Le Puy en Velay, é hoje, aquilo que se chama em inglês, a backwater. Acessos manhosos com uma linha de comboio que não cheguei a perceber se era semi-inoperacional ou semi-operacional, e autocarros, à paisana, que amiúde deixam a estrada nacional para uns desvios de vários quilómetros até um fin-de-mundo ajardinado, com três rotundas, quatro mini mercados e muitos vasinhos pendurados na dúzia e meia de candeeiros.
Mas houve um tempo em que, numa encruzilhada de caminhos, ligava a Flandres, com a Aquitânia, a Itália e o Oriente, com Santiago, a Península.
A sua virgem negra, atraía peregrinos de muitas partes, e negócios, também.
O centro histórico, ruas impressionantemente conservadas escorrendo por uma encosta íngreme abaixo, encimadas pela catedral e uma enorme estátua da virgem sobre um alcantilado vertical. Ao lado fica o seminário.
Foi aí que resolvi ficar a primeira noite.
É um edifício enorme, com um vasto pátio interior semelhante a tantos outros. Antes de poder ir ao meu quarto insistiram para que fosse, de imediato, jantar, porque já tinham começado a servir...
Na grande sala, do outro lado do pátio, havia uma mesa quilométrica e duas mãos cheias de convivas - uma a cada ponta.
Estavam a passar a terrina da sopa.
Pouco depois as irmãs começaram a trazer uns tabuleiros em inox, com batatinhas no forno às rodelas, vegetais guisados, um couscous com qualquer coisa e pedacinhos de frango assado. Pedacinhos mais pequenos do que no 'frango da Guia' - quem conhece entenderá.
Do tabuleiro desprendia-se um aroma forte a especiarias. Dir-se-ia street-food no sudoeste asiático. Fixei-me então nas irmãs. Eram todas tailandesas.
Parece que a coisa está má para vocações...
A missa do peregrino, na catedral, mesmo ao lado, é às 7.
É noite ainda. A nave é vasta e fria. Um sacerdote enorme, volumoso, que anda com passinhos leves mas cheios de cerimonial, levanta-se da cadeira lateral às 7 em ponto. Quero dizer: sete zero zero. É o bispo de Le Puy e é ele quem vai oficiar.
Há uma dúzia de freiras, meia de mulheres locais e umas três dezenas de peregrinos que deixaram as mochilas, encostadas à parede lateral. Quando deixei a minha, no enfiamento das outras, ficou sob a pia da água benta. Pouco depois, reparei que tinha sido movida, senti algum incómodo enquanto tentava identificar a mochila azul com a toalha vermelha pendurada por fora.
O bispo fala um francês que me soa mecânico. As palavras são debitadas numa sequência sem pausas que me chega aos ouvidos incompreensível - quase.
Remexo-me com alguma inquietação. Sempre atento à vizinhança para acompanhar os levantar e sentar nos momentos certos.
Quando chega o ofertório apercebo-me de que dentro da pequena cestinha há um terminal multibanco.
O missa é rápida.
A comunhão, a benção colectiva e, no lugar do ite missa dita est, o bispo diz qualquer coisa em francês, repete em inglês, e diz que tenhamos atenção à grade.
Não tinha prestado atenção à enorme grelha rectangular que cobria uns parte significativa da nave. Uma cripta? Talvez.
Das entranhas da catedral veio um gemido metálico e o topo mais afastado do altar começou a erguer-se até se apresentar como um varandim ou portal a meio da nave. Sem pausa as duas metades mais longas começaram a elevar-se tambem. Havia agora um alçapão, uma bocarra enorme aberta no meio da igreja.
Uma freira desceu a correr.
Nessa altura, surpreso, esperava qualquer coisa. Qualquer coisa que começasse a erguer-se da cripta da catedral, qualquer coisa ainda mais espectacular do que o galinheiro de Santo Domingo de la Calzada. Mais Las Vegas, e não me decepcionei.
Escolhera um lugar da coxia interna e olhava discreto para o fosso mesmo ao meu lado.
Honra seja feita aos peregrinos do dia, ninguém filmava, ninguém fazia poses para as selfies... o que me pareceu, desde logo, milagroso.
Então, o bispo, lançou uma benção sobre a congregação e disse: Ide! Eis o Caminho.
Ao fundo da escada, a tal que se abria para as entranhas da igreja. Havia uma porta monumental, e mais além, o exterior, uma calçada íngreme ladeada por belíssimos edifícios históricos.
Era o início do Caminho, a Via Podiensis, popular desde a Idade Média.
Em grande!