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Via Podiensis V

por jg, em 05.10.25

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O dia começou em planaltos de montanha. 
Como as vacas, sempre presentes, que se juntam em pequenos grupos de várias cores, as árvores, pinheiros e abertos de mais variedades do que as que eu consigo identificar, fazem o mesmo. É uma pradaria de ervas douradas, que crescem mais alto nas zonas inundadas. Alguns passadiços de madeira, evitam enterrar as botas até aos tornozelos.
Dois cães de caça, farejando tudo intensamente, anunciam a chegada do caçador. Com semelhanças ao longo dos quilómetros, a paisagem vai-se sempre superando.
Uma terrinha maior anuncia-se por uma loja de produtos regionais. Entrei. Havia um sector de queijos que me chamou a atenção. Concentrei-me nos pequenos, mordíveis - já contei que ando sem canivete.
Atrás do balcão, o empregado aproximou-se à espera que saísse uma decisão. Como até hoje não encontrei um queijo de que não gostasse, a coisa estava a demorar...
Para ganhar tempo, apontei uns queijos de tamanho médio, tipo uns a que chamam merendeiras. O problema foi que não me limitei a apontar. Perguntei se eram bons.
Ah non, monsieur, ce sont dégueulasses!
Eu mereci! 🤭
Parti com um queijo do Aubrac, que me pareceu o mais apetitoso. 
Assim que pus o pé fora da loja, abriram-se as comportas do céu. Choveu, forte, nas seis horas seguintes.
A paisagem fez-se ainda mais bela. Caiu uma ligeira bruma que deixou os prados mais brilhantes e cobriu a prata mil e um pequenos cursos de água correndo apressados para o vale. Quando parecia que não se podia subir mais - e não era mentira - emergiu na paisagem uma pequena construção de madeira. Pouco maior do que duas cabinas telefónicas - perdoe-se-me o anacronismo - já tinha dois ocupantes. Um homem que, fiquei a saber, ali se tinha abrigado na véspera, e uma caminhante que também já estava farta do ruído patético que fazia a água dentro das botas. 
Os materiais técnicos, como o goretex, podem ser excelentes até às 2 horas, mas a partir daí,... nada serve 🙄
Em menos de 5 minutos fiquei a saber que ela seguia para a mesma aldeia que eu e que ele ia na direcção oposta, mas só amanhã, quando passasse a chuva.
O resto do caminho foi uma correria. Chuva forte batida a vento e descida por uns canais pedregosos por onde a água se apressava à minha frente.
Sortes do destino, acabei no mesmo dormitório com essa caminhante. 
Gente a ressonar, faz parte do Caminhos, mas esta falava. Falava que se desunhava. Chamava pelo gato bcchh bcchh bcchh, viens ici, e discutia coisas do trabalho 🤭
Acrescente-se, a seu favor, que teve, à mesa do jantar, a melhor tirada do dia.
Naquele locus bucolicus em que cada um fala do Caminho, das experiências e das motivações, ela saiu-se com esta: em março, quando terminei a primeira etapa deste Caminho, fiquei meio deprimida, arrastei-me para o autocarro de regresso a casa e só me apetecia continuar até Santiago. Uma tristeza invadiu-me e apertava muito os braços contra o corpo. Tocou o meu telemóvel. Nem reparei que número era. Ouvia a voz do meu marido: chérie, o que é o jantar? 🤣😂
 

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Via Podiensis lV

por jg, em 05.10.25

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Diferentemente dos albergues espanhóis do Caminho, aqui em França, os Gîtes, costumam servir jantar e pequeno-almoço. Raro em Espanha. E poucas vezes se vêem beliches, quase sempre camas, de largura razoável e colchão decente. No Camino, se anunciam que têm só quatro lugares, é garantido que são dois beliches, topo com topo, onde costumava ser a despensa ou a lavandaria - ficam sempre alguns objectos que o denunciam... 
Claro que os preços não são os mesmos. Ainda assim, parece-me uma excelente escolha. 
Há dois dias, havia nas entradas (sim, muitas vezes há uma entradinha ☺️) um pesto feito em casa com alho dos ursos (Allium ursinum), razoavelmente comum na montanha, que era absolutamente notável. Num outro, como sobremesa (sim, há sobremesa ☺️) tinham um crumble, feito ao fogo, com uma mistura de bagas selvagens que era indescritível. Em suma, no Caminho em França, só perde peso quem se esforçar muito 🤭
Ultreia!

