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A manécanterie.jpg

" Não tenho a certeza de quando vi a cidade pela primeira vez "

Consultor em Marketing Turístico e Escritor

 

Não tenho a certeza de quando vi a cidade pela primeira vez. Pode ter sido na adolescência, numa viagem de carro, em família, mas não posso garantir. Recordo, isso sim, ter ficado impressionado com o que me pareceu uma ilha. Uma parte do coração da cidade seria uma ilha. Na verdade, não é. Trata-se de uma península, criada pela confluência do rio Saône com o Ródano, à época, ver o lugar da junção dos rios e caminhar até à exaustão por aqueles quarteirões entre rios, fez-me acreditar que aquele centro histórico da cidade, classificado pela UNESCO como Património da Humanidade, seria mesmo uma ilha.

A cidade que se chamou Lugdunum, sempre teve a sua sorte ligada à de Roma. Por altura do período turbulento que sucedeu ao assassinato de Júlio César, os romanos apropriaram-se de uma povoação Celta e aqui criaram uma capital para a Gália.

Ao espaço que eu pensava ser uma ilha chamavam a ilha (como vêem não era só eu…) de Canabae, uma palavra que também significava celeiro e se aplicava às zonas de expansão urbana, fora dos acampamentos, onde habitavam os comerciantes – melhor localização, entre os dois rios, e com um acesso simples e directo ao mediterrâneo, não poderiam encontrar nesta encruzilhada de rotas comerciais.

A adolescência chegou ao fim, e o Emilio Salgari, o veronês que sem nunca ter saído de Itália me levou ao Bornéu quase trinta anos antes da viagem real e me apresentou a Sandokan, cedeu o lugar a outras leituras. Maurice Druon deslumbrou-me com os seus Reis Malditos, uma saga em 7 volumes, construída sobre a lenda inventada por outro veronês, Paolo Emilio, no século xv, a de que Jacques de Molay, o último grão-mestre dos Templários. Mais de um século antes, do alto da pira onde seria queimado, teria chamado o rei de França, o papa e o ministro das Finanças, e cérebro atrás de Filipe IV, a encontrarem-se com ele, do lado de lá, antes do final do ano, como se veio a verificar, acrescentando uma maldição para os seus descendentes até à décima terceira geração. Daí, os Reis Malditos.

Tudo isto para contar como me impressionou o episódio contado no quarto volume da obra, A Lei dos Varões, de quando Filipe V faz encerrar os cardeais reunidos num dos mais longos conclaves da história da cristandade. O conclave reuniu, primeiro, em Carpentras, onde cedo se verificou um impasse com a divisão em três grupos incompatíveis. Um grupo importante de cardeais consegue fugir e retomam o conclave, em Lyon, no convento dos Jacobinos – só resta a placa evocativa na praça, durante séculos triangular e agora trapezoidal, que ainda porta o seu nome. Filipe, que ainda é apenas irmão do rei, encerra-os no convento, como soe dizer-se, a cal e canto, para que elejam rapidamente um novo papa. Jacques Duèze, cardeal, chega ao conclave com 72 anos e finge-se profundamente doente. O estratagema resulta e o conclave elege-o, João XXII, para conseguir apressar a sua libertação e na expectativa de um pontificado curto – já retomariam a discussão. João XXII, o segundo papa de Avignon, reinará 18 anos!

Um outro atractivo singular de Lyon são as “traboules”, as chamadas passagens secretas, por entre edifícios, por dentro deles e ligando diferentes ruas. São afinal atalhos glorificados, a maior parte belíssimos e de descoberta e acesso nem sempre evidentes. Traboules vem do latim, trans ambulare ou passar através.  No total restam cerca de quinhentas ligando mais de duzentas ruas de Lyon. O número das que estão oficialmente abertas para visitação pelo público é, todavia, bastante reduzido. Mas vale a pena, mesmo, recorrendo à ‘lata’, à proverbial ousadia, para conseguir esgueirar-se nalgumas, como por exemplo na rua de Saint Jean, que invariavelmente se cruzará para visitar a catedral e logo a seguir a manécanterie, talvez o edifício mais antigo da cidade, que entre muitas coisas, nos seus mil anos de história, foi a escola dos jovens do coro da catedral.

