais que, de súbito, saltam para um outro plano, fantasioso, distópico, whatever (Cf. Pés de Barro). Tivesse havido um editor que convencesse o RC a encurtá-lo um pouco e mereceria mesmo mais de 5 estrelas!
Gostei, e regressarei às suas páginas, que anotei sem contenção, se não antes, em próxima viagem ao Porto.

‘O Último Avô’, é o terceiro romance de Afonso Reis Cabral, mas o primeiro que leio.
Curiosamente, tenho na estante os outros dois. O primeiro, onde encontrei com emoção a dedicatória de um grande amigo que já não está, redescobri-o este Verão, numa reorganização geral de prateleiras 😉
Este ‘O último avô’, ouvi o ARC mencioná-lo numa sessão, há alguns meses, em Faro, e soube que teria de o ler muito em breve…
Em hora boa, outra amiga, resolveu atirar-mo aos pés (é uma imagem, cá em casa não se maltratam livros!) e dar-me um prazo para lidar com ele.
O romance é uma obra de relojoaria, arquitectada entre três gerações, construída com um detalhe e uma perfeição incomuns. Escutei recentemente alguém dizer que o ARC ‘demora dez anos a aperfeiçoar um livro, não é dos anuais’ e recordo que então me desagradou o comentário. Hoje, depois da leitura, discordando, compreendo-o perfeitamente. É um retrato de família, seccionado, fragmentado e muitas vezes colado de novo.
Os personagens são densos, há uma tensão psicológica constante que se exerce, de forma ondulatória, diferentemente do comum, da tensão que progride de forma unidireccional e nos empurra para o desfecho…
O protagonista, um escritor, o avô Campelo, é um homem difícil, complexo, intratável, talvez, que se enovelou num conjunto de histórias que vai revelando sem muito revelar, sobre a guerra colonial – o mistério da sua vida e do livro.
Não vai, decerto, suscitar muita criatividade ao nível de memes, reels e tiktoks: é muito bom.

Outubro de 2019. Um jipe em contramão embate num carro, Afonso Cruz é um dos passageiros. Numa passagem do seu livro mais recente, escreve sobre a iminência do fim. Estamos em Punta Arenas. Meio ano antes o meu avião fez-se, vagarosamente, à pista – depois de 12 horas desde Rapanui, na minha cabeça tudo parecia vagaroso. Situada na embocadura oeste, do Estreito de Magalhães é a porta de entrada para a Patagónia. Antes da abertura do canal do Panamá, era ponto de passagem obrigatório para os navios que desde o atlântico, da Europa, rumavam ao pacífico. Coincidentemente teve a sua corrida ao ouro, e depois, a passagem dos que buscavam a da Califórnia, primeiro, e a do Klondike, mais tarde. Não foi o que me trouxe, mas antes o fascínio pela Patagónia. Um ferry, pintado de cores pardas, com pinceladas de ferrugem, liga as duas margens do Estreito, cheguei com conforto, mais ou menos, a Porvenir com menos de 7000 habitantes a cidade mais populosa da Tierra del Fuego chilena. O navio reduziu a marcha, com suavidade, e entrou numa pequena baía bem protegida do mar e dos ventos. Atracou em silêncio, sem necessitar recorrer à inversão dos motores para acostar à margem, e o carro deu uns solavancos quase graciosos nas placas de metal canelado que fazem as vezes da passadeira vermelha, estendida para os meus primeiros passos na Tierra del Fuego. Um sonho de infância, que não infantil. A costa noroeste da ilha é exposta aos caprichos de ventos possantes que sopram sobre as ondas do Pacífico. A vegetação apresenta-se um pouco ressequida e a estepe prolonga-se até ao horizonte pontuada por árvores teimosas cuja inclinação face à vertical é a sua única concessão ao tratamento agreste do clima. As estradas não são asfaltadas e trazem uma gama de tonalidades de cinza a uma paleta modesta, dir-se-ia envergonhada. Traçam uma faixa contrastante que parece inutilmente querer separar a estepe, terra de siena queimada, do mar muito escuro, muito prata, muito metido consigo. Calhaus polidos, rolando desde sempre nos bicos de pés das ondas incansáveis, estremecem oferecendo mais profundidade à paisagem. As nuvens espraiam-se à vontade – aqui tudo parece espaçoso, reforçando a sensação de longínquo e em contradição, aproximando o horizonte. É uma ilha enorme onde vêm terminar os últimos contrafortes dos Andes e a Placa Sul-Americana e a Placa de Scotia se entretêm, como Maria, de Ricardo Reis, ao longo das tardes da eternidade, não a fazer meia, mas a um espectáculo ininterrupto, digno de um Agosto em vilória de província, a gerar instabilidade tectónica e actividade sísmica impressionantes. É uma beleza de uma modéstia pungente a que nos acolhe na Tierra del Fuego. De quando em quando, parecendo emergir da estepe, uns quantos guanacos, cabriolam numa das suaves colinas junto ao caminho. Um barco pintado de amarelo-açafrão, preguiçando de borco sobre os calhaus, deixa-se afagar com suavidade, já quase só pela espuma das ondas. Pontuando os limites do estradão, curtos postes de madeira, listados de branco e vermelho cádmio, foram aqui colocados, para facilitar a detecção durante as tempestades e os nevões – ou só para realçar, introduzindo uns apontamentos de cor. Ao longo da costa, observamos algumas colónias de pinguins-rei, facilmente reconhecíveis pelo tamanho e exuberância do seu babete dourado. Os cormorões passeiam-se despreocupadamente à beira-mar ou fazem curtos vôos de reconhecimento. Argentinos e Chilenos, puseram-se de acordo sobre a intensificação da exploração da ilha. Em pouco tempo estâncias descomunais tomaram conta da maior parte do território – onde as características selvagens do território o permitiram, e deram mão-livre à selvajaria humana – a que tudo permite. As vítimas deste processo de ocupação do território foram os Selknam perseguidos pelos fazendeiros, pelos homens do garimpo e mesmo por assassinos profissionais, em caçadas organizadas, pagando-se-lhes pelo número de orelhas cortadas. Atravessamos a Ilha Grande. Aparecem mais guanacos e algumas manchas arbóreas, os bosques de lenga. É por aqui que vive a raposa colorada fueguina, esquiva e naturalmente camuflada. Francisco Coloane, talentoso autor chileno, passou uma parte importante da sua vida nestas terras austrais, e deixou-nos uma brilhante colecção de contos, Tierra del Fuego, onde nos relata a beleza quase inescrutável do território e a crueldade que acompanhou a expansão de diferentes aventureiros que desbravaram a riqueza impressionante da ilha e a sua exploração intensiva. Serão Sepúlveda, sempre destro e ágil com a palavra, no seu belíssimo Patagónia Express, e Chatwin, em Na Patagónia, recheados ambos de episódios fantásticos, que acompanharão a viagem, como um marcador florescente traçando rotas sobre o mapa. Rumando até ao extremo sul, a Ushuaia, encontramos Tolhuín, pequena cidade nas margens do Lago Fagnano… a cidade é bem pitoresca – uma colorida mancha de barracões de madeira à beira-mar, contra um fundo montanhoso que evoca paisagens que associamos à Noruega. Aqui encontramos a Confitería La Unión a coisa mais deliciosa e gulosa, a esta distância, mínima, do pólo. Se Amundsen tivesse passado por aqui não teria sido o primeiro a chegar ao Polo Sul…
(*) Hay paisajes, como instantes de la vida, que no se borran jamás de la mente. Francisco Coloane






