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Três vinténs de sabedoria

por jg, em 27.04.25

Poleiro da Coruja.jpg

...de manhãzinha fui dar um passeio com o cão. 

O tempo de verão que tanto se fez tardar, chegou em força.

Senti um toque, arrastado mas suave, no ombro direito, e uma corrente de ar, frente à testa.

No ramo de uma alfarrobeira, a não mais de dois metros de mim, pousou uma coruja, grande, como uma galinha jovem. 

O pescoço fez duas daquelas rotações acrobáticas. 

Tolo, levei a mão ao telemóvel, olhei-o para que desbloqueasse.

Voltei a olhar a coruja - que já lá não estava.

Será que também me estou a tornar imbecil?

Lá diz o adágio: antes um pássaro que observar do que dois para fotografar.

 

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Não terei, naturalmente, competência para analisar a escrita de Camilo, isso sim, que ninguém questione a validação do apreço que ela me suscita: Camilo escreve maravilhosamente bem.

Era um tempo em que a escrita não se sustentava em oximoros nem precisava adjectivação. Ao mesmo tempo erudito, muito erudito, e popular. Engraçado como no século XIX a cultura popular era tão erudita. Gente notável como Camilo escrevia textos curtos em entregas periódicas em diferentes publicações, jornais e revistas; compositores enchiam salas de ópera com um público que era apreciador autêntico e capaz de arrotar, mas não de tossir persistentemente ao longo da récita 😉🤣. Recordo ter lido algures, que numa ocasião, a Cavalleria rusticana de Mascagni esteve em cena em dúzias de teatros italianos em simultâneo.

Voltando à Brasileira de Prazins supostamente o pretexto, se não o tema, deste apontamento:

Camilo, neste último grande romance, abandona o movimento romântico e assume as características do realismo. Se o fez numa perspectiva apenas de aderir à nova corrente ou por crítica ironia e sarcasmo, já é mais difícil de saber – pelo menos se nos ativermos apenas à obra, no momento da sua publicação.

O romance é uma tessitura de duas estórias entrelaçadas uma na outra. A tragédia (muito glosada) do amor contrariado – Marta é mais ou menos forçada a fazer um casamento de conveniência com um tio regressado rico, do Pernambuco e, a complexa trama política dos conflitos, muito populares, que emergiram um pouco por todo o país na sequência do embate entre liberais e miguelistas. O eterno messianismo dos portugueses é-nos mostrado aqui de uma forma muito curiosa. Não vemos os ‘portugueses dos brandos costumes’, mas antes um povo aguerrido, violento mesmo, não desdenhando uma boa arruaça.

Para ler e reler…

 

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Os-Loucos-da-Rua-Mazur.jpg

 

Foi de um fôlego. Faz-me pensar naqueles memes imbecis que começam, invariavelmente, com qualquer coisa do género “com que idade descobriste que as toalhas de papel ao lado do lavatório são para enxugares as mãos?”.
Eu: como foi possível deixar passar tantos anos, desde a publicação sem ter lido este livro?
Que prémio mais bem merecido!
A escrita de João Pinto Coelho é sublime. Vem imbuída de uma beleza e de uma elegância superlativas que apimenta com vocábulos incomuns, esquecidos nas páginas dos dicionários – daqueles que encontrávamos fascinados quando nos perdíamos folheando em papel, largos minutos depois de encontrado o significado procurado.
Há uma parte de mim, reconheço, que se pergunta sempre, ao ler JPC, como também a Joana Bértholo e escassos outros: será que lhes ocorrem estas palavras com naturalidade ou antes as escolhem pela poesia, pela sonoridade, ritmo e métrica e as integram nos parágrafos como um marchetado de madrepérola?
Esta é uma estória sobre uma coisa terrível. Uma coisa que tentamos sempre negar: a verdadeira natureza da humanidade.
JPC criou um mosaico de uma beleza inefável, puxando com artes de bonecreiro e muita magia os fios que fazem ganhar vida os três personagens fundamentais desta história, depois, salpicou-a generosamente com dezenas de outras personagens, quase sempre apenas nomes, profissão ou lugar de origem, para realçar a universalidade da tragédia que nos desvela. Todos estamos lá. É desnecessário entrar em detalhes: todos.
Respiguei algumas frases pela originalidade e beleza, pela maneira como me sensibilizaram:
“O livreiro valia-se então das trivialidades que restavam, o que é natural quando a vida e o homem se vão despedindo por mútuo consentimento.”
“O shtetl era um buraco, um pedaço de floresta sujo de humanidade, a mais vulgar das maldições.”
“Porque é que hei-de saber logo o fim da história? Tenho tanto direito a divertir-me como o leitor.”
“Só quero escrever e acabar de escrever, é uma chatice se a morte me apanha com um livro a meio.”
Ide. Correi a lê-lo! 