Perguntar-se-á, leitor, se ouso seguir para o final desta crónica sem mencionar aquele que é porventura o autor mais famoso natural da cidade. Infelizmente, para além da placa oficial na fachada da casa que o viu nascer, no dia de São Pedro de 1900, pouco mais resta do poeta, escritor, jornalista e aviador francês, desaparecido em pleno vôo, no Verão de 44, ao largo da costa de Marselha. Fica também na nossa ‘ilha’, a casa natal de Antoine de Saint-Exupéry.

Traga consigo o Principezinho, que em bom rigor foi escrito em Nova Iorque e aí publicado, ainda durante a guerra, ilustrado com as aguarelas do autor.

Mas se preferir uma obra menos ‘fofinha’, muna-se para esta viagem de Vol de Nuit, as aventuras dos pilotos da aeroespacial na argentina ou Piloto de Guerra, sobre a invasão alemã da Holanda, da Bélgica e da França no início da guerra. Também publicado em Nova Iorque, e que conseguiu a proeza de ser limitado na edição, pelo governo de Vichy, censurado e proibido pelos nazis em Fevereiro de 43 e, meses mais tarde, por de Gaulle, na Argélia: é obra.

 

https://postal.pt/edicaopapel/nao-tenho-a-certeza-de-quando-vi-a-cidade-pela-primeira-vez-por-jose-garrido/

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Impressões de leitura | Bonsái

por jg, em 26.11.25

Bonsai.jpg

Bonsai é uma curtíssima novela de um autor chileno – Alejandro Zambra – que se tornou objecto de culto – o autor.
O texto é tão enxuto que arrepia. Como é possível ser tão sintético e ainda assim parecer cobrir convincentemente todas as necessidades da narrativa?
Segue o percurso de dois jovens universitários, adensado pelas frequentes citações e referências literárias, que passam elas mesmas a dar a tal profundidade que parece inicialmente em falta.
Na verdade, é um livro sobre viver, tomando a vida em profundidades diferentes e driblando tanto quanto possível os desencontros em que as vidas, as normais, são férteis.
O incipit diz imenso sobre a espessura da tal linguagem enxuta que referi. Vejamos:
Al final ella muere y él se queda solo, aunque en realidad se había quedado solo varios años antes de la muerte de ella, de Emilia. Pongamos que ella se llama o se llamaba Emilia y que él se llama, se llamaba y se sigue llamando Julio. Julio y Emilia. Al final Emilia muere y Julio no muere. El resto es literatura:
Não, não será um livro de cabeceira, mas vale muito como exemplo de como menos é mais, muito muito mais.

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94 países | Bolívia

por jg, em 18.11.25

Ilha do Sol.jpg

… a ilha do Sol, a quase 2 horas de barco desde Copacabana, não é feia nem é bonita… é assim, desinteressante…com um urbanismo sem rei nem roque, um templo do sol que não tem nada que ver com a arte de trabalhar a pedra dos incas, e me faz presumir que é um embuste, faz as delícias da juventude mochileira… (quero crer que fui mais exigente ...

... em Copacabana há pequenos grupos de rappers argentinos (!) que vão entrando de restaurante em restaurante e fazendo um número que lhes rende escassíssimas moedas, mas muito mais do que o seu talento justificaria…

...outros fazem ‘artesanato’ urbano que vendem sentados no passeio… para uma blogueira de viagens brasileira,

‘é o sítio mais lindo’ que ela já esteve!

🙄😁🤣😀👍 🎉 😃🙏

 

... o salar de Uyuni é um lugar poético de uma beleza pungente...

faltam as palavras para descrever... o céu e o chão parecem reflectir-se mutuamente e deixam-nos sem referenciais, perdidos num limbo belíssimo... deve ser o único lugar onde outros visitantes, carros, até gente com roupa de cores insofriveis é bem vinda - sem essas presenças questionamos a nossa existência e a do hipotético universo que nos suporta...

