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The Beast.jpg

 

Nunca lera esta novela de Henry James.

Não sei, não encontro explicação válida outra que não seja uma azia forte, insuportável, que me costumam causar os grandes textos, as leituras incontornáveis e, frequentemente também, incontestáveis. Os textos canónicos.

A Fera na Selva é-o. É tudo isso, e o contrário também. Nesse sentido, cento e vinte anos depois, é profundamente moderna e profundamente política – na acepção da palavra neste século xxi – pode ser tudo, e o seu contrário também, um conjunto elegante de asserções desafiantes, caracterizadas por uma fascinante disjuntiva polissémica.

Quando comecei a ler, uma edição clássica no original inglês, de imediato tive a sensação de que estava a ler um texto que não tinha sido pensado naquele idioma. Uma versão de altíssima qualidade, mas traduzida. Habituei-me a reconhecer no inglês uma clareza, uma objectividade, que não estava presente no texto.

Divergindo:

Há muitos anos costumava visitar parceiros no norte de áfrica junto dos quais discutia o progresso de projectos comuns – quase sempre, a ausência de progresso. As conversas decorriam em francês, raramente em espanhol, escutava-os e faziam sentido, havia uma lógica na qual os argumentos se estruturavam e eu regressava ao escritório, se não satisfeito, pelo menos esclarecido. No momento seguinte preparava o relatório em inglês. Os dedos, que antes se moviam sobre o teclado com uma fluidez de coreografia de riverdance, emperravam, tropeçavam torpemente uns nos outros, até que se imobilizavam sob o ecrã vazio. Nada daquilo fazia sentido dependurado sem jeito nem equilíbrio na nova estrutura lógica.

Regressando:

Recuperei o primeiro parágrafo da novela.

"What determined the speech that startled him in the course of their encounter scarcely matters, being probably but some words spoken by himself without intention - spoken as they lingered and slowly moved together after their renewal of acquaintance."
 

Três linhas apenas que me obrigaram a esforços inauditos. Parecia que cada vez que voltava a ler a frase original ela já se tinha transmutado sobre os meus olhos. Não, não estou a exagerar. Não era de chumbo em ouro, infelizmente. Mas havia sempre uma nuance que realçava a cada nova leitura e que tornava insatisfatória a tradução recém-realizada. E a estória repetiu-se a cada poucos parágrafos ao longo de toda a curta novela.

Henry James, aborda aqui o sentido da vida e a importância de cada detalhe – sim, esses que costumamos desprezar sistematicamente – para a sua completa compreensão. Ocorreu-me até frase de Gabo “La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla"  Mas curiosamente a versão do homem do realismo mágico, parecia-me demasiado clara e objectiva, James estava mais além.

Se amei A Fera na Selva? Não. Mas é fascinante. Uma espécie de cubo de Rubik insolúvel para amantes, ociosos, da literatura. Voltarei a ler. Um dia…

 

By the way:

"O que determinou o discurso que o sobressaltou durante o encontro, importa pouco, sendo provavelmente apenas uma ou outra palavra, dita por ele mesmo sem intenção — porventura enquanto se deixavam demorar e juntos prosseguiam lentamente após retomarem a convivência."

[Foi assim, há 20’]

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Le-Barman-du-Ritz.jpg

De vez em quando, todos merecemos, encontrar um livro assim. Porque não mais vezes, mais frequentemente? Por que lhe daríamos menos valor e pelo desgaste emocional 😉

Le Barman du Ritz de Philippe Collin, é um desses livros. Grande.

A história conta-se em duas penadas. Passa-se no bar do Ritz de Paris, um lugar superlativo, e tem como peça-chave Frank Meier, aventureiro, de origem polaca, depois austríaco, que combate na Grande Guerra pela França e torna-se um expert mundial em cocktails – o maior barman do mundo – servindo clientes como Hemingway (já repararam que ele está sempre lá? Seja onde for?), Fitzgerald, Chanel, Guitry, you name it. O romance decorre fundamentalmente entre dois eventos: a queda de Paris (invadida pelos alemães) e a libertação de Paris (pelos Aliados), quatro anos mais tarde.