[20.02.2025]

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100 países | Colômbia

por jg, em 15.04.25

biblioteca Bogota.jpg

Cuba, a primeira etapa, já ficou para trás. Nunca tinha estado na minha lista de lugares a visitar.
Primeiro, porque era um destino de turismo organizado e eu, apesar da barba grisalha, continuo virgem de pacote de agência de viagens. Depois, porque havia dezenas de outros lugares que suspeitava serem mais interessantes, e também, porque com o tempo descobri o prazer que é revisitar os bons lugares, e entrar nos prazeres associados a uma viagem mais íntima, aquela que já vem depois de duas subidas à torre Eiffel, a selfie com o Big Ben a olhar-te sobre o ombro, ou a pirâmide de Gizé com a esfinge deitadinha ao lado, como se fosse uma mascote.
Prazer enorme foi contar com o "La transparencia del tiempo", o meu segundo do Leonardo Padura, um magnético romance negro ambientado em La Habana e nos seus miseráveis bairros periféricos. É datado de 2014 mas é de hoje. O tempo não passa em Havana - há muito tempo!
Distraio-me com o mapa interactivo da rota deste vôo na telinha do assento à minha frente. A rota traça uma tangente à costa das Honduras primeiro - saudade de Copán e do melhor assado que já me foi dado provar - e logo depois, a costa atlântica da Nicarágua, com a foz misteriosa do rio escondido que permite chegar ao coração do país, ao lago Nicarágua, com as suas ilhas vulcão.
Onde é que eu ia? Ah. Cuba. Uma distopia curiosa, distopia em carne viva. Já está. Não é preciso repetir. Viajar com Iberia tampouco.
Grandes expectativas agora para o país 100! Mais de meia vida para chegar a este dia 💪
Um dia frio, mas luminoso - ou será dos meus olhos por ter deixado Cuba e não ter voado com Iberia?
Hola Colombia! Encantado 😊

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Relógio de Seide.jpg

Há uma coisa fascinante nas referências de Camilo. 

Estão lá. Estão todas lá.

Atente-se na descrição do relógio, fotografado ontem na sua casa de Seide, retirada de Eusébio Macário:

"Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado de 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria. Os pesos, quando subiam, rangiam o estridor de um picar de amarras das velhas naus. Dava-se-lhe corda como quem tira um balde da cisterna. Por debaixo da triplicada cornija do mostrador havia uma medalha com uma dama cor de laranja, vestida de vermelhão, decotada, com uma romeira e uma pescoceira, crassa e grossa de vaca barrosã, penteada à Pompadour, com uma réstia de pedras brancas a enastrar-lhe as tranças. Cada olho era maior que a boca, de um vermelho de ginja. Ela tinha a mão esquerda escorrida no regaço, com os dedos engelhados e aduncos como um pé de perua morta; o braço direito estava no ar, hirto, com um ramalho de flores que parecia uma vassoura de hidrângeas."

Carbono 14 algum, garantiria com menor margem de erro a autenticidade da coisa.

Até um novel São Tomé se renderia perante o humor cáustico, regional, que é, ele mesmo, uma assinatura: "...uma pescoceira, crassa e grossa de vaca barrosã..."