 

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Impressões de leitura | Lobos

por jg, em 12.11.25

Lobos.jpg

Pois é.

Recordam aqueles professores de antigamente – porventura, ainda andam por aí mais frescos do que o lince da Malcata – que nunca davam a nota máxima, porque podia seguir-se alguma coisa "mais boa" e ficavam sem classificação? Tive bastantes. Quantos somíticos 'bom+' me pareceram merecer um 20? 😉
Porquê esta divagação? Classifiquei Apneia com 5* e agora faltam-me tentos...

TG é um conhecimento recente, mas creio que já saberia identificar 2 páginas dela no meio de um canhamaço de 1000 – Apneia tem, apenas, 700 😊. Há o estilo, há a elegância na escrita, há a escolha filigrânica do encadeamento dos vocábulos e, claro, as palavras fetiche.

Eu que detesto as obras 'modernas' construídas sobre 'causas' do momento, porque acho sempre que o timing é marqueteiro, e a coisa em si me soa a construto panfletário e oportunista, fico ali, conquistado.

TG postula, no sentido matemático do termo. Apresenta-nos emoções, sentimentos, que não sendo evidentes, acabamos aceitando sem discussão. A escrever bem, a escrever muito bem – há, felizmente, um bom número de autores – mas aqui, encontramos uma elegância, na escrita, na argumentação, que são notáveis.

Lobos é um patchwork inteligente de vidas assombradas por experiências de violência, com acompanhamento de uma linguagem singular, em que cada palavra – acredito mesmo nisto – é seleccionada com uma meticulosidade que um sommelier não coloca na harmonização mais importante. Mesmo quando a linguagem é crua, há sempre uma imensa delicadeza no tratamento das situações.

De cada capítulo saímos – porque a imersão é real – mais ricos de conhecimento, de valores, de vocabulário – o que não é fácil... 😉

Estarei atento às próximas criações.

 

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Vedi Napoli, poi muori *

por jg, em 10.11.25

<Piazza Plebiscito.jpg

"Vedi Napoli, poi muori" *

Consultor em Marketing Turístico e Escritor

 

 

Um dia de sorte é sempre feito de vários componentes: a maior parte imprevistos, frequentemente inusitados.

O céu estava claro e o aparelho fazia umas curvas graciosas, quase coreografadas. Talvez para perder altitude. Com uma curva suave, vi a asa, do outro lado da coxia, elevar-se no fundo azul imaculado. Olhei então pela minha janela e reconheci, no meio de uma paisagem que parecia um painel de mosaicos irregulares e esbranquiçados, as casas e, de imediato, a mancha do Palácio Real de Caserta, os edifícios majestáticos e os jardins manicurados, cujos padrões caprichosos se deixam adivinhar mesmo do céu.

Fez nova curva e apareceu a baía em todo o seu esplendor, a cidade, derramando-se pelas colinas até ao mar, mais azul ainda do que o céu, e pontilhado de ilhas, maiores e menores, que fazem contrastar uma tela surpreendente, acrescentando pequenas coroas de espuma branca realçando o contraste dos verdes e dos azuis, que ali, se apresentam particularmente harmoniosos.

Outra curva no céu, ainda mais baixo, e apareceu o vulcão, um misto de terras agrícolas, pequenas e não tão pequenas povoações, com umas áreas pedregosas, talvez queimadas, um testemunho, uma recordação de um poder que está ali, naquele lugar a que chama casa onde continua a poder, tudo o que o homem não pode.

Alguém terá dito ao piloto que já bastava de movimentos coreográficos. O aparelho pareceu ganhar algum impulso. Alinhou-se e, em momentos pousava com uma serenidade surpreendente na pista do aeroporto de Nápoles.

Pouco depois, fiz sinal a um táxi. Aproximei-me com o meu pequeno trólei e o motorista fez-me sinal para que entrasse, com bagagem e tudo.