É desta perspectiva, folheada a luxo, que se assiste à descida aos abismos da sociedade francesa. Enquanto uma certa elite faz os possíveis e os impossíveis para continuar a flutuar, num contexto naturalmente colaboracionista, que o autor utiliza como cenário, mas também contexto e caldo de cultura para os heroísmos do possível.
Frank, é indubitável, colabora, mas também se empenha e arrisca profundamente para salvar pessoas perseguidas pelo ocupante.


Com uma fleuma, indissociável do perfil psicológico de alguém que esconde a sua origem, polaca, atrás da infância austríaca e combate na Grande Guerra do lado oposto às suas origens, Frank é sempre de uma contenção que chega a ser perturbadora. É que ele é portador de um segredo que quase não o é – uma paixão por uma mulher casada – e de outro que o é, apesar de algumas suspeitas aqui e além, quase até ao final, – é judeu.

Duvido que me apareça até ao final do ano meia mão-cheia de coisas tão boas como esta – mas cá estamos.

 

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Convalescendo de Sarampo.jpg

LETRAS & LEITURAS: Entrevista de Paulo Serra a José Garrido publicada no Caderno de Artes Cultura.Sul de setembro

 

Em 1947, o primeiro avião da SATA a arrancar com a operação interilhas, o Açor deixa de comunicar com a torre de controlo de Santa Maria e desapareceu, com seis pessoas a bordo.

Este facto histórico inspirou o segundo romance de José Garrido. O Último Vôo do Açor partiu de uma investigação do autor e ficcionou a história de Vítor, a personagem central, a partir desse malogrado desaparecimento.

A obra, lançada recentemente, recupera este episódio trágico da aviação açoriana e cruza-o com memórias familiares, criando um romance entre a realidade e a ficção.

A intriga tem como ponto de partida uma tragédia verídica: o desaparecimento, a 5 de agosto de 1947,
do primeiro avião a operar as carreiras inter-ilhas da SATA.

A aeronave, Beechcraft UC-45B Expeditor, baptizada de “Açor”, representava o início da aviação civil regular nos Açores, marcando o começo das ligações aéreas entre as ilhas. No dia do acidente, o “Açor” descolou de São Miguel com destino a Santa Maria, transportando quatro passageiros e dois tripulantes a bordo, entre eles, o tio de José Garrido.

A escrita exigiu uma profunda investigação, nos meandros dos arquivos históricos. Garrido passou horas na Biblioteca e Arquivo Regional dos Açores e consultou documentos posteriormente divulgados pela própria SATA.

José Garrido, natural de Sintra, tem uma ligação afetiva antiga aos Açores. A sua trajetória pessoal e profissional levou-o por caminhos diversos, da ciência ao marketing, com passagem pelo sector do turismo. Estudou no Instituto Superior Técnico e, mais tarde, em Edimburgo, na Escócia, onde aprofundou os seus conhecimentos em marketing e gestão.

«Víctor regressou a São Miguel depois de várias vidas na pesca, na Terra Nova, e já não é o aventureiro que cresceu livre com o gado. Vem aprimorado, senhor de ciência e truques mais elaborados. É vigia das baleias e vê negócios, principalmente retorcidos, mais rápido que o ar quente condensado dos sopros no horizonte, e antes de qualquer outro. Um caixote com lingotes, fugindo da guerra rumo à segurança nos EUA, cai-lhe no bote. Mas não vai ser fácil desfrutar daquele presente inesperado. Com a subida da parada a vida complica-se tragicamente. Mal-entendidos com a PIDE empurram-no para um trabalho mais prosaico, no aeroporto. E poucas semanas após o início das carreiras, o Açor, o primeiro avião do serviço interilhas, deixa de responder à torre do aeroporto de Santa Maria. Na verdade, nunca chegará a responder.»

P – “O Último Vôo do Açor”, o seu segundo romance, era para ter sido o seu primeiro livro. A que se deve este compasso de espera?
R – Sim, a primeira vez que me ocorreu abraçar uma obra de fôlego – por comparação aos artigos, crónicas e pequenos contos – a história do Açor, seria, muito naturalmente, a primeira escolha. E foi. Mas bloqueei. Talvez pelo muito que tinha pensado sobre o tema, pela relação íntima, familiar, com a história, bloqueei. Tive pudor de entrar pela vida daquelas pessoas, dos malogrados ocupantes do Açor. Foi então que avançou As Estranhas Sombras da Argânia, igualmente com muito de pessoal, mas que me oferecia mais graus de liberdade, do ponto de vista criativo e afetivo.