Fico-me por aqui que já estou atrasado para o curso de escrita criativa... 😉

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Prossigo neste meu garimpo de culturas, estilos e geografias. Nunca tinha lido esta pérola de Vargas Llosa : El Hablador.
Encontro na história qualquer coisa que me recorda Torga. A terra, o telúrico, até mesmo a figura do Hablador me fez recordar personagens de alguns contos – por exemplo, o Abafador, que investiguei, para desconstruir, no meu terceiro romance.
Incrível a técnica de Vargas Llosa, escrevendo esta história a duas vozes, completamente distintas que vão alternadamente contrapondo-se à medida que nos conduz ao desfecho em que (previsivelmente, mas não menos excitantemente) se juntam.
Nesta antifonia começada algures à beira das margens do Arno (não poderia ter elegido um lugar mais significativo), desenvolve uma história, em analepse, em que nos apresenta os questionamentos de dois jovens peruanos (um deles parece profundamente autobiográfico) e um homem ‘primitivo’ que evolui numa amazónia encurralada, há décadas sob a pressão da modernidade, portadora do bem, do mal e do execrável. É assim que Vargas Llosa nos traz a sua obsessão fundamental: o papel da ficção na vida dos homens.

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Uma esplanada.jpg

 

Que ficou de Tânger, que ficou de Bowles?

Durante pouco mais de três décadas o território de Marrocos esteve dividido em vários sectores apropriadamente designados de protectorados: havia o espanhol e também o francês. Coexistiam com uma outra excentricidade, que é o que nos interessa para o artigo de hoje: a cidade internacional de Tânger. Vibrante, livre (mais ou menos) frenética, era regida por um conselho que envolvia os cônsules de diferentes países mais alguns notáveis locais.

Descobri até, não sem surpresa, durante a investigação para o meu segundo romance, que pouco depois do final da guerra, a governação da cidade internacional coube ao representante de Portugal, um ex-ministro português. Hoje, cruzando a porta na muralha que abre a sul, para o cemitério judaico, que acarinha o horizonte abaixo da fita azul cerúleo da baía, encontramos escondida nas ruelas da medina, impressionante e imponente, a Legação Americana. A sua vista ajudará a compreender muito desta estória. Atrás dela (mas a referência é irrelevante porque só os locais conservam aqui um módico de capacidade orientativa), na direcção da Grande Mesquita, ficava a Legação de Portugal.

A Cidade Internacional, foi instituída logo no início da década de 20 e duraria, de facto, até 60. Após a guerra, curiosamente durante o mandato do administrador português, Paul Bowles desembarca em Tânger onde se prepara para viver, os restantes cinquenta anos da sua vida.

Bowles é um jovem americano de classe-média, com uma educação esmerada, que faz estudos universitários na Virginia e estuda música com Aaron Copland. Mas é um quadro médio de um banco nova-iorquino e aborrece-se brutalmente com a sua vidinha confortável e banal.

Tânger, à saída da segunda guerra mundial, é uma placa giratória vibrante para contactos públicos e principalmente privados, muitos indizíveis, entre variadíssimos players mundiais de primeira linha. E como é natural atrai também uma comunidade artística e intelectual dinâmica e pujante que se instala na cidade fruindo o clima ameno, a beleza indiscutível da localização e o perfume inebriante do exotismo. Os intelectuais ocidentais, principalmente americanos, saturados por algum déjà-vu de Paris são atraídos para Tânger como borboletas para a luz.

Nenhum foi tão notório quanto Paul Bowles, que dá largas à sua criatividade, imensa, escrevendo, viajando, fazendo recolhas das tradições orais e musicais da região e atraindo outros nomes que com o decorrer dos anos se iam também tornando mais e mais notáveis.

É na cidade que publica o seu primeiro romance The Sheltering Sky estória que antecipa um conjunto de temas recorrentes na sua obra. Um casal americano no meio de uma relação em crise, parte para o norte-de-áfrica, à procura de qualquer coisa – nunca, Je ne sais quoi, pareceu uma expressão tão apropriada – mas levam consigo um amigo que, evidentemente, não vai ajudar à reconstrução da relação nem muito menos à superação da crise existencial.

Pouco depois volta a publicar. Desta vez Let It Come Down, título emprestado de uma cena de Macbeth, quando um dos assassinos está a ponto de matar Banquo.

Aqui, et pour cause, Bowles conta-nos a estória de um jovem nova-iorquino de classe média, que trabalha num banco e decide partir precisamente para Tânger, onde explora para além do seu enfado com a vida, os ambientes ameaçadores da cidade, os bordeis, as drogas e os inúmeros personagens sinistros que são tanto filhos da cidade quanto da náusea existencial em que deixou que a sua vida se tornasse.