Mal eu fechei a porta, perguntou-me, atencioso, se queria que baixasse o volume do rádio. Não respondi. Enquanto abria um pouco a janela, arrancou rumo ao centro da cidade. Breve a serenidade daqueles últimos vinte minutos de voo seria escorraçada e uma confusão impressionante estava à espreita para me tomar os sentidos.

Era daqueles à antiga: Primeira vez? Donde vem? Contentou-se com as respostas. Que não, que era mais uma de várias vezes e que vinha de Portugal, muito embora aquele voo me tivesse trazido de Londres. Avançou para a conversa, o que lhe interessava, com mais ânimo do que o velho Mercedes rumo à confusão.

Portugal, ah sim, Portugal. Apontou para o rádio. Acabaram agora mesmo de anunciar... O Nobel da literatura. Ganhou um português, não retive o nome. Depois da aterragem cinéfila, perfeita, aquela viagem a Nápoles, decididamente, começava bem.

Poderíamos sentir-nos tentados a introduzir um anacronismo nesta crónica. Começar a exploração da cidade, onde muitos entendem que termina a Europa, para mencionar Rione Luzzatti e Elena Ferrante, hoje, a autora fetiche de Nápoles depois de Amiga Genial, dos seus Romances Napolitanos, também passada a série televisiva. Não o faremos.

Naquela manhã de Outubro de 1998, Ferrante ainda não era conhecida, mas Nápoles já tinha o seu cronista. Não, não vamos tão longe quanto Virgílio, cujo túmulo se crê estar numa gruta na zona ocidental da cidade, em Mergellina, no meio de um parque com vistas estonteantes da cidade e da sua baía (a ordem dos factores é arbitrária). Mas antes Erri de Luca, o napolitano que há décadas vem contando a história e as estórias da cidade e que, naquela altura, já tinha publicado o seu, Non ora, non qui, sobre a passagem veloz e irredimível, da infância, prenunciando Montedidio, já de 2001, passado no bairro popular homónimo. “Quem subirá ao Montedidio? Quem tiver as mãos inocentes e o coração puro.” De novo a infância, o princípio da adolescência, um rapazinho numa casa vazia que escreve numa bobina de papel que lhe deu o vizinho tipógrafo e atira ao ar o pedaço de madeira que lhe deu o mestre carpinteiro, tentando fazer um bumerangue.

Com traços finos, precisos, Erri de Luca esboça uma cidade popular cheia de beleza e miséria onde o sublime e o repugnante se encontram criando lugares fascinantes.

Tampouco havia ainda a estação de Metro de Siza Vieira e Souto Moura, a de Zaha Hadid ou a estação Toledo de Óscar Tusquets Blanca, que tem sido considerada a mais bela da Europa. E eu não deixaria de correr a ver a maravilhosa sala da meridiana, no Palácio dos Estudos Reais hoje Museu Arqueológico Nacional e a incontornável Piazza del Plebiscito, impactante na pegada que imprime no coração da cidade ou a subtileza do Cristo Velato. Sobre ele, nada como recorrer ao parágrafo contratual que cometeu a obra ao jovem escultor napolitano Giuseppe Sanmartino, realizar “uma estátua de mármore esculpida em tamanho natural, representando Cristo morto, coberto por um sudário transparente realizado no mesmo bloco da estátua”. É que ao contrário do sangue de San Gennaro, que pode ou não se liquefazer para a nossa visita – ainda assim em três datas do ano – nos aguarda sempre, com a mesma tranquilidade, os traços inefáveis e a beleza pungente.

Olhar de longe a beleza do Vesúvio sem partir de imediato para a sua visita ou a da celebrada Pompeia. A meu ver, a pequena Herculano, uma cidadezinha que sofreu o mesmo destino, acaba superando-a, não tanto pelo carácter excepcional dos achados, mas antes pela tranquilidade prazerosa da visita e a possibilidade de dar largas à imaginação e sentir-se ali no século l e cruzar-se com os transeuntes no seu quotidiano que não podem, felizmente para eles, imaginar o quão famosos ainda vão ser um dia.