P – O livro inspira-se, livremente, numa tragédia verídica, que foi o desaparecimento, a 5 de agosto de 1947, do primeiro avião a operar as carreiras interilhas da SATA. Existe ainda uma ligação familiar do autor a um dos tripulantes a bordo. No entanto, podemos afirmar que é sobretudo a ficção a comandar livremente o leme?
R – Correto. A solução que encontrei para ultrapassar o bloqueio foi a introdução de um personagem totalmente meu. Víctor representa uma espécie de entrada ex machina que resolve o meu drama interior. Completamente ficcional é ele quem conduz a narrativa. Às vítimas foram dedicados os poucos capítulos que antecedem o Livro Primeiro e só regressam no final para o desenlace-titanic que é, em princípio, do conhecimento dos leitores. facto histórico inspirou o segundo romance de José Garrido. O Último Vôo do Açor partiu de uma investigação do autor e ficcionou a história de Vítor, a personagem central, a partir desse malogrado desaparecimento.

A obra, lançada recentemente, recupera este episódio trágico da aviação açoriana e cruza-o com memórias familiares, criando um romance entre a realidade e a ficção.

P – “O Último Vôo do Açor”, o seu segundo romance, era para ter sido o seu primeiro livro. 
A que se deve este compasso de espera?


R –
 Sim, a primeira vez que me ocorreu abraçar uma obra de fôlego – por comparação aos artigos,
crónicas e pequenos contos – a história do Açor, seria, muito naturalmente, a primeira escolha.
E foi. Mas bloqueei. Talvez pelo muito que tinha pensado sobre o tema, pela relação íntima,
familiar, com a história, bloqueei. Tive pudor de entrar pela vida daquelas pessoas, dos
malogrados ocupantes do Açor. Foi então que avançou As Estranhas Sombras da Argânia,
igualmente com muito de pessoal, mas que me oferecia mais graus de liberdade, do ponto de vista
criativo e afetivo.

P – Pode falar-nos um pouco do processo de pesquisa para este livro?
R – A história, com todas as omissões inerentes a um episódio trágico remoto e apesar de tudo algo paroquial, sempre fora do meu conhecimento. Quando da primeira abordagem passei algum tempo na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada. Depois, ao regressar ao tema, investiguei nos arquivos, civis e militares, nacionais em Lisboa, documentação referente a vários episódios pertinentes, da Segunda Guerra Mundial, nos arquivos da CIA e junto de investigadores internacionais. Coincidentemente, a SATA entregou, por essa altura, o seu acervo histórico à BPARPD e regressei então a Ponta Delgada para mergulhar na história dos primórdios da aviação comercial nos Açores. O relatório do acidente, da Direcção-Geral da Aeronáutica Civil, cuja obtenção, na primeira abordagem, a de há quase quinze anos, me tinha custado quase um rim e, para além dos históricos ‘o’ que algumas máquinas de escrever faziam como pequenos furos circulares, vinha redigida para privacidade, com muitas passagens cobertas a negro, passou, entretanto, a estar, na íntegra, disponível na internet…

P – Há distância de três quartos de séculos, quais são os dados que conseguiu confirmar? E aqueles que poderia desmentir?
R – O avião foi devidamente revisto em Lisboa e fez voos de teste, entre Lisboa e Porto, antes de ser desmontado e enviado para Ponta Delgada.

Os dois pilotos envolvidos na operação, pese embora a sua juventude, eram (militares) experientes, com formação em Portugal e Inglaterra. O voo sinistrado era um voo regular, devidamente calendarizado e a tripulação estava descansada. As condições meteorológicas eram ‘normais’. O relatório da DGAC refere um valor excessivo para a carga, mas parece ser um erro, o que é plausível face ao aspeto e estilo gerais do relatório. Especialistas descartaram a possibilidade de explosão.

