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Escreve, escreve muito, pequenos artigos, grandes artigos, comentários, coisas pequenas, até um dia...

Bonsai é uma curtíssima novela de um autor chileno – Alejandro Zambra – que se tornou objecto de culto – o autor.
O texto é tão enxuto que arrepia. Como é possível ser tão sintético e ainda assim parecer cobrir convincentemente todas as necessidades da narrativa?
Segue o percurso de dois jovens universitários, adensado pelas frequentes citações e referências literárias, que passam elas mesmas a dar a tal profundidade que parece inicialmente em falta.
Na verdade, é um livro sobre viver, tomando a vida em profundidades diferentes e driblando tanto quanto possível os desencontros em que as vidas, as normais, são férteis.
O incipit diz imenso sobre a espessura da tal linguagem enxuta que referi. Vejamos:
Al final ella muere y él se queda solo, aunque en realidad se había quedado solo varios años antes de la muerte de ella, de Emilia. Pongamos que ella se llama o se llamaba Emilia y que él se llama, se llamaba y se sigue llamando Julio. Julio y Emilia. Al final Emilia muere y Julio no muere. El resto es literatura:
Não, não será um livro de cabeceira, mas vale muito como exemplo de como menos é mais, muito muito mais.

… a ilha do Sol, a quase 2 horas de barco desde Copacabana, não é feia nem é bonita… é assim, desinteressante…com um urbanismo sem rei nem roque, um templo do sol que não tem nada que ver com a arte de trabalhar a pedra dos incas, e me faz presumir que é um embuste, faz as delícias da juventude mochileira… (quero crer que fui mais exigente ...
... em Copacabana há pequenos grupos de rappers argentinos (!) que vão entrando de restaurante em restaurante e fazendo um número que lhes rende escassíssimas moedas, mas muito mais do que o seu talento justificaria…
...outros fazem ‘artesanato’ urbano que vendem sentados no passeio… para uma blogueira de viagens brasileira,
‘é o sítio mais lindo’ que ela já esteve!
🙄😁🤣😀👍 🎉 😃🙏
Já
... o salar de Uyuni é um lugar poético de uma beleza pungente...
faltam as palavras para descrever... o céu e o chão parecem reflectir-se mutuamente e deixam-nos sem referenciais, perdidos num limbo belíssimo... deve ser o único lugar onde outros visitantes, carros, até gente com roupa de cores insofriveis é bem vinda - sem essas presenças questionamos a nossa existência e a do hipotético universo que nos suporta...