Ao fim da tarde, subindo a Via Toledo e entrando num daqueles pequenos bares que se derramam sobre a rua em recantos delimitados por vasos de terracota, tomando o aperitivo do momento e vendo a cidade acolher o tramonto, destacando com o garfo de lado, pequenos pedaços de uma fatia de Sartù di riso.

 

* “Ver Nápoles e depois morrer”. Expressão que provém de um comentário de Goethe, no diário de viagem após a sua visita no século XVIII.

https://postal.pt/edicaopapel/vedi-napoli-poi-muori-por-jose-garrido/

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93 países | Chile - Rapa Nui

por jg, em 03.11.25

RapaNui.jpg

 

 

Quando eu morri,

não bateram em latas,

mas cresceu cá dentro uma vontade insofrível de partir para Rapa Nui (aka Ilha de Páscoa)

.

... aqui, um tête a tête entre dois dos moais do ahu de Tongariki...

não consegui que me contassem mas fiquei com a ideia de que as coisas ficaram azedas entre os dois

😀🗿🌺🌺🗿 ❤️🙏

 

 

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Morro da Pena Ventosa, é um romance extremamente bem escrito, mas sobre esse quesito, não tinha eu qualquer dúvida, mesmo antes de o abordar.
É longo de mais – já tivera essa impressão no anterior que é superior – pese embora, reparo agora, as mesmas quatro estrelas.
É importante reconhecer, aqui, que Baioa é melhor – culpe-se esta escala neo-piagetiana com apenas 5 termos.
Morro da Pena Ventosa é uma declaração de amor a um Porto rousseauiano que se existiu, não existe mais e também, um extraordinário guia do centro histórico do Porto: só por isso já merece toda a minha atenção. E é muito bom.
Não sou apreciador destes finais que, de súbito, saltam para um outro plano, fantasioso, distópico, whatever (Cf. Pés de Barro). Tivesse havido um editor que convencesse o RC a encurtá-lo um pouco e mereceria mesmo mais de 5 estrelas!
Gostei, e regressarei às suas páginas, que anotei sem contenção, se não antes, em próxima viagem ao Porto.

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‘O Último Avô’, é o terceiro romance de Afonso Reis Cabral, mas o primeiro que leio.

Curiosamente, tenho na estante os outros dois. O primeiro, onde encontrei com emoção a dedicatória de um grande amigo que já não está, redescobri-o este Verão, numa reorganização geral de prateleiras 😉

Este ‘O último avô’, ouvi o ARC mencioná-lo numa sessão, há alguns meses, em Faro, e soube que teria de o ler muito em breve…

Em hora boa, outra amiga, resolveu atirar-mo aos pés (é uma imagem, cá em casa não se maltratam livros!) e dar-me um prazo para lidar com ele.

O romance é uma obra de relojoaria, arquitectada entre três gerações, construída com um detalhe e uma perfeição incomuns. Escutei recentemente alguém dizer que o ARC ‘demora dez anos a aperfeiçoar um livro, não é dos anuais’ e recordo que então me desagradou o comentário. Hoje, depois da leitura, discordando, compreendo-o perfeitamente. É um retrato de família, seccionado, fragmentado e muitas vezes colado de novo.

Os personagens são densos, há uma tensão psicológica constante que se exerce, de forma ondulatória, diferentemente do comum, da tensão que progride de forma unidireccional e nos empurra para o desfecho…

O protagonista, um escritor, o avô Campelo, é um homem difícil, complexo, intratável, talvez, que se enovelou num conjunto de histórias que vai revelando sem muito revelar, sobre a guerra colonial – o mistério da sua vida e do livro.

Não vai, decerto, suscitar muita criatividade ao nível de memes, reels e tiktoks: é muito bom.