Os escassos destroços recolhidos no mar: um coxim de pergamoide; a mala (saco) do correio de PDL para Lisboa com o selo do dia e; um chinelo de quarto feminino azul; não permitem mais ilações.

P – Há uma personagem, criada pelo autor, que serve de fio condutor à intriga. Víctor afigura-se um anti-herói peculiar, solitário, embora querido por todos, com uma vida quase monástica, e a sua vida cheia de reviravoltas parece digna de uma narrativa picaresca. Concorda?
R – Sim. Eu queria que o Víctor fosse assim mesmo. Com práticas muitas vezes condenáveis e opções morais duvidosas, mas que pudesse despertar simpatias. Eu acredito que a partir de um determinado momento, pelo menos é essa a minha experiência, os personagens de algum modo libertam-se e começam a ganhar uma voz própria. Há aquela metáfora, atribuída ao Miguel Ângelo, que o autor se limita a desbastar o excesso na pedra para expor as formas da figura emergente, não recorreria a ela, mas é uma coisa tipo mediúnica… o que eu posso dizer é que ele apareceu assim, um lazarillo das ilhas…

P – Ainda sobre o fio da narrativa e as reviravoltas, há vários momentos do livro, que lhe dão mais sal, em que o leitor avança ou recua ao longo da história, entre os anos de 1908 e 1947, sensivelmente. Como se dessa forma se tentasse estender o quadro da narrativa e ter uma noção mais abrangente da própria história que envolve a posição de Portugal e dos Açores em particular entre as guerras.
R – Sim, entendi que era importante, para dar maior densidade às personagens fornecer esse contexto. A informação sobre diferentes momentos históricos, como por exemplo o Regicídio, quando o jovem Víctor vai embarcar para a Terra Nova, ou sobre a história daquela então colónia britânica e da influência dos seus colonos, bascos e galegos, cria, acredito eu, um cenário mais espesso para a ação, para além de, e esse é um aspeto característico do meu trabalho abordar a questão da comunicação entre as pessoas. No fundo foi necessária para construir o Víctor, essa componente do tipo bildungsroman que é o Livro Primeiro. Para além disso há dois traços marcantes: a viagem lato sensu, que desloca tanto como transforma o personagem e, de igual modo, a comunicação, que se processa muito para além dos idiomas aprendidos.

P – Aspeto curioso, e talvez irónico, do livro, é como através de algumas personagens vai pontuando aspetos não só próprios dos Açores mas inclusive da Ria Formosa, como “o Tiago, um homem da Fuzeta”…
R – São a minha marca de pedreiro. Nas minhas histórias existe sempre um personagem que sai do quase anonimato por essa menção da origem. É a DOC… No primeiro romance era a Fá, uma rapariga da Culatra. Posso mesmo adiantar que no trabalho que se seguiu, ao personagem ‘algarvio’, nesse caso de Santo António de Arenilha, juntaram-se-lhe duas freiras micaelenses, de Vila Franca do Campo.

Imagino que será sempre assim.

P – Dir-se-ia que a narrativa tenta, geralmente, ser isenta. No entanto há passagens em que o autor pontualmente se denuncia com comentários e observações mais acutilantes ou pessoais…
R – Mas não é sempre assim? Até que ponto é que é possível ao autor promover essa clivagem radical e separar-se por completo da estória? Apesar dos tradicionais disclaimers o autor está sempre lá, como o Víctor que a sinopse descreve. É tudo ficção, qualquer semelhança… mas não. Eu sei que já assumi esse ‘distanciamento’, que já referi o artista que empunha o escopro e que ajuda a figura a emergir do mármore, mas também posso reconstruir a metáfora e dizer que o autor não está no escopro, mas no bloco, no mármore…

P – Por fim, não obstante o desfecho trágico do último voo do Açor, há um capítulo, temporalmente deslocado que nos remete para um final mais auspicioso relativamente às desventuras de Víctor, esse “senhor de ciência e truques mais elaborados”…
R – Sim, esse Víctor, onde já projetámos lazarillo acaba por ser a arraia-miúda de Fernão Lopes, curiosamente uma expressão que o cronista vai buscar à nossa herança árabe. Um anti-herói que é todos nós e mais prosaicamente um mau-carácter de que possamos gostar.

