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Santa Marta.jpg

Peguei neste (segundo) romance do José Carlos (Leya 2021) que nunca tinha lido - eu sei, é uma vergonha.

Peguei nele porque no Caminho de Santiago que percorro no momento em que escrevo estas linhas atravessaria os territórios de que se ocupa e também, porque o JCB é demonstradamente muito talentoso, para além de pessoa de uma generosidade notável: o livro só podia ser (muito) bom.

Pois, ainda não cruzei o Douro e já o terminei. Há leituras que são assim.

O livro não é fácil, vem de um tempo em que os autores se concentravam no seu talento, imaginação e criatividade. Um tempo em que as regras apócrifas designadas de "escrita criativa" (oximoro bizarro), não tinham contaminado a arte da escrita - ou, deverei talvez dizer, a indústria do livro.

As frases são polidas, esmeriladas, construídas com destreza, com mestria, também com dedicação e amor, tenho a certeza.

"Porque precisamos sempre de uma outra geografia. De criar uma distância entre o que éramos e o que nos estava destinado ser."

"Olhou os companheiros de mesa como se estivesse a olhá-los pela primeira vez ou como se pela primeira vez o seu olhar estivesse disponível para ver além deles."

A intimidade com o leitor "Só faltava calhar-nos aqui um narrador, menos preocupado com o estilo do que com os conteúdos, que se desse à maçada de preencher os intervalos da narrativa."

"A ideia de ficção era incompreensível num lugar que raramente se ergueu acima das raízes das árvores de fruto ou dos juncos das margens dos rios e que viveu sempre tão próximo da concretude de uma trave mestra, de uma mesa ou um lagar de pedra, dos arames das vinhas, do solo de saibro das adegas, de uma aduela, do afiche de um andor de festa."

Ao longo dos capítulos, que se sucedem numa lógica peculiar, a trama desenvolve-se provando que não são necessários facilitismos para criar uma estória doce e trágica, uma estória que prende, que embevece.

Os lugares, inominados, são-no o suficiente para localizar num lugar si Barroso, equidistante de Friúme e Vilarinho de Samardã, polos de Camilo, e também Torga. Está tudo dito.

Ide! Correi a lê-lo!

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A cadeira de baloiço.jpg

Para além de uma escrita de riqueza e profundidade imbatíveis, Camilo, tem uma outra característica fascinante: tudo está firmemente ancorado em experiências, relacionamentos e lugares. Não só podemos procurar os locais, como também participar das polémicas, vivas, que se levantam entre freguesias, sobre o verdadeiro cenário de uma cena ou a naturalidade de um personagem. É por isso que, como poucos, se adequa à nossa filosofia de viagem e (re)descobrir as suas referências é um prazer imenso.

Munidos de um exemplar de A Brasileira de Prazins, o último grande romance do autor, fomos recentemente a Seide. São Miguel de Seide, foi a pequena freguesia a uma escassa légua de Famalicão, onde viveu as últimas quase três décadas da vida.

É um casarão rural, discreto até, comparado com muitas destas casas senhoriais que pontuam a paisagem rural do Minho. Depois de várias vicissitudes, e um incêndio, foi reconstruída com cuidado e rigor.

É, como hoje soe dizer-se, uma visita para experienciar. O piso térreo, que foi adega, apresenta uma interessante exposição-memória sobre o autor, com comentários de figuras de topo da literatura Peninsular. Mas é subindo aos andares que conseguimos a verdadeira imersão na intimidade de Camilo e já agora, de Ana Plácido, mulher memorável e também ela escritora.

Esta não foi a primeira casa de Camilo. Na infância, órfão, viveu com familiares em Vila Real e também em Vilarinho de Samardã – freguesia duriense tão especial que atraiu também a pena de Torga. Com o primeiro casamento, aos 16 anos, Camilo, estabelece-se em Friúme na margem esquerda do Tâmega, em Ribeira de Pena. Fica aí uma pequena casa museu, com loja de dois cómodos e um piso superior com a cozinha, o quarto do casal e uma daquelas varandas de madeira que apinocam as fachadas das casas tradicionais da região.