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Porvenir - Tierra del Fuego.jpg

 

 

Outubro de 2019. Um jipe em contramão embate num carro, Afonso Cruz é um dos passageiros. Numa passagem do seu livro mais recente, escreve sobre a iminência do fim. Estamos em Punta Arenas. Meio ano antes o meu avião fez-se, vagarosamente, à pista – depois de 12 horas desde Rapanui, na minha cabeça tudo parecia vagaroso. Situada na embocadura oeste, do Estreito de Magalhães é a porta de entrada para a Patagónia. Antes da abertura do canal do Panamá, era ponto de passagem obrigatório para os navios que desde o atlântico, da Europa, rumavam ao pacífico. Coincidentemente teve a sua corrida ao ouro, e depois, a passagem dos que buscavam a da Califórnia, primeiro, e a do Klondike, mais tarde. Não foi o que me trouxe, mas antes o fascínio pela Patagónia. Um ferry, pintado de cores pardas, com pinceladas de ferrugem, liga as duas margens do Estreito, cheguei com conforto, mais ou menos, a Porvenir com menos de 7000 habitantes a cidade mais populosa da Tierra del Fuego chilena. O navio reduziu a marcha, com suavidade, e entrou numa pequena baía bem protegida do mar e dos ventos. Atracou em silêncio, sem necessitar recorrer à inversão dos motores para acostar à margem, e o carro deu uns solavancos quase graciosos nas placas de metal canelado que fazem as vezes da passadeira vermelha, estendida para os meus primeiros passos na Tierra del Fuego. Um sonho de infância, que não infantil. A costa noroeste da ilha é exposta aos caprichos de ventos possantes que sopram sobre as ondas do Pacífico. A vegetação apresenta-se um pouco ressequida e a estepe prolonga-se até ao horizonte pontuada por árvores teimosas cuja inclinação face à vertical é a sua única concessão ao tratamento agreste do clima. As estradas não são asfaltadas e trazem uma gama de tonalidades de cinza a uma paleta modesta, dir-se-ia envergonhada. Traçam uma faixa contrastante que parece inutilmente querer separar a estepe, terra de siena queimada, do mar muito escuro, muito prata, muito metido consigo. Calhaus polidos, rolando desde sempre nos bicos de pés das ondas incansáveis, estremecem oferecendo mais profundidade à paisagem. As nuvens espraiam-se à vontade – aqui tudo parece espaçoso, reforçando a sensação de longínquo e em contradição, aproximando o horizonte. É uma ilha enorme onde vêm terminar os últimos contrafortes dos Andes e a Placa Sul-Americana e a Placa de Scotia se entretêm, como Maria, de Ricardo Reis, ao longo das tardes da eternidade, não a fazer meia, mas a um espectáculo ininterrupto, digno de um Agosto em vilória de província, a gerar instabilidade tectónica e actividade sísmica impressionantes. É uma beleza de uma modéstia pungente a que nos acolhe na Tierra del Fuego. De quando em quando, parecendo emergir da estepe, uns quantos guanacos, cabriolam numa das suaves colinas junto ao caminho. Um barco pintado de amarelo-açafrão, preguiçando de borco sobre os calhaus, deixa-se afagar com suavidade, já quase só pela espuma das ondas. Pontuando os limites do estradão, curtos postes de madeira, listados de branco e vermelho cádmio, foram aqui colocados, para facilitar a detecção durante as tempestades e os nevões – ou só para realçar, introduzindo uns apontamentos de cor. Ao longo da costa, observamos algumas colónias de pinguins-rei, facilmente reconhecíveis pelo tamanho e exuberância do seu babete dourado. Os cormorões passeiam-se despreocupadamente à beira-mar ou fazem curtos vôos de reconhecimento. Argentinos e Chilenos, puseram-se de acordo sobre a intensificação da exploração da ilha. Em pouco tempo estâncias descomunais tomaram conta da maior parte do território – onde as características selvagens do território o permitiram, e deram mão-livre à selvajaria humana – a que tudo permite. As vítimas deste processo de ocupação do território foram os Selknam perseguidos pelos fazendeiros, pelos homens do garimpo e mesmo por assassinos profissionais, em caçadas organizadas, pagando-se-lhes pelo número de orelhas cortadas. Atravessamos a Ilha Grande. Aparecem mais guanacos e algumas manchas arbóreas, os bosques de lenga. É por aqui que vive a raposa colorada fueguina, esquiva e naturalmente camuflada. Francisco Coloane, talentoso autor chileno, passou uma parte importante da sua vida nestas terras austrais, e deixou-nos uma brilhante colecção de contos, Tierra del Fuego, onde nos relata a beleza quase inescrutável do território e a crueldade que acompanhou a expansão de diferentes aventureiros que desbravaram a riqueza impressionante da ilha e a sua exploração intensiva. Serão Sepúlveda, sempre destro e ágil com a palavra, no seu belíssimo Patagónia Express, e Chatwin, em Na Patagónia, recheados ambos de episódios fantásticos, que acompanharão a viagem, como um marcador florescente traçando rotas sobre o mapa. Rumando até ao extremo sul, a Ushuaia, encontramos Tolhuín, pequena cidade nas margens do Lago Fagnano… a cidade é bem pitoresca – uma colorida mancha de barracões de madeira à beira-mar, contra um fundo montanhoso que evoca paisagens que associamos à Noruega. Aqui encontramos a Confitería La Unión a coisa mais deliciosa e gulosa, a esta distância, mínima, do pólo. Se Amundsen tivesse passado por aqui não teria sido o primeiro a chegar ao Polo Sul…