Como já referi esta é uma história tipo titanic. Por conseguinte o elemento surpresa está naturalmente limitado, ou na tal perspetiva da viagem que mencionei anteriormente, o caminho percorrido é mais importante do que a estação de chegada, então, entendi que fazia sentido que houvesse uma voz-off que procedesse ao encerramento. É ela que tem a última palavra…

P – Já é altura de desvelar um pouco sobre novos projetos de escrita?
R – Por que não? É sempre tempo de falar de coisas boas…

Depois de O Último Vôo do Açor eu já escrevi outro romance. No primeiro, As Estranhas Sombras da Argânia, trabalhei um período de tempo limitado, o de uma viagem pelo Sul da Argélia em 1984. Para o Açor, como já disse, optei por trabalhar com o percurso de vida do Víctor culminando com a tragédia histórica do avião da SATA. Para o próximo resolvi ir mais fundo, ao século dezassete e trabalhar o percurso de vida do personagem principal. É uma história passada na raia transmontana, que me foi inspirada pela vida de um barbeiro-cirurgião, tal e como no-la conta o respetivo processo do tribunal da Inquisição de Coimbra que pude consultar na Torre do Tombo. Estará presente a viagem, uma longa viagem que fará realçar as questões associadas à comunicação entre os homens, à respetiva matriz cultural e comunitária. Estão presentes o algarvio e as freiras micaelenses que já mencionei. Está escrito, lido e revisto. Lido em voz alta e a marinar, a ganhar espessura, a convencer-me de que supera o teste do tempo… talvez no próximo ano.

Entretanto, por causa deste desfasamento entre o tempo da escrita e o tempo da publicação, voltei a escrever. Pela primeira vez, optei por escrever sem me refugiar numa bolha da qual estão ausentes as leituras que não sejam investigação para a própria obra. Isso e questões pessoais, levaram ao prolongamento inusitado da escrita. Tenho bem mais de metade do romance escrito, mas não consigo, de momento, antecipar o momento da conclusão. Pela primeira vez penso trazer a história até (quase) à atualidade. A narrativa começa em Moçambique e passa pela Etiópia culminando em Lisboa – e posso revelar que o protagonista já desembarcou em Lisboa…

https://postal.pt/edicaopapel/entrevista-a-jose-garrido-o-ultimo-voo-do-acor-por-paulo-serra/

 

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Interior da casa onde nasceu MTG em Portimão.jpg

Não é com certeza fácil para um português médio recordar os nomes dos presidentes da república. Tudo o que fica para além dos inquilinos de Belém que precederam a sua experiência de vida adulta é uma coisa longínqua que aparece num cocktail de memória com Sebastião e Afonso Henriques – o que é natural porque, então, não eram figuras que se vissem todos os dias…

Amante de livros e algarvio, grande viajante, esteta e homem de cultura, a figura do portimonense Manuel Teixeira Gomes é, porém, incontornável, e para além disso fascinante.

No seu tempo a cidade chamava-se Vila Nova de Portimão. Nascido numa família abastada, MTG interessou-se cedo pela cultura e pelas artes. Aborreceu os estudos em Coimbra, como aliás a Camilo os estudos no Porto, e cedo se apostou como um flâneur profissional.

Viajava pelo sul da Europa, principalmente, procurando mercadorias e colocação para os frutos secos que faziam a riqueza da sua família, como a das outras famílias abastadas do Algarve, e deliciando os sentidos nas paisagens, nas artes, na gastronomia nos vinhos e nas gentes.

Interessa-se pela política e logo em 1911 é nomeado embaixador em Londres: o primeiro da nova República. Não é um momento fácil das relações na putativa mais velha aliança do mundo: a instauração da república e a consequente substituição na embaixada do marquês de Soveral, com excelentes relações na corte, fazem com que apenas alguém com uma cultura e um carisma superlativo conseguisse entrosar-se no establishment britânico e ganhar mesmo a simpatia e afecto do rei Jorge V. 