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Via Podiensis III

por jg, em 03.10.25

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A povoação tinha uma fartura de produtos de primeira necessidade.
Uma charcutaria, que exibia orgulhosa um cartaz que confirmava a sua selecção como a melhor charcutaria de França, e uma vitrine exterior cheia de coisas de fazer perder a cabeça ao vegetariano mais empedernido. 
Mas não, melhor não comprar nada ali.
Cinquenta metros mais à frente uma padaria, pastelaria, cave de vinhos... Entrei!
Nas caminhadas estes lugares são terríveis - a menos que se esteja na disposição de interromper a coisa e organizar um cheese and wine.
Atrás do balcão, na cesta onde havia vários tipos de pão, reparei numa grande carcaça sobre comprida. A proprietária seguiu os meus olhos e o dedo, que parecia ter uma caimbra e apontava para o pãozinho com a teimosia da varinha de um vedor.
Centeio, massa mãe e forno de lenha, recitou, apenas a título informativo porque aquele pão já era meu.
Antes de pagar pedi que o abrisse ao meio. Desta vez não tenho canivete. Em Lyon ainda procurei uma loja chinesa, para, como de costume, comprar o canivete mais barato, destinado a ser jogado no lixo, no aeroporto antes de regressar a casa. A resposta que ouvi foi: Monsieur, aqui não temos lojas chinesas, par contre, les magazins arabes on en a partout... Desliguei a divagação e paguei o meu pãozinho, já aberto ao meio.
Despedi-me, saí, e sem hesitar, retrocedi rumo à charcutaria do Oscar. 
Havia uma quantidade impressionante de enchidos, queijos, patês, you name it. Informei o empregado de que procurava alguma coisa para aconchegar a minha carcacinha.
Escolhi um patê ou terrine, não faço ideia qual é a diferença, se é que existe. O rapaz encostou a faca ao patê, eu confirmei o tamanho pretendido e antes mesmo de me separar de cinco euros, estendi a carcaça aberta, onde foi depositada, com delicadeza, a fatia do patê.
Poucas vezes terei dado por tão bem gastos cinco euritos...
 

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Via Podiensis II

por jg, em 02.10.25

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O Caminho oferece um cenário espectacular - é, quase sempre, assim. 
Durante umas largas centenas de metros acompanha uma garganta, luxuriante de verdura, que adia com teimosia a assunção da coloração castanho avermelhada própria da época. 
É um trilho de pé posto, pedregoso qb traçado sobre uma terra igualmente arruivada a que uma canadiana se referiu, em conversa, esta manhã, como o trilho de terracota, que apesar da gentileza do nome tinha detestado. As pessoas são difíceis...
A etapa terminava numa vilória, pitoresca, magnífica, dominando um promontório rochoso arrimado à garganta de um rio.
O albergue que tinha reservado, e recebido a confirmação oportunamente, ainda estava fechado. Visitei a igreja. Regressei. Ainda fechado. 
Uma tabuleta com 'closed today' não me pareceu nada auspiciosa. Enfim telefonei.
Tanto o portátil como o fixo estavam ligados a uma gravação que me pareceu imbecil - mas eu já estava de mau humor.
Por fim fui bater à porta de outro albergue, mesmo em frente. A proprietária, uma mulher pequenina, que, suspeito, estudou para mãe-alberguista na antiga RDA, debitou um ladainha monumental de regras, princípios e causas. 
Não? As mochilas ficavam no piso térreo com os sapatos. Uma espécie de caixa daquelas que se tiram das prateleiras do Lidl para levar as compras, mas em plástico, deveria ser usada para transportar tudo para o quarto. 
Ela ainda disse que era à cause des punaises, mas eu achei que era por causa das moscas.
Quem havia de dizer que os pioneses de antanho vinham directo dos percevejos? 
Pois parece que em França, nos últimos anos, para além do champanhe e dos muitos governos, também estes punaises parecem ser coisa comum.
Antes mesmo de me liberar o acesso ao quarto a gentil-estagiária-de-Potsdam, insistiu que eu, euzinho, com mais de 20 km em cima, fosse ver o quintal do vizinho onde estava a corda da roupa...
Estive quase a prescindir dos euritos já pagos...só esperei que ela dissesse que era tudo para meu conforto e segurança. Creio mesmo que vi um raiozinho de luz que se abriu do céu sobre a cabeça dela aconselhando contenção...
Pronto! Já não conto dos ovos cozidos cortados em três e da banana cortada as rodelas, grandes, ao pequeno almoço...
 