 

(*) Hay paisajes, como instantes de la vida, que no se borran jamás de la mente. Francisco Coloane

 

https://postal.pt/edicaopapel/ha-paisagens-assim-como-momentos-da-vida-que-nao-se-apagam-nunca-da-mente-por-jose-garrido/

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Via Podiensis XII

por jg, em 09.10.25

IMG20251008151517.jpg

 

Logo no início do século xiii, no sul de França, expande-se uma heresia católica a que se chamou o Catarismo. Falavam de um deus dual, o do bem e o do mal e, grande novidade (!) criticavam os excessos da igreja católica.
Também lhe chamam a Cruzada dos Albigenses por esta cidade ser um centro dessa heresia.
Em bom rigor é muito mais do isso. Não está documentado que esta cidade, construída não alto, na margem esquerda do rio Tarn, fosse mais herética do que outros lugares na região. Isso sim era rica e o complexo processo feudal francês de consolidação e agregação, tornou-a num alvo.
Os Albigenses foram pois muito mal tratados, havia que dar-lhes uma lição e fazia falta o exemplo.
Depois de arrasada e recolocada nos eixos, foi construída uma igreja catedral, fortificada, que fosse o símbolo mesmo do poder do deus único, mas não só. Era preciso construir uma coisa descomunal em pouco tempo e com recursos que, se bem significativos não chegavam à dimensão da ambição que impulsionava todo o processo.
Utilizou-se um tipo de tijolo local, barato e que para além de rápido de produzir, não exigia uma mão de obra tremendamente qualificada.
Foi assim que subiu na direcção dos céus a impressionante nova catedral.
Ao mesmo tempo, este gótico meridional, piscava o olho à ideia de despojamento, do agrado das populações locais, e à independência face ao crescente centralismo do rei, em Paris.
Já por dentro, é toda uma outra história.
Nos séculos seguintes a totalidade da superfície interior vai cobrir-se de frescos, que impressionam pelo detalhe, pela riqueza, pela qualidade.
 
Continua a perseguir-me esta reflexão sobre a gente modesta, nas igrejas, neste período. 
Ali estavam, miseráveis, embrutecidos, talvez, escutando uns rituais intermináveis, uns conceitos hiper complexos, num idioma que não entendiam. 
Aí entrava a arquitectura, a pintura, a ourivesaria, para legendarem um acto performativa que permaneceria, de outro modo, incompreensível. 
As paredes, os portais, os capitéis, todo o edifício, precisa então de comunicar com o crente, que esmagam, pelo excesso, pela riqueza, e pela beleza, digo eu.
 
Faz tempo que queria conhecer Albi - excelente oportunidade.

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