Pois é.
Recordam aqueles professores de antigamente – porventura, ainda andam por aí mais frescos do que o lince da Malcata – que nunca davam a nota máxima, porque podia seguir-se alguma coisa "mais boa" e ficavam sem classificação? Tive bastantes. Quantos somíticos 'bom+' me pareceram merecer um 20? 😉
Porquê esta divagação? Classifiquei Apneia com 5* e agora faltam-me tentos...
TG é um conhecimento recente, mas creio que já saberia identificar 2 páginas dela no meio de um canhamaço de 1000 – Apneia tem, apenas, 700 😊. Há o estilo, há a elegância na escrita, há a escolha filigrânica do encadeamento dos vocábulos e, claro, as palavras fetiche.
Eu que detesto as obras 'modernas' construídas sobre 'causas' do momento, porque acho sempre que o timing é marqueteiro, e a coisa em si me soa a construto panfletário e oportunista, fico ali, conquistado.
TG postula, no sentido matemático do termo. Apresenta-nos emoções, sentimentos, que não sendo evidentes, acabamos aceitando sem discussão. A escrever bem, a escrever muito bem – há, felizmente, um bom número de autores – mas aqui, encontramos uma elegância, na escrita, na argumentação, que são notáveis.
Lobos é um patchwork inteligente de vidas assombradas por experiências de violência, com acompanhamento de uma linguagem singular, em que cada palavra – acredito mesmo nisto – é seleccionada com uma meticulosidade que um sommelier não coloca na harmonização mais importante. Mesmo quando a linguagem é crua, há sempre uma imensa delicadeza no tratamento das situações.
De cada capítulo saímos – porque a imersão é real – mais ricos de conhecimento, de valores, de vocabulário – o que não é fácil... 😉
Estarei atento às próximas criações.
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"Vedi Napoli, poi muori" *
Consultor em Marketing Turístico e Escritor
Um dia de sorte é sempre feito de vários componentes: a maior parte imprevistos, frequentemente inusitados.
O céu estava claro e o aparelho fazia umas curvas graciosas, quase coreografadas. Talvez para perder altitude. Com uma curva suave, vi a asa, do outro lado da coxia, elevar-se no fundo azul imaculado. Olhei então pela minha janela e reconheci, no meio de uma paisagem que parecia um painel de mosaicos irregulares e esbranquiçados, as casas e, de imediato, a mancha do Palácio Real de Caserta, os edifícios majestáticos e os jardins manicurados, cujos padrões caprichosos se deixam adivinhar mesmo do céu.
Fez nova curva e apareceu a baía em todo o seu esplendor, a cidade, derramando-se pelas colinas até ao mar, mais azul ainda do que o céu, e pontilhado de ilhas, maiores e menores, que fazem contrastar uma tela surpreendente, acrescentando pequenas coroas de espuma branca realçando o contraste dos verdes e dos azuis, que ali, se apresentam particularmente harmoniosos.
Outra curva no céu, ainda mais baixo, e apareceu o vulcão, um misto de terras agrícolas, pequenas e não tão pequenas povoações, com umas áreas pedregosas, talvez queimadas, um testemunho, uma recordação de um poder que está ali, naquele lugar a que chama casa onde continua a poder, tudo o que o homem não pode.
Alguém terá dito ao piloto que já bastava de movimentos coreográficos. O aparelho pareceu ganhar algum impulso. Alinhou-se e, em momentos pousava com uma serenidade surpreendente na pista do aeroporto de Nápoles.
Pouco depois, fiz sinal a um táxi. Aproximei-me com o meu pequeno trólei e o motorista fez-me sinal para que entrasse, com bagagem e tudo.
Mal eu fechei a porta, perguntou-me, atencioso, se queria que baixasse o volume do rádio. Não respondi. Enquanto abria um pouco a janela, arrancou rumo ao centro da cidade. Breve a serenidade daqueles últimos vinte minutos de voo seria escorraçada e uma confusão impressionante estava à espreita para me tomar os sentidos.
Era daqueles à antiga: Primeira vez? Donde vem? Contentou-se com as respostas. Que não, que era mais uma de várias vezes e que vinha de Portugal, muito embora aquele voo me tivesse trazido de Londres. Avançou para a conversa, o que lhe interessava, com mais ânimo do que o velho Mercedes rumo à confusão.
Portugal, ah sim, Portugal. Apontou para o rádio. Acabaram agora mesmo de anunciar... O Nobel da literatura. Ganhou um português, não retive o nome. Depois da aterragem cinéfila, perfeita, aquela viagem a Nápoles, decididamente, começava bem.
Poderíamos sentir-nos tentados a introduzir um anacronismo nesta crónica. Começar a exploração da cidade, onde muitos entendem que termina a Europa, para mencionar Rione Luzzatti e Elena Ferrante, hoje, a autora fetiche de Nápoles depois de Amiga Genial, dos seus Romances Napolitanos, também passada a série televisiva. Não o faremos.
Naquela manhã de Outubro de 1998, Ferrante ainda não era conhecida, mas Nápoles já tinha o seu cronista. Não, não vamos tão longe quanto Virgílio, cujo túmulo se crê estar numa gruta na zona ocidental da cidade, em Mergellina, no meio de um parque com vistas estonteantes da cidade e da sua baía (a ordem dos factores é arbitrária). Mas antes Erri de Luca, o napolitano que há décadas vem contando a história e as estórias da cidade e que, naquela altura, já tinha publicado o seu, Non ora, non qui, sobre a passagem veloz e irredimível, da infância, prenunciando Montedidio, já de 2001, passado no bairro popular homónimo. “Quem subirá ao Montedidio? Quem tiver as mãos inocentes e o coração puro.” De novo a infância, o princípio da adolescência, um rapazinho numa casa vazia que escreve numa bobina de papel que lhe deu o vizinho tipógrafo e atira ao ar o pedaço de madeira que lhe deu o mestre carpinteiro, tentando fazer um bumerangue.
Com traços finos, precisos, Erri de Luca esboça uma cidade popular cheia de beleza e miséria onde o sublime e o repugnante se encontram criando lugares fascinantes.
Tampouco havia ainda a estação de Metro de Siza Vieira e Souto Moura, a de Zaha Hadid ou a estação Toledo de Óscar Tusquets Blanca, que tem sido considerada a mais bela da Europa. E eu não deixaria de correr a ver a maravilhosa sala da meridiana, no Palácio dos Estudos Reais hoje Museu Arqueológico Nacional e a incontornável Piazza del Plebiscito, impactante na pegada que imprime no coração da cidade ou a subtileza do Cristo Velato. Sobre ele, nada como recorrer ao parágrafo contratual que cometeu a obra ao jovem escultor napolitano Giuseppe Sanmartino, realizar “uma estátua de mármore esculpida em tamanho natural, representando Cristo morto, coberto por um sudário transparente realizado no mesmo bloco da estátua”. É que ao contrário do sangue de San Gennaro, que pode ou não se liquefazer para a nossa visita – ainda assim em três datas do ano – nos aguarda sempre, com a mesma tranquilidade, os traços inefáveis e a beleza pungente.
Olhar de longe a beleza do Vesúvio sem partir de imediato para a sua visita ou a da celebrada Pompeia. A meu ver, a pequena Herculano, uma cidadezinha que sofreu o mesmo destino, acaba superando-a, não tanto pelo carácter excepcional dos achados, mas antes pela tranquilidade prazerosa da visita e a possibilidade de dar largas à imaginação e sentir-se ali no século l e cruzar-se com os transeuntes no seu quotidiano que não podem, felizmente para eles, imaginar o quão famosos ainda vão ser um dia.
Ao fim da tarde, subindo a Via Toledo e entrando num daqueles pequenos bares que se derramam sobre a rua em recantos delimitados por vasos de terracota, tomando o aperitivo do momento e vendo a cidade acolher o tramonto, destacando com o garfo de lado, pequenos pedaços de uma fatia de Sartù di riso.
* “Ver Nápoles e depois morrer”. Expressão que provém de um comentário de Goethe, no diário de viagem após a sua visita no século XVIII.
https://postal.pt/edicaopapel/vedi-napoli-poi-muori-por-jose-garrido/

Quando eu morri,
não bateram em latas,
mas cresceu cá dentro uma vontade insofrível de partir para Rapa Nui (aka Ilha de Páscoa)
.
... aqui, um tête a tête entre dois dos moais do ahu de Tongariki...
não consegui que me contassem mas fiquei com a ideia de que as coisas ficaram azedas entre os dois
😀🗿🌺🌺🗿 ❤️🙏