MTG tem uma missão. Acredita que o conflito que vai começar, modificará a política no continente, e o continente ele mesmo, e entende que Portugal não pode ficar à margem. Não é o que hoje chamaríamos um falcão, um belicista, mas para ele, a nova república tem necessariamente de tomar partido e entrar sem reticências do lado dos Aliados.

Em Portugal o regime não prima pela estabilidade. Enganam-se todos aqueles que acreditam que no dia da revolução, as coisas mudam. Que na manhã seguinte as forças em presença são outras e as condições sociopolíticas radicalmente diferentes. Não foi assim em 1910 e não foi assim nunca.

Em 1918, com a chegada de Sidónio Pais, dão-se mudanças significativas no regime e nas políticas da República. MTG é retirado de Londres e aprisionado no Hotel Avenida Palace – eu disse-vos que era um homem de bom gosto…

A débacle das forças expedicionárias portuguesas e da administração, incapaz, primeiro de as abastecer e depois do armistício de as repatriar, gera um mal-estar significativo que culmina com o assassinato de Sidónio.

MTG volta ao activo, é embaixador em Madrid, participa na Conferência de Paz em Madrid e reassume a representação portuguesa em Londres. É aí que está quando o parlamento o elege presidente da república – a eleição directa é coisa da terceira república e nesta estória ainda vamos na primeira.

O telegrama a informar da eleição segue para Londres e MTG faz as malas. Jorge V faz questão de pôr à sua disposição um cruzador da marinha real para o transportar – uma coisa impressionante para alguém que não é oriundo da nobreza nacional – e é assim, com pompa e circunstância, que desembarca em Lisboa.

Em Belém as coisas não se apresentam fáceis. MTG será presidente durante dois anos durante os quais empossou seis governos. A agitação, também nos sectores militares, é crescente, tal como a simpatia por soluções de cariz autoritário. Sentindo-se impotente, porventura nauseado e saudoso, talvez, das suas viagens, MTG renuncia uma primeira vez e, definitivamente, em Dezembro de 1925, alegando razões de saúde e vontade de voltar a dedicar-se à actividade literária. Menos de uma semana mais tarde embarca num cargueiro holandês, dir-se-á que o primeiro a sair de Lisboa, que nem de propósito, segue para a Argélia francesa. Aí começa o seu auto-exílio e nunca mais regressará a Portugal.

Nos primeiros seis anos investe-se em viagens pela bacia do mediterrâneo – talvez aí as saudades da terra (perdoe-me Gaspar Frutuoso a apropriação), fossem menos dolorosas… São anos dedicados à bacia do mediterrâneo cuja luz e as paisagens persegue incessantemente. Escreve, escreve muito, a maior parte das suas obras, e algumas memórias saudosas e pungentes, como Regressos. Escreveu um dia: Viajar, sozinho e sem plano, sem guia.

Percorre a costa mediterrânica da Argélia, Orão e Argel que torna a visitar amiúde e escolhe Bougie, na costa da Cabília, onde se instala num quarto singelo do modesto Hotel l’Étoile, na pequena praça Gueydon.

É no quarto 13 – ainda hoje visitável – mantendo correspondência com alguns amigos e recebendo escassas visitas, que passa os derradeiros dez anos de vida. Ali, de frente para o mediterrâneo, o homem que um dia, quase 40 anos antes, no Porto, escreveu Agosto Azul.

O céu, de um azul intensíssimo, está como que esponjado de peque­nas nuvens; a Ponta do Altar perfila-se com o seu recorte siracusano, e pouco a pouco, ao declinar do Sol, acende-se em oiro.