Em Tânger, os círculos em que Bowles se move são um corrupio de nomes incontornáveis das letras do século XX. Tenessee Williams, Patricia Highsmith, Jack Kerouac, Truman Capote, Gore Vidal e William Burroughs. São cinquenta anos durante os quais a cidade se transforma sob os seus olhos a compor e a escrever linhas vívidas, fascinantes, com uma prolificidade notável, definindo uma ligação única entre o artista e a (sua) cidade.

Quando conheci Tânger pela primeira vez seria mais novo que Bowles ou o seu personagem Dyar e encontrei Tânger como ela ficou depois da independência de Marrocos, remetida ao papel melancólico de uma cidade de província, pese embora à beira-mar, o que ajuda sempre, olhando mais com uma expressão triste de inveja que propriamente nostalgia, os portos vizinhos de Ceuta e de Gibraltar.

O mundo não parou de mudar. A cidade, entretanto, refundiu-se, refez-se, várias vezes, e está aqui/ali tão acessível.

Deixo-vos numa tradução (muito) livre um parágrafo de The Sheltering Sky – quinta-essência da cidade de Bowles: 

A morte está sempre a aproximar-se. Não sabermos quando ela chegará parece aligeirar a finitude da vida. É essa terrível certeza que tanto odiamos. Na ignorância, chegamos a pensar na vida como um poço inesgotável.

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101 países | Equador

por jg, em 04.04.25

EQUADOR.jpg

E de repente chegámos ao país 101. Calhou ser o Equador, por coincidência, no dia dos mortos.
Os cemitérios na América Latina são sempre uns lugares especiais. Seja o Recoleta em Buenos Aires, uma espécie de Pére Lachaise, mas com direito à Evita em vez dos penachos de fumo sobre o Jim Morrison, ideais para passeios em família ou Chichicastenango na Guatemala, com as suas campas decrépitas super coloridas. Aqui, no Equador indígena, próximo de Otavalo, era uma feira de aldeia, com todo o mundo envergando os trajes tradicionais e montes de sacos e cestos cheios de comida, de frutas, de Guagua de Pan, os pães bolo que tanto podem assumir a forma dum boneco humano como a de um cavalo - a mim ofereceram-me uma Llama.
As famílias sentam-se apertadas no pouquíssimo espaço disponível, e aproveitando a curvatura das campas nuas de terra negra, recostam-se e recebem as tigelas com arroz e nacos de carne, as frutas e os copinhos com Colada Morada, os smoothies de diferentes frutos e muitas especiarias, ligeiramente aquecidos que se preparam para esta época do ano, agradecendo e oferecendo bençãos.
Estranho? Muito. Mas que maneira tão bonita tão refrescante de lidar com os nossos mortos.
Uma mulher, camisa bordada e várias voltas de colares de hualcas em torno do pescoço, trazia um prato carregado de agriões - que a mí hermano le encantaba...

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Sob o título “Écrire” Marguerite Duras escreve aqui sobre tudo e sobre nada. Já antes declarei o meu fastio pelo género: ensaio. Écrire sobrevive e sobrevive galhardamente, graças ao talento, imenso, da autora. Quando não, ela fala-nos da solidão; das diferentes divisões da casa em que em cada período preferia (em exclusivo) escrever; fala da mosca (não da proverbial mosca-morta 😊) mas da morte de uma mosca; fala do jovem piloto inglês, que ela insiste em nomear sempre como a ‘criança de vinte anos’, que morre anonimamente aprisionado na carlinga do seu monomotor despenhado sobre a copa de uma árvore, numa aldeia da Normandia; fala de Roma e do amor – quoi d’autre? Fala de memórias e recordações. Qualquer Ernaux medianamente talentosa poderia fazer o mesmo, mas o output seria seco e árido, o que não acontece em Duras.
Vou sempre preferir todas as outras obras – grandes, enormes – que li da autora. Os cenários da Indochina, os filmes – mesmo aqueles em que não acontece nada – nada, é nada! – como Son nom de Venise dans Calcutta désert, numa sessão da meia-noite naquele cineminha (nunca de bolso foi uma designação tão adequada) nas traseiras do hotel Roma. Ainda assim, “Écrire” é especial. Ora vejam-me esta citação que me apresso em adicionar à minha lista:
Être seul avec le livre non encore écrit, c’est être encore dans le premier sommeil de l’humanité.

Écrire | Marguerite Duras | no Goodreads

 

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