Foi aqui que colocou Maria Moisés, criança que sobrevive às águas do rio após a queda fatal da mãe que escorregou ao atravessar umas poldras limosas. Salva milagrosamente e recolhida a uma casa abastada, ergue-se a partir daqui como personagem central.

O casamento dura pouco tempo e o autor – deverei dizer o nosso herói? – segue um périplo de paixões, Viseu, Caminha, Fafe, Porto, solteiras, casadas e freiras, até que conhece Ana Plácido que pouco depois casaria com um homem que fizera fortuna no Brasil e o feliz proprietário desta casa de campo.

Se o parágrafo anterior nos remete para A Brasileira de Prazins, a continuação da estória, o processo por adultério que levará ambos à Cadeia da Relação, no Porto, é o Amor de Perdição, porventura sua obra mais famosa, escrita em apenas 15 dias. Absolvidos, passam a viver juntos e, quando, pouco depois, Ana Plácido enviúva, o filho herda esta casa de Seide.

Estamos agora, depois do indispensável enquadramento, municiados para subir a escada e visitar os espaços do piso superior. A pequena sala, com o harmónio que Ana tocava, a cozinha, com a descomunal chaminé e fumeiro, os quartos, a sala de jantar e a grande sala de visitas com janelas para dois lados.

De uma delas, ao lado do relógio de parede, o da botica, descrito de forma primorosa logo na abertura de Eusébio Macário, podemos ver por onde se inicia o trilho da Cangosta do Estêvão e adivinhar, ao passar a Ponte Pedrinha, na margem direita do rio Pele, a Casa de Passelada. Tem interesse limitado quando nos acercamos, mas fascinante deste ponto de vista, quando a reconhecemos como a casa do José Dias, o infeliz amado de A Brasileira de Prazins. Continuando para Landim, quando o trilho deixa a vizinhança do rio, aparece a Quinta do Pregal, onde terá vivido e falecido a mulher que foi a inspiração para Marta, a filha de lavrador, que o pai força a casar com o tio rico, regressado de Pernambuco, carregado com cabedais suficientes para arrematar mais de uma dúzia de boas quintas.

Dando costas à janela, próxima já da outra parede, está a cadeira de baloiço. Camilo via cada vez pior – já não via. O médico, um amigo, acabara de lhe recomendar, para a visão perdida, água do Gerês. Camilo, que nas várias vidas que viveu ao longos dos seus 65 anos, também andou pela medicina, não precisou de mais explicações. Mal teria Ana Plácido acabado de se despedir do facultativo (era esta a palavra da sua preferência), não empunhou a caneta, inútil, mas o revólver… se não se distraíram com os últimos parágrafos, estamos ainda na sala de visitas, e foi aqui mesmo que se realizou o seu velório.

Escreveu “O homem que ama é um tolo sublime”. Apetece perguntar: e o que não?

CULTURA.SUL 16.05.2025

 

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Foto: Representação artística, pungente, da vida, da sociedade, dos homens: os 'artistas' vão-se substituindo no palco, – e que outro mais apropriado do que o palco do Teatro de Marionetas, salvaguardado o respeito, enorme, pelos titereiros. Saídos de cena e descartados, os farsantes das rábulas anteriores, jazem sob a escultura.

 

Cuba: a utopia em carne viva.

[...] Cá está, o país 99.
Havana amanheceu sob uma neblina muito suave que acrescenta outra pátina à beleza cansada dos edifícios.
Aqui, o icónico Hotel Nacional, onde no ano de 46 o célebre gangster Lucky Luciano organizou a conferência entre a Máfia e a Cosa Nostra, para regular o crime organizado nos EUA.

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