 

A Ponta do Altar perfila-se […] e pouco a pouco, ao declinar do Sol, acende-se em oiro

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96 países | Japão

por jg, em 07.09.25

Tokyo.JPG 

...o metro de tokyo é toda uma experiência...
... para início de conversa, aquele mito urbano dos funcionários do metro com luvas brancas que empurram os passageiros para dentro das carruagens, é... mito!
... já andei em comboios mais cheios que em são petersburgo (quando te assaltam) ou são paulo, e não havia ninguém para gentilmente (ou não) empurrar os passageiros!
... ao longo dos corredores há sempre um risco no chão que define o espaço onde deves caminhar, quase sempre pela esquerda, como os carros...
... nas curvas, o risco, judiciosamente define um corredor mais largo para o sentido que, transitando por dentro da curva, é susceptível de maiores aglomerações....
... nas escadas rolantes, deves chegar-te à esquerda e parar no teu degrau, o lado direito fica disponível para quem quiser ir subindo as escadas, mais depressa.... se parares chegado à direita levas um delicado empurrão e enquanto te tentas reequilibrar vês o pessoal passar todo à tua frente....
... nos cais há marcas no chão, nos lugares que ficarão na lateral das portas, onde aguardas que desembarquem para entrares... nas estações mais movimentadas há um segundo conjunto de marcas, a 4 e 4 frente ao comboio, onde aguardas o embarque do primeiro comboio a sair, e só então, com graciosos passinhos de geisha, a fila inteira desliza como um todo para o lado, imobilizando-se à espera da próxima partida... 😀

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CAPA_Um-Pouco-Mais-de-Sol.jpg

Terá sido há uns três anos, por esta altura, a da Feira do Livro.
O Abel Mota enviou-me uma meia dúzia de folhas ‘um esboço do meu próximo texto’, o título já lá estava… Na altura, recordo, achei um tema interessante, ambicioso qb, prenhe de possibilidades: os últimos meses da vida de Mário de Sá-Carneiro. Mas tive dúvidas…
Acabei de o ler, ontem. Caramba!
Traz na capa o selo do prémio que venceu há alguns meses, mas isso, aprendi há muito, não me impressionou. Já a leitura é outra coisa…
Comecemos, para deixar já de lado, pelo que não apreciei: o delírio descritivo e o vocabulário rebuscado. Ambos nos empurram sem cerimónias para o que, é fácil de imaginar, seria o ambiente, em particular dessa plêiade de intelectuais, escritores, poetas e não só, estrangeirados, peraltas, altivos, modernistas, muito razoavelmente clivados da realidade do país e igualmente de uma e do outro. O leitor tem frequentemente necessidade de vir à tona e inspirar uma lufada de ar fresco. Ao nível da revisão detectei um par de ‘estranhezas’, mas admito que, como muitas vezes em peças literárias premiadas, tenha havido pudor em corrigir, já após a premiação.
Com o caminho desimpedido, passemos então ao que interessa.
O AM fez aqui um trabalho de investigação de um detalhe, uma minúcia e um bom gosto, absolutamente notáveis – bem alinhados com o dandismo dos ambientes e dos personagens. É impressionante. Um diário, minucioso, do próprio, não conseguiria recolher tanta minudência, tantos detalhes e observação tão escrupulosa e destacada. Um pouco mais de sol, é um quadro que foi pintado com pinceladas precisas, mas delicadas, muito cuidadas e sempre compassivas.
Foi muito inteligente a adopção de um formato, número de páginas, e construções curtas, bem à la mode (já fiquei apanhado!). Surpreende, talvez, num romance desta estatura, mas fez desabrochar uma obra literária absolutamente impactante.
Um excelente trabalho que há que parabenizar!

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O Último Vôo do Açor

por jg, em 02.09.25

Porto de Capelas.jpg

 

Blurb do meu segundo romance, O Último Vôo do Açor:

 

Víctor regressou a São Miguel depois de várias vidas na pesca, na Terra Nova, e já não é o aventureiro que cresceu livre com o gado.

Vem aprimorado, senhor de ciência e truques mais elaborados. É vigia das baleias e vê negócios, principalmente retorcidos, mais rápido que o ar quente condensado dos sopros no horizonte, e antes de qualquer outro.

Um caixote com lingotes, fugindo da guerra rumo à segurança nos EUA, cai-lhe no bote. Mas não vai ser fácil desfrutar daquele presente inesperado. Com a subida da parada a vida complica-se tragicamente.

Mal-entendidos com a PIDE empurram-no para um trabalho mais prosaico, no aeroporto. E poucas semanas após o início das carreiras, o Açor, o primeiro avião do serviço interilhas, deixa de responder à torre do aeroporto de Santa Maria.

Na verdade, nunca chegará a responder.

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