 
 

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Via Podiensis I

por jg, em 01.10.25

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Le Puy en Velay, é hoje, aquilo que se chama em inglês, a backwater. Acessos manhosos com uma linha de comboio que não cheguei a perceber se era semi-inoperacional ou semi-operacional, e autocarros, à paisana, que amiúde deixam a estrada nacional para uns desvios de vários quilómetros até um fin-de-mundo ajardinado, com três rotundas, quatro mini mercados e muitos vasinhos pendurados na dúzia e meia de candeeiros.
Mas houve um tempo em que, numa encruzilhada de caminhos, ligava a Flandres, com a Aquitânia, a Itália e o Oriente, com Santiago, a Península.
A sua virgem negra, atraía peregrinos de muitas partes, e negócios, também.
O centro histórico, ruas impressionantemente conservadas escorrendo por uma encosta íngreme abaixo, encimadas pela catedral e uma enorme estátua da virgem sobre um alcantilado vertical. Ao lado fica o seminário. 
Foi aí que resolvi ficar a primeira noite.
É um edifício enorme, com um vasto pátio interior semelhante a tantos outros. Antes de poder ir ao meu quarto insistiram para que fosse, de imediato, jantar, porque já tinham começado a servir...
Na grande sala, do outro lado do pátio, havia uma mesa quilométrica e duas mãos cheias de convivas - uma a cada ponta.
Estavam a passar a terrina da sopa. 
Pouco depois as irmãs começaram a trazer uns tabuleiros em inox, com batatinhas no forno às rodelas, vegetais guisados, um couscous com qualquer coisa e pedacinhos de frango assado. Pedacinhos mais pequenos do que no 'frango da Guia' - quem conhece entenderá. 
Do tabuleiro desprendia-se um aroma forte a especiarias. Dir-se-ia street-food no sudoeste asiático. Fixei-me então nas irmãs. Eram todas tailandesas. 
Parece que a coisa está má para vocações...
 
A missa do peregrino, na catedral, mesmo ao lado, é às 7. 
É noite ainda. A nave é vasta e fria. Um sacerdote enorme, volumoso, que anda com passinhos leves mas cheios de cerimonial, levanta-se da cadeira lateral às 7 em ponto. Quero dizer: sete zero zero. É o bispo de Le Puy e é ele quem vai oficiar. 
Há uma dúzia de freiras, meia de mulheres locais e umas três dezenas de peregrinos que deixaram as mochilas, encostadas à parede lateral. Quando deixei a minha, no enfiamento das outras, ficou sob a pia da água benta. Pouco depois, reparei que tinha sido movida, senti algum incómodo enquanto tentava identificar a mochila azul com a toalha vermelha pendurada por fora.
O bispo fala um francês que me soa mecânico. As palavras são debitadas numa sequência sem pausas que me chega aos ouvidos incompreensível - quase.
Remexo-me com alguma inquietação. Sempre atento à vizinhança para acompanhar os levantar e sentar nos momentos certos.
Quando chega o ofertório apercebo-me de que dentro da pequena cestinha há um terminal multibanco.
O missa é rápida. 
A comunhão, a benção colectiva e, no lugar do ite missa dita est, o bispo diz qualquer coisa em francês, repete em inglês, e diz que tenhamos atenção à grade.
Não tinha prestado atenção à enorme grelha rectangular que cobria uns parte significativa da nave. Uma cripta? Talvez.
Das entranhas da catedral veio um gemido metálico e o topo mais afastado do altar começou a erguer-se até se apresentar como um varandim ou portal a meio da nave. Sem pausa as duas metades mais longas começaram a elevar-se tambem. Havia agora um alçapão, uma bocarra enorme aberta no meio da igreja.
Uma freira desceu a correr.
Nessa altura, surpreso, esperava qualquer coisa. Qualquer coisa que começasse a erguer-se da cripta da catedral, qualquer coisa ainda mais espectacular do que o galinheiro de Santo Domingo de la Calzada. Mais Las Vegas, e não me decepcionei.
Escolhera um lugar da coxia interna e olhava discreto para o fosso mesmo ao meu lado.
Honra seja feita aos peregrinos do dia, ninguém filmava, ninguém fazia poses para as selfies... o que me pareceu, desde logo, milagroso.
Então, o bispo, lançou uma benção sobre a congregação e disse: Ide! Eis o Caminho.
Ao fundo da escada, a tal que se abria para as entranhas da igreja. Havia uma porta monumental, e mais além, o exterior, uma calçada íngreme ladeada por belíssimos edifícios históricos. 
Era o início do Caminho, a Via Podiensis, popular desde a Idade Média.
Em